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Entrevista: Vilmar Berna, por Sucena Shkrada Resk

vilmarEm continuidade ao Especial EDUCOMUNICAÇÃO AMBIENTAL, do BLOG CIDADÃOS DO MUNDO, o terceiro entrevistado é o jornalista gaúcho VILMAR BERNA. Com uma biografia permeada pela militância no movimento socioambiental, optou por mudar de ‘vida’ e morar com a família, em uma colônia de pescadores em Niterói, RJ. Em 1999, recebeu o Prêmio Global 500 para o Meio Ambiente, concedido pela Organização das Nações Unidas (ONU), em reconhecimento a suas ações em prol da cidadania planetária. É um dos fundadores da Rede Brasileira de Informação Ambiental (REBIA) e edita voluntariamente a Revista do Meio Ambiente e o Portal do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br). Na carreira literária, se dedica principalmente ao tema de ecologia e educação ambiental, com mais de 10 títulos publicados.

Por Sucena Shkrada Resk

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é a sua leitura sobre a história da comunicação ambiental brasileira?

Vilmar Berna – A partir da década de 70, o inconsciente coletivo aceitava a ideia do progresso com a poluição, como um preço a pagar. Neste período, poluir chegava a ser sinônimo de crescimento. A terra desmatada era tratada como beneficiada. Três décadas depois, houve uma mudança radical dessa visão. Não se aceita mais aqueles modelos. Apesar de sermos consumidores, para mantermos a sobrevivência, não aceitamos mais a poluição como um preço por nossa paz. Essa mudança não se deu por acaso. As pessoas mudaram, porque começaram a receber informações por meio dos profissionais da comunicação, que têm o papel de mediadores. Embora os jornalistas, em geral, se recusem ao compromisso de engajamento, os comunicadores (categoria da qual faz parte) são a alavanca de conhecimento para a sociedade.

Blog Cidadãos do Mundo – Mas como esse processo acontece?

Berna – É falsa a ideia de que a informação sozinha gera mudança, precisa estar acompanhada por valores fraternos, para que não seja manipulada. A mudança não acontece ao mesmo tempo em todo mundo. Cada pessoa percebe em um momento distinto. Há setores que são mais atrasados nessa reflexão. Mas o importante a destacar é que os profissionais de comunicação fizeram avançar o inconsciente coletivo. Alguns avançaram pela dor ou pelo amor. Como exemplo, cito a cobertura de casos clássicos, como o vazamento de petróleo do Exxon Valdez (1989); o acidente em Bhopal, Índia, em que milhares de pessoas morreram por causa da nuvem tóxica provocada por um vazamento na planta da Union Carbide (1984); o acidente na Usina Nuclear Chernobyl, na Ucrânia (1986), que foi considerado o mais grave da história. Ao ter conhecimento desses casos, a sociedade começou a ver que havia algo errado com o modelo de desenvolvimento. Como também, que os representantes políticos, ao incorporarem a legislação ambiental, assumiam avanços. Outras pautas, como o trabalho escravo (caso Nike), fizeram com que as pessoas reagissem com o descaso nas relações trabalhistas/humanas.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o papel da educomunicação nesse trajeto da comunicação ambiental

Berna – Embora os profissionais de comunicação e os educadores ambientais não percebam que são lados diferentes da mesma moeda, eles são e podem ser a mesma pessoa. A noção de educomunicação tem um conteúdo filosófico, em que a educação mais a comunicação são consideradas ferramentas capazes de levar informações com valores. Há ainda uma segunda visão prática, de que a EA utiliza os meios de comunicação para atingir a massa. A proposta é sintetizar grandes saberes, por meio da informação e construir esses valores. Tudo isso vem, desde o Clube de Roma e com a Organização das Nações Unidas (ONU). Paulo Freire é um caudatário deste movimento. Ele falava que o grande desafio da educação é libertar o ser humano da escravidão do consumismo. Toda mudança exige movimentos de cima para baixo e vice-versa, principalmente das comunidades atingidas, reagindo e denunciando. Por outro lado, governos criando normas (mesmo que não cumpram). A luta continua hoje, porque os agentes que produzem mudanças permanecem ativos. A Internet possibilita essa globalização, com redes trabalhando em processos semelhantes. O desafio é aumentar a velocidade desses processos, porque se continuarmos com esse modelo predatório, o ser humano não terá mais tempo. O problema não é crescer, mas o tipo de crescimento. É preciso desconstruir mitos.

Blog Cidadãos do Mundo – Mas as redes trabalham com um propósito comum?

Berna – Segundo o mestre em Sociologia e doutor em Ciência Política, Eduardo Viola, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UNB), existem os fundamentalistas, que chamamos de naturebas, que vivem no campo, ligados à raiz e que se integram à natureza e aos rituais. Outra vertente é dos ecossocialistas, que consideram que o problema é a falta de políticas públicas e que o meio ambiente não pode ser commodity. Uma terceira modalidade é a dos chamados ecocapitalistas, que defendem que a iniciativa privada tem o papel importante para a captação de recursos e com isso as grandes corporações não querem destruir isso. Nesse contexto, há as ISOS, os selos ambientais, os prêmios. A figura do Estado se restringe ao papel regulatório das regras do jogo. Por fim, estão os pragmáticos, que evitam se sobrepor a essas posições. São aqueles que articulam os abaixo-assinados, sentam com os governantes para discutir... É uma linha mais prática. O grande desafio é que todas essas correntes falem umas com as outras e que os jornalistas ambientais se afastem um pouco dessas tendências (para ter um olhar mais isento), a não ser que seja corporativo.

Blog Cidadãos do Mundo – Como a ética está inserida na educomunicação?

Berna – Existem várias éticas, que mudam de acordo com o tempo e lugar. Não são imutáveis. Em função da informação que as pessoas recebem, elas fazem escolhas, constroem valores. O que permite mudar é estar consciente dessas escolhas. Não acredito que somos somente resultado de genes e história. Escolhemos os valores e suas relações em função da informação. Mas com certeza é falta de ética eleger determinada informação em detrimento de outra. Mentira não é ética em lugar algum. Acho inadmissível que a pretexto de divulgar uma informação considerada valorosa, por exemplo, só do lado de um movimento social, não seja ouvido o contraponto etc. Também não há nada de errado que uma empresa patrocine um veículo de comunicação. O errado é que esse patrocínio signifique cercear as informações.

*O jornalista Vilmar Berna concedeu a entrevista ao Especial Educomunicação Ambiental do Blog Cidadãos do Mundo (www.cidadaodomundo.blogse.com.br), no dia 29 de outubro deste ano, durante fantour jornalístico, do qual participamos com outros profissionais da área de comunicação ambiental, promovido em Manaus, AM, pela Honda South America. A singularidade da ocasião, que considero oportuna de mencionar, é que estávamos em uma embarcação sobre o Rio Negro, quase nas confluências com o Amazonas e Solimões. Um rico cenário educomunicativo, em que há os povos da floresta e, ao mesmo tempo, os trabalhadores do Distrito Industrial de Manaus. Pessoas que, por muitas vezes, ficam anônimas e não conseguem se expressar, porque não se dá a oportunidade a elas para esse empoderamento.

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