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Entrevistas

PESQUISA SOBRE ÁREAS PROTEGIDAS

 

 

 

    Outubro/2004

Caro Vilmar Berna

Este é um questionário dirigido aos jornalistas brasileiros considerados referência na área ambiental, e será enviado para não mais do que vinte profissionais.

 

O objetivo do questionário é mapear as percepções, avaliações e sugestões dos jornalistas pesquisados quanto à difusão das áreas protegidas (unidades de conservação), a conservação da biodiversidade e temas conexos na mídia brasileira.

 

O resultado comporá a minha tese de mestrado que está em fase de elaboração para o Programa EICOS, Cátedra da Unesco no Brasil, UFRJ.

 

Agradeço a sua colaboração e informo que o resultado será disponibilizado na íntegra para a Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental.

 

Grata,

 

Maria Cecília Trannim

 

 

Observações:

  1. Ao responder as perguntas e caso sinta necessidade de detalhar mais as informações, utilize o espaço no final da pesquisa.

  2. Esta pesquisa é composta de perguntas fechadas, nas quais somente uma resposta é possível e perguntas abertas, nas quais é desejado que você detalhe/descreva a sua posição/percepção.

  3. As perguntas nas quais o número esteja acompanhado da letra “a”, indicam que são decorrentes da pergunta anterior.

 

 

 

  1. Faixa etária:

(A) de 19 a 24 anos (B) de 25 a 29 anos (C) 30 a 34 anos (D) de 35 a 39 anos (E) de 40 a 44 anos (F) de 45 a 49 anos (G) acima de 50 anos

 

  1. Formação: Jornalista

 

  1. Área de especialização: Comunicação Ambiental

 

    1. A sua especialização é: (A) formal (B) informal

 

  1. Veículo(s) de comunicação em que você:

 

    1. Trabalha: Jornal do Meio Ambiente

 

Colabora: Diversos

 

  1. Há quanto tempo exerce a sua profissão?

(A) menos de 5 anos (B) de 6 a 10 (C) de 11 a 15 (D) de 16 a 20 (E) a mais de 21

 

  1. Quando você iniciou a sua atuação na área ambiental?

(A) menos de 5 anos (B) de 6 a 10 (C) de 11 a 15 (D) de 16 a 20 (E) a mais de 21

 

  1. Na sua opinião, quais são os principais temas enfocados na cobertura ambiental?

 

Na chamada Grande mídia, principalmente acidentes e problemas ambientais enquanto permanecerem visível. Na mídia especializada, depende do enfoque do veículo em seu público-alvo, no caso do JMA, são formadores e multiplicadores de opinião em meio ambiente, daí a pauta ser diversificada e procurar cobrir todo o espectro da complexa questão ambiental. No caso da Revista Meio Ambiente Industrial, por exemplo, o foco são gestores ambientais na iniciativa privada, então a pauta dedica-se mais às questões técnicas industriais ligadas à gestão ambiental, e assim por diante.

 

    1. Na sua percepção, a conotação simbólica desses temas é:

(A) positiva (B) medianamente positiva (C) indiferente (D) medianamente negativa (E) negativa

 

    1. Porque? NDA, pois depende do veículo e seu público. Usando os exemplos acima, no caso da Grande Mídia, a tendência é de medianamente negativa a negativa, no caso do JMA, é indiferente, no caso da Revista Meio Ambiente Industrial, é positiva.

 

 

  1. Como você definiria “áreas protegidas” com suas palavras?

 

Áreas definidas por atos legais como de proteção ambiental.

 

  1. Na sua opinião, qual a importância das áreas protegidas para a conservação da biodiversidade?

 

Acho fundamentais para a conservação da natureza, e talvez seja a forma mais bem sucedida de atingir este objetivo, pelo menos no atual quadro de educação e consciência ambiental da sociedade, que ainda vê a natureza como um armazém de recursos naturais infinitos para o ‘progresso’ humano. O problema é que pressupõe, por um lado, que, o que não está protegido numa determinada área, então pode ser usado sem os mesmos critérios de cuidados ambientais, o que não é verdadeiro, e, por outro, que o que está protegido como área natural, não pode ser tocado sob pena de ser destruído, o que também não é verdadeiro.

 

  1. De que maneira a mídia tem divulgado as áreas protegidas?

 

Quanto à Grande mídia, ou para denunciar queimadas e problemas ou como destino de ecoturismo. Na mídia ambiental, dependendo do veículo, para informar sobre descobertas científicas, política ambiental, divulgação de projetos ambientais, etc.

 

    1. Com que freqüência é feita esta divulgação?

(A) semanalmente (B) quinzenalmente (C) mensalmente (D) semestralmente (E) não posso precisar

 

  1. Na sua opinião, quais as áreas protegidas mais divulgadas pela mídia?

 

As que estão mais próximas dos grandes centros urbanos (ex. PN da Tijuca) e que são grandes destinos de ecoturismo (ex. PN de Foz do Iguaçu) ou estão no foco do interesse das ONGs Internacionais (ex. Amazônia).

 

    1. Na sua opinião, qual a razão do enfoque nessa(s) área(s)?

 

Regras do mercado. Nas grandes cidades está também o público leitor que compra este tipo de informação.

 

  1. Há dificuldades de difusão das áreas protegidas através da mídia de massa?

(A) sim (B) mediana (C) não

 

    1. Caso positivo, indique as dificuldades preponderantes em relação à cobertura e a difusão ambiental

 

Diversos:

  1. Governos, ONGs, Academia, Empresas, etc., gastam às vezes bastante para produzir conhecimento e conteúdo ambiental e muito pouco para democratizá-la. A ausência de financiamento da informação ambiental é um fator limitante tanto na esfera pública, em todos os níveis, inclusive internacional (Banco Mundial, etc.), quanto no setor privado e mesmo no terceiro setor. Apesar de existirem inúmeros projetos envolvendo a Biodiversidade e as áreas naturais, estes projetos quase nunca incluem em seus orçamentos o componente ‘democratização da informação ambiental’ gerada pelo projeto, pressupondo que os veículos se interessarão em pautar e financiar esta democratização, o que não é verdade. A divulgação é como uma moeda com dois lados, num está a informação, no outro a publicidade ou os recursos que permitem pagar gráfica, profissionais, etc. e, como o mercado não valoriza adequadamente a informação ambiental, o esforço acumulado acaba empoeirando-se em alguma estante ou gaveta. Muitas vezes os projetos limitam-se à publicação de um folder de baixa tiragem, ou a apresentação de um site pouco divulgado, ou produzem uma publicação institucional de pensamento único que não promove o contraditório, a pluralidade de opiniões e a informação, ou um livro de luxo de baixa tiragem e acesso restrito, e aí a informação ambiental sobre a biodiversidade acaba ‘encastelada’ em pequenos fóruns, que já detém a informação;

  2. Falta de interesse do mercado (leitores) pela informação ambiental (existem dezenas de títulos nas bancas do país sobre temas diversos, de sexo, vida de artistas, moda, culinária, beleza, etc., e quase nenhum sobre meio ambiente, com exceção da Revista Horizonte Geográfico, que enfoca o Ecoturismo e a Revista Natureza, que enfoca jardinagem e paisagismo);

  3. falta de espaço na grande mídia para a informação ambiental, a não ser quando é problema, ou nos cadernos de ecoturismo, quando é destino;

  4. falta de capacitação dos profissionais de comunicação;

  5. falta de uma visão conservacionista dos editores e pauteiros.

  6. Falta de veículos especializados em meio ambiente em número e tiragem suficiente. O que existe atualmente, somadas as tiragens, não alcança 500 mil expls. Por mês.

  7. Etc.

 

  1. Você identifica problemas de gestão das áreas protegidas?

(A) Sim (B) Não

 

13.a Descreva alguns, caso existam:

 

Simplificando, e sempre que se simplifica se comete erros, a grosso modo, existem duas visões distintas de gestão de uma área natural: a que considera o ser humano um fator de risco para a biodiversidade, um predador natural, cuja presença em áreas naturais que se deseja preservar, deveria ser evitada ou restringida ao máximo; e outra visão, que considera o ser humano, quando adequadamente motivado, educado e conscientizado ambientalmente, um fator de preservação dessa mesma biodiversidade. Teoricamente, os especialistas têm defendido essa segunda visão, na prática, tem sido muito difícil deixar de agir pela primeira visão. Principalmente por sete fatores, entre outros:

 

    1. a segunda visão ainda é bastante moderna e teórica, e ainda vai demorar um pouco para substituir a visão tradicional que exclui o ser humano e que está na base mesmo da filosofia que criou as unidades de conservação, no passado, como porções isoladas, há cerca de uns 50 anos. Esta filosofia, hoje, está sendo revista, pois entende-se que, ao se propor uma ‘ilha isolada’ se pressupõe por princípio que fora dessa ilha é permitido não conservar a biodiversidade, o que não é verdadeiro. Por outro lado, ao contrário das áreas naturais estrangeiras, onde praticamente, por ocasião de sua criação, só havia biodiversidade, sem a presença humana, no Brasil, é muito difícil a não existência de presença humana em áreas naturais, criando-se uma situação de injustiça social e a figura do ‘refugiado ecológico’ que apesar de ter chegado muito antes da lei que criou a proteção daquela determinada área, é tratado como um estorvo indesejável e restringido na reprodução de sua cultura e modo de vida.

 

    1. Falta capacitação de nossos gestores para lidar com a presença humana em áreas naturais protegidas. A maior parte desses gestores é formada em áreas de ciências naturais, como biólogos, engenheiros florestais, etc. e muito poucos em ciências humanas, como antropólogos, sociólogos, etc. Os cursos nas áreas de ciências naturais abordam muito pouco na grade de ensino a problemática da conservação de áreas naturais, e muito menos ainda sobre como lidar com a presença humana nessas áreas. E, até que me provem o contrário, lidar com plantas e bichos é infinitamente mais fácil que lidar com gente.

 

    1. Falta a compreensão – e conseqüentemente, investimentos - do papel da comunicação no processo de gestão. Assim como o cimento é fundamental na construção de uma ponte ligando um lugar ao outro, a comunicação é a ponte que liga diferentes pessoas, interesses, pensamentos. Sem um efetivo investimento adequado em políticas de comunicação, que considere os diferentes públicos interessados e suas diferentes linguagens, não existe gestão que funcione adequadamente. E assistimos esse erro repetir-se indefinidamente, não só na gestão de áreas naturais públicas como também nas privadas.

 

    1. A legislação considera crime ambiental agravado o dano ambiental em áreas protegidas, e penaliza tanto o agressor quanto o gestor. Na dúvida, os gestores podem preferir não arriscar e correr o risco de parecer antipático mas manter o público o mais distante possível das áreas naturais, ou restringir bastante o seu acesso, a fim de evitar problemas.

 

    1. Ainda é muito tímida a adoção de princípios de auto-sustentação, como hotéis, restaurantes, equipamentos e destinos de ecoturismo em áreas naturais, que poderiam estar gerando recursos e sustentando economicamente tais áreas. Aqui também há uma enorme falta de capacitação dos gestores que não recebem formação empreendedora e as atividades lucrativas em áreas naturais são vistas mais como um mal necessário que como um fator de preservação ambiental. Até mesmo o gestor empreendedor é visto com certa desconfiança por muitos ambientalistas que ainda têm a visão da intocabilidade ambiental das áreas naturais e que qualquer atividade lucrativa é um mal em si mesma. A aprovação de qualquer empreendimento comercial dentro de uma párea natural não só não é estimulado como sofre restrições e burocracias de desanimar qualquer investidor.

 

    1. Embora na teoria o princípio de parcerias público-privada já exista, inclusive toda uma legislação reconhece as OSCIPs como organizações que poderiam, na teoria, estarem gerindo áreas naturais públicas. Na prática, ainda não se superou a desconfiança que existe de parte a parte e aqui também as regras e burocracias desanimam qualquer tentativa.

 

    1. Os Estados e a União são abstrações jurídicas, pois se vive mesmo é no território dos municípios. Falta uma legislação que compense financeiramente os municípios pelas porções de território ‘imobilizados’ com a criação de áreas naturais protegidas. As receitas de um município, além dos repasses federais, são o ICMs, IPTU, ISS, Impostos por circulação de veículos, e nenhum desses impostos são gerados numa área natural protegida, onde não se pode construir, daí não tem, IPTU, nem há circulação de mercadorias ou de venda de combustíveis ou serviços. Assim, uma área natural traz mais ônus que bônus aos municípios e, existem municípios, como Paraty, por exemplo, no Estado do Rio de Janeiro, que 70% de seu território é área natural protegida, ou seja, o município só arrecada sobre 30% de seu território. Em nome da preservação da biodiversidade, promove-se o congelamento da miséria econômica-social da região. Essa distorção poderia ser facilmente resolvida caso o principio da compensação financeira ambiental fosse adotada em todo o país, com o exemplo do Paraná, onde o Deputado Estadual Neivo Beraldin incluiu na constituição do Estado o ICMs Ecológico.

 

  1. Como você avalia as políticas públicas dirigidas às áreas protegidas?

(A) Positiva (B) Medianamente positiva (C) Indiferente (D) Inexistente

 

    1. Porque? Creio que já respondi anteriormente.

 

  1. Quais as recomendações que você entende serem pertinentes aos órgãos públicos para a divulgação e difusão das áreas protegidas?

 

Em primeiro lugar, e acima de qualquer outra prioridade, tratar a comunicação ambiental como talvez o insumo mais importante como fator de preservação ambiental de qualquer área natural, tão ou mais importante quanto os investimentos em segurança, limpeza, delimitação, demarcação, etc., pois a comunicação é o ‘cimento’ que constrói as pontes da gestão eficiente, que leva em conta as pessoas e seus diversos interesses. Neste sentido, é importante levar em conta, entre outros fatores, que:

 

1. A comunicação ambiental, como qualquer atividade humana, não é neutra - Trata-se de uma técnica, um instrumento, que tanto pode estar a serviço de grupos e pessoas empenhadas sinceramente na defesa do meio ambiente, quanto movidas por interesses individuais ou corporativos que contratam profissionais para tentar passar uma imagem de ambientalmente responsáveis. Diante da impossibilidade de neutralidade, a política de comunicação ambiental precisa balizar sua conduta por um código de ética ambiental, como, por exemplo, o adotado pelo Jornal do Meio Ambiente (ver em www.jornaldomeioambiente.com.br , na página Código de Ética).

 

2. Direito e dever de se comunicar - As organizações têm o direito e o dever de se comunicarem adequadamente com o público interessado, informando sobre como estão cuidando do meio ambiente. Ao fazerem isso, podem contribuir para a formação de consciência ambiental na população e mesmo dar o exemplo para outros, estimulando novos investimentos em meio ambiente, num efeito cascata. Qualquer plano ou campanha de Comunicação Ambiental deve estar baseado no desejo sincero em se comunicar francamente com seus di­versos públicos. Adotar o silêncio como es­tratégia para se proteger de problemas, pode até dar certo em alguns casos, mas, quando não dá, pode ser tarde demais ou custar muito mais caro ter de corrigir boatos ou mentiras. Também deve-se evitar divulgar como grande mérito ambiental ações e projetos que fazem parte das obrigações legais ou de controle de poluição intrínsecos à própria atividade poluidora, ou então, dar ênfase exagerada a investimentos ambientais absolutamente desproporcionais com o que se retira da natureza ou se provoca em degradação ambiental, sob pena de não se conseguir agregar credibilidade à informação ambiental.

 

3. Um profissional da comunicação ambiental não precisa necessariamente ser ambientalista - Ser ambientalista é uma decisão cidadã que um profissional da comunicação ambiental pode ter ou não. Melhor se tiver, pois o planeta não é um enorme armazém de recursos infinitos, por um lado, e uma enorme lixeira capaz de absorver indefinidamente os nossos restos, por outro. O engajamento com a causa ambiental, neste caso, não é do profissional de comunicação, mas do cidadão, e isso deve estar claro para não transformar o resultado do trabalho em panfletos ideológicos onde só importa a opinião de uma lado em detrimento de outras opiniões.

 

4. Os limites da comunicação Ambiental - Só democratizar a informação ambiental pode não ser suficiente para produzir as mudanças necessárias de opinião. Não é pelo maior ou menor volume de informações que a população aprende a pensar criticamente e atuar em seu mundo para transformá-lo, se não tiver uma cultura e uma formação que predisponha as pessoas a valorizar esta informação. Sem isso, as pessoas vão pouco a pouco tornando-se insensíveis diante da informação, como se fosse mais uma espécie de poluição onde as palavras perdem o significado e importância, e tanto faz saber que derrubaram uma árvore ou uma floresta. A simples veiculação de informação ambiental desassociada de um compromisso com a cidadania crítica e participativa como defende a educação ambiental, ao contrário de estimular uma revisão de valores, pode aumentar a velocidade do saque aos recursos naturais, uma espécie de ética distorcida, como se a seleção natural das espécies separasse o mundo em vencedores (desenvolvidos, países de primeiro mundo) e perdedores (em desenvolvimento, sub-desenvolvidos, países de segundo e terceiro mundo) onde apenas os mais aptos e espertos sobrevivem, aqueles que chegaram primeiro e dispõem dos melhores meios e tecnologias para retirar e utilizar com mais eficiência e rapidez os recursos naturais, capitalizando lucros e socializando prejuízos.

 

5. Adaptar o ‘ecologês’ - Não basta ter clareza do que precisa ser mudado a fim de conseguir uma relação mais harmônica da espécie humana com a biodiversidade. É preciso sensibilizar e mobilizar a sociedade em direção a esse mundo melhor, por isso, aqueles que se comunicam com o público precisam falar uma linguagem que seja percebida por todos. Se queremos a compreensão e a mobilização da sociedade para os temas ecológicos, devemos adaptar o ecologês às carências da nossa sociedade, partindo dos temas que a sociedade já domina e conhece para os que precisa conhecer a fim de construir uma melhor relação, mais harmônica, menos poluidora com seu meio ambiente e os outros seres vivos do planeta.

 

6. A opinião pública não é um livro em branco - Ao traçar uma política de comunicação ambiental com foco na conservação das áreas naturais deve-se levar em conta que a opinião pública já dispõe de informações ambientais, mas essas informações podem ser negativas, incompletas, falsas, preconceituosas, tendenciosas. Nem toda a informação ou o melhor plano de comunicação ambiental do mundo irá convencer ou sensibilizar quem não quer ser convencido nem sensibilizado. Por isso, uma política de comunicação ambiental nunca parte do zero, mas precisa pesquisar a percepção que os diferentes públicos já possuem e, a partir daí, estabelecer uma estratégia para identificar quais os públicos são os mais prioritários, que tipo de mensagem e linguagem serão mais apropriados, que veículos deverão ser empregados, que campanhas devem ser prioritárias. A cada período, uma nova pesquisa deve ser efetivada a fim de avaliar se a política de comunicação está sendo eficaz, redefinindo prioridades e aprendendo com os erros.

 

7. A verdade como melhor estratégia - O melhor antídoto para a desconfiança do público é a verdade, com a circulação de documentos e informações específicas para este público e identificação de parceiros para projetos. Pode-se ainda promover visitas desse público às áreas naturais e seus problemas e palestras de especialistas independentes, cujas posições, apesar de críticas em relação aos problemas, mantêm abertas as portas ao diálogo e aprovam o empreendimento, embora com restrições e exigências, o que é melhor que posições absolutamente contrárias, que não favorecem o diálogo ou provocam um clima de confronto da comunidade com os gestores das áreas naturais.

 

8. Os papéis das mídias – Ao traçar planos de mídia para a área ambiental é importante que os profissionais de comunicação compreendam o papel complementar da chamada Grande Mídia e das mídias especializadas em meio ambiente, a fim de evitar o desperdício de informação e de recursos, e obterem melhores resultados junto ao segmento da opinião pública que realmente se interessa e leva em conta a informação ambiental. A Grande Mídia precisa atender um público diferenciado que está interessado em diversos assuntos, e isso inclui muitos mais temas que só o ambiental. Já a mídia ambiental também aborda diversos temas, mas todos interligados direta ou indiretamente à questão ambiental, tornando-se uma referência natural para quem busca informações ambientais.

 

9. O todo em vez das partes - É importante adotar um Plano de Comunicação de forma sistêmica, ou seja, envolvendo a todos e não apenas um de seus setores, pois não adianta um setor para preservar e criar uma imagem de compromisso com o meio ambiente, se outros setores contribuem para a imagem de poluição e degradação ambiental. Por exemplo, tão importante quanto a atuação coordenada dos setores de relações públicas, assessoria de imprensa, publicidade e propaganda, é a atuação de setores como portaria, limpeza, controle e monitoramento ambiental, etc.

 

10. Comunicação em mão dupla – O diálogo tem a função de reconciliar posições conflitantes, sendo mais eficaz que a imposição e o controle. Ao criar canais de negociação, como Conselhos Comunitários, ou de Gestão, ou Auditorias Ambientais Não-Governamentais, as organizações permitem que os tomadores de decisão se antecipem a problemas ou adotem novos procedimentos no seu gerenciamento e atividades ambientais. As análises e decisões sobre os problemas, quando tomadas em conjunto, estimulam o envolvimento e comprometimento de todos nas soluções adotadas.

 

  1. Você acha que o seu público (o público interessado na temática ambiental) entende o que é uma área protegida e a sua importância?

(A) totalmente (B) razoavelmente (C) não

 

    1. Porque?

Falta informação em quantidade e qualidade suficiente, as universidades também não tratam adequadamente do assunto e a pessoa interessada precisa buscar a informação de forma autodidata.

 

 

  1. Você acha que o grande público entende o que é uma área protegida e a sua importância?

(A) totalmente (B) razoavelmente (C) não

 

    1. Porque?

Por que não tem o estímulo e motivação para buscar esta informação, que nem sempre está acessível, e na linguagem adequada aos diferentes públicos. E aqui é importante procurar entender por que o grande público não se sente motivado para buscar – ou comprar – esta informação. No meu entendimento, existe uma diferença entre a informação que a sociedade quer - e o mercado compra - e a informação que ela precisa – e nem sempre interessa ao mercado comprar. Logo, não se trata de adequar os veículos ao que o público quer. Por que o público não quer informação ambiental, não quer saber de desgraças ambientais, saber que nosso estilo de vida é suicida, etc. E quando ele não quer, não adianta mudar formato, pauta, coloca a Xuxa na capa, que não vai vender mesmo! Quando o público quer, como as inúmeras publicações sobre a vida alheia, sexo, etc, nem precisa ser de papel de primeira qualidade.

É preciso compreender o que está por trás deste desinteresse do público. As árvores não são derrubadas, a fauna sacrificada ou o meio ambiente poluído porque nossa espécie desconhece os impactos dessas ações sobre a natureza. A destruição da natureza não resulta da forma como nossa espécie se relaciona com essa natureza, mas da maneira como se relaciona consigo mesma. Ao desmatar, queimar, poluir, utilizar ou desperdiçar recursos naturais ou energéticos, cada ser humano está reproduzindo o que aprendeu ao longo da história e cultura de seu povo, portanto, este não é um ato isolado de um ou outro indivíduo, mas reflete valores adquiridos e as relações sociais e tecnológicas de sua sociedade. A atual relação de nossa espécie com a natureza é apenas um reflexo do atual estágio de desenvolvimento das relações humanas entre nós próprios. Vivemos sendo explorados, achamos justo e legítimo explorar.

O interesse do público em relação à informação ambiental está relacionado ao seu grau de consciência ambiental que, ao contrário do que se imagina, existe, só que de forma romântica - para a maior parte da população, meio ambiente é ligado às árvores, florestas, animais, como se o ser humano não fizesse parte do planeta. Isso gera um tipo de consciência que considera a questão ambiental importante, mas não prioritária. Existem outras prioridades e interesses que movem a opinião pública, seja em direção à escolha de um candidato político, seja em direção a uma banca de jornal e o meio ambiente não está entre eles, infelizmente.  Por isso, não é à toa que existem muito mais títulos à venda sobre beleza, sexo, sucesso nos negócios, vida de artistas, etc., e NÃO EXISTE UM ÚNICO VEÍCULO ESPECIALIZADO EM MEIO AMBIENTE À VENDA NAS BANCAS DO PAÍS - com exceção da Revisa Horizonte Geográfico, mais voltada para o ecoturismo, e a Revista Natureza, voltada para jardins e paisagismo. E isso faz a diferença na hora de conseguir o financiamento da informação ambiental. Se o 'mercado' não quer comprar este tipo de informação, então, como conseguir que os patrocinadores invistam nela?

A solução para o financiamento da informação ambiental não se dará através do mercado, mas de políticas públicas. Sabedores deste desafio, os países membros da ONU aprovaram durante a RIO 92 a Agenda 21, como um roteiro a ser seguido em direção ao desenvolvimento sustentável. Em seu capítulo 40, sobre Informação Para a Tomada de Decisões, os signatários recomendam que "sempre que existam impedimentos econômicos ou de outro tipo que dificultem a oferta de informação e o acesso a ela, particularmente nos países em desenvolvimento, deve-se considerar a criação de esquemas inovadores para subsidiar o acesso a essa informação ou para eliminar os impedimentos não econômicos." Os representantes dos países signatários justificam essa medida ao reconhecer que "em muitos países, a informação não é gerenciada adequadamente devido à falta de recursos financeiros e pessoal treinado, desconhecimento de seu valor e de sua disponibilidade e a outros problemas imediatos ou prementes, especialmente nos países em desenvolvimento. Mesmo em lugares em que a informação está disponível, ela pode não ser de fácil acesso devido à falta de tecnologia para um acesso eficaz ou aos custos associados, sobretudo no caso da informação que se encontra fora do país e que está disponível comercialmente." O que os países da ONU, inclusive o Brasil, perceberam claramente é que sem democratização da informação ambiental dificilmente haverá pleno desenvolvimento da cidadania ambiental, prejudicando o diálogo e o estabelecimento de parcerias entre os diferentes setores da sociedade brasileira envolvidos com a questão ambiental.

Existem veículos e jornalistas mais e menos competentes em qualquer lugar do planeta. E, quanto mais visível for um problema ambiental, quanto mais afetar áreas ambientalmente frágeis, ou o abastecimento público, ou o lazer, ou a paisagem, então o público estará mais e mais interessado, e isso significa, vender mais publicações, mais audiências, etc. e, por conseqüência, os editores investirão mais em suas coberturas jornalísticas e, com mais recursos e prioridades, os repórteres também darão mais de si. É uma pena que tenha de ser assim, com dor, com perdas, o processo de tomada de consciência ambiental da sociedade. Poderia ser com amor, com compreensão, com ética, com compromisso de nossa geração com as outras e com as demais espécies.

 

  1. Como você percebe que a Assessoria de Comunicação / Relações Públicas das empresas poluidoras abordam a problemática ambiental?

 

Hoje, as empresas são obrigadas a ver a questão ambiental com seriedade, menos pela pressão dos ambientalistas ou exigências legais e mais como exigência do próprio mercado e principalmente como medida de ecoeficiência, já que parece haver a compreensão quase unânime de que poluição é desperdício de matéria prima além de significar maior despesa de tratamento de efluentes. Mas, sem uma política de comunicação adequada, direcionada aos diferentes públicos-alvo e com foco no multiplicador de opinião em meio ambiente, as empresas gastam às vezes verdadeiras fortunas para adotar procedimentos ambientais, controlar ou eliminar sua poluição, desenvolver produtos ambientalmente corretos, e continuam vistas como inimigas do meio ambiente.

Durante o período autoritário que vivemos no Brasil, muitas empresas adotaram o ‘nada a declarar’ como es­tratégia para se proteger de problemas, o que deu certo em muitos casos. Hoje, com a abertura democrática e instrumentos de participação da sociedade como as audiências públicas, a ausência de investimentos em programas de comunicação ou, o que é pior, a não circulação da informação correta, na linguagem adequada a cada público-alvo, é a maneira mais rápida de favorecer e até estimular boatos ou notícias erradas contra o empreendimento, por maiores que sejam seus méritos ou vantagens para a comunidade.

Uma política de comunicação institucional é tão importante para uma empresa quanto construir prédios ou instalar equipamentos, pois se a opinião pública estiver contra a empresa, as dificuldades para licenciamento de novas operações ou para a ampliação de instalações existentes será cada vez maior.

Nenhuma empresa deixaria que um profissional da área de comunicação, por exemplo, ficasse responsável pela construção de um prédio ou instalação de um equipamento, e isso parece óbvio. Mas, o mesmo raciocínio não vem sendo aplicado pelas Empresas em suas áreas de comunicação, onde é bastante comum vermos profissionais não qualificados para a área de comunicação, criando e até executando políticas de comunicação.

Não é de se estranhar que, muitas vezes, apesar da empresa agir seriamente e realizar vultuosos investimentos em meio ambiente, continue com uma imagem corporativa ruim e não consiga sair de uma postura reativa para uma postura pró-ativa. Tem empresas que preferem argumentar que a imprensa só gosta de notícia ruim e que existem conspirações de sindicalistas e ambientalistas por trás das ‘campanhas’ difamatórias contra a empresa. Esquecem que uma das primeiras regras para uma Política de Comunicação Ambiental eficiente é definir seus diferentes públicos-alvos, o que eles pensam e esperam da empresa. A partir daí, sabendo com quem a empresa está falando, é possível estabelecer o que precisa ser falado, e através de quais veículos e produtos.

E identificar estes diferentes públicos é relativamente fácil através de pesquisa de opinião independente, identificando motivações, áreas de conflito que podem gerar problemas legais, interesses e perspectivas e que imagem têm da empresa em relação à problemática ambiental, etc.. Esta pesquisa deve ser anual e pode ser feita em parceria com uma ONG, a fim de se comparar os resultados e os avanços de um ano para outro. É uma forma de se prevenir de surpresas desagradáveis, além de ajudar a verificar se a empresa está investindo bem ou desperdiçando recursos ou desconsiderando áreas de sua responsabilidade.

 

  1. O que poderia ser aprimorado para que a mídia possa colaborar melhor com a difusão das áreas protegidas, o processo de conservação da biodiversidade e temas conexos para o grande público?

 

VB: Quem faz a mídia são sua equipe de profissionais e seus leitores. No caso em foco, o profissional precisa conhecer  bastante deste universo, nomenclatura, etc. Só agora as universidades começam, timidamente, a incluir a temática ambiental no currículo, mas ainda é um esforço isolado de algumas instituições ou cursos. Então, é importante oferecer oportunidades de conhecimento e articulação, como o Projeto REBIA – Rede Brasileira de Informações Ambientais, de iniciativa do Jornal do Meio Ambiente, por exemplo, para oferecer informações e favorecer a troca de informações, opiniões, conhecimentos sobre o tema, promover seminários e encontros ambientais, etc.

Também é importante trabalhar com o ‘fermento da massa’. A opinião pública não é um bloco homogêneo, mas divide-se em públicos de interesse. Trabalhar com os formadores e multiplicadores de opinião interessados em meio ambiente é um caminho estratégico diante dos recursos que são poucos e, a partir daí, ir ganhando a grande ‘massa’. Tenho apostado nisso e por esse motivo lancei o Projeto Jornal do Meio Ambiente que, nestes quase 10 anos de existência já distribuiu gratuitamente mais de 2 milhões de exemplares de suas 96 edições impressas a esses multiplicadores e, em sua versão virtual www.jornaldomeioambiente.com.br tem mantido a média de 3.500 visitantes POR DIA, cerca de 100 mil POR MÊS. Temos buscado priorizar em nossa pauta a Natureza Brasileira, inclusive dedicando um setor inteiro do site à divulgação das áreas naturais brasilerias e sua rica biodiversidade.

 

  1. Espaço livre para seus comentários e sugestões:

 

Estamos em relação à perda da biodiversidade como aquele suicida que se jogou do 20º andar do prédio em direção à morte certa. Ao passar pelo 15º andar, em queda livre, pensou: até aqui, tudo bem. Para os 1.500 cientistas e especialistas que elaboraram o relatório Avaliação Global da Biodiversidade, divulgado pelo Programa das Nações Unidas Para o Meio Ambiente (PNUMA), os seres humanos são a principal causa da perda crescente da biodiversidade mundial. Devido à mudança ou perda de habitats já ocorridas em todo o mundo, dezenas de milhares de espécies caminham para a extinção, sem possibilidade de qualquer ação preventiva. Segundo o relatório, mesmo que outras espécies ameaçadas não sejam extintas, muitas delas irão perder populações ou sofrer graves perdas do seu potencial de variabilidade genética devido ao colapso ou à perda de habitats. Desde 1700, as terras para agricultura cresceram cinco vezes, e desde 1800, as plantações irrigadas aumentaram 24 vezes. A Mata Atlântica, ecossistema que só existe no Brasil e detém a maior biodiversidade do planeta por hectare, foi reduzida a aproximadamente 8% de sua área original. Segundo o relatório, a diversidade biológica da Terra é composta, hoje, de 13 a 14 milhões de espécies, das quais apenas 1,7 milhão, ou 13% encontram-se descritas cientificamente. E, mesmo desse pequeno percentual, a maioria nunca teve sua situação completamente levantada. Apesar disso, estamos destruindo a biodiversidade do planeta a taxas aceleradas e sem precedentes. De 1810 até agora, o número de espécies de mamíferos e aves extintas - 112 no total - superou em quase três vezes o que se perdeu entre ao anos de 1600 e 1810 - 38 espécies.

A frase “pensar globalmente e agir localmente” tornou-se uma espécie de bandeira do movimento ambientalista e ilustra bem a situação. Estamos mais para pensar globalmente que agir localmente. É o velho mecanismo de achar que o mundo melhor que todos desejamos começa no outro. Esperamos, por exemplo, que os países ricos, o chamado G 7, cumpra com o envio dos recursos que prometeu para os países em desenvolvimento para a preservação da biodiversidade.

O Brasil ocupa uma posição estratégica em termos mundiais devido à sua incomparável e rica biodiversidade. Se por um lado temos uma natureza exuberante, por outro carecemos de investimentos em pesquisa e na formação de mão-de-obra e estruturas que permitam o adequado aproveitamento e até mesmo a compreensão desta riqueza, o que nos tem conduzido a um tipo de garimpo muito mais predatório que o do ouro ou qualquer outro metal. O garimpo genético. Sem uma base legal adequada, o Brasil tem permitido que o saber dos índios e populações tradicionais sobre a biodiversidade seja apropriado por terceiros, sem que estes povos ou o próprio país receba uma contrapartida pelo uso dessa biodiversidade. O correto é que o conhecimento destes povos fosse respeitado e remunerado adequadamente e que as comunidades participassem conjuntamente dos projetos de pesquisa.

Existe, hoje, no mundo, uma verdadeira guerra silenciosa dos países ricos, que detém a tecnologia contra os países pobres ou em desenvolvimento, que detém a biodiversidade. Durante a ECO 92 esse conflito ficou bem claro e os EUA simplesmente recusaram-se a assinar o tratado da Biodiversidade, enquanto não se reconhecesse sua propriedade sobre o conhecimento genético que possui de plantas e animais de outros países que, desnecessário dizer, foram retirados desses países sem seu consentimento, sem qualquer remuneração sobre as espécies ou sobre o saber dos povos tradicionais. A biodiversidade ficou assim reduzida à condição de armazém de fragmentos genéticos, transformados pelos laboratórios em mercadorias comercializáveis. Mais que a simples apropriação de uma espécie de planta ou bicho, é a apropriação privada da vida, que assume um valor monetário.

Talvez o mais difícil seja compreender que nossa espécie não é a dona do planeta, não pode fazer com a natureza o que quiser. Por mais especial que nossa espécie possa parecer, ela não é mais importante que qualquer outra, já que, na natureza, tudo está interrelacionado, “o que fere a Terra, fere também os filhos da Terra”, como já afirmou o cacique Seatle, em 1855, antes de inventarem o termo ecologia. E isso pode ser um duro golpe em nossa noção de importância, ao ponto de nos considerarmos à imagem e semelhança de Deus. Assim como a menos de cinco séculos tivemos de aceitar o fato de que nosso planeta não era o centro do Universo, hoje precisamos compreender que muito menos o Universo existe para nos servir. Não podemos usar e abusar do planeta, sem sofrer as conseqüências.

Resta-nos torcer para que ao final da queda do 20º andar do edifício da vida, a humanidade descubra que instalaram lá em baixo um colchão de ar capaz de suportar o peso. Até aqui, passando pela janela 5º andar, continua tudo bem.

 

 

 

 

 

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Entrevistas sobre Comunicação Ambiental - por Vilmar Sidnei Demamam Berna

 

Entrevistas concedidas por Vilmar Sidnei Demamam Berna

 

1. A Wilson Bueno - Revista Comunicação, Agribusiness & Meio Ambiente

2. A Thaís Naldoni - Revista Imprensa

3. Sobre Marketing Ecológico no Brasil - Revista Marketing – Outubro 2002 - a Anna Gabriela Araújo

4. A Aline Garcia

5. A Priscila Cerqueira Ribeiro

5. A Aline Moura, sobre Jornalismo Ambiental no Terceiro Setor

6. A Revista Construir - Fabiana Barboza

7. A Maria Cecília Trannim - tese de mestrado Programa EICOS, Cátedra da Unesco no Brasil, UFRJ

8. A Berenice Gehlen Adams - revista eletrônica Educação Ambiental em Ação

9. A Rafaela Lobato sobre "Jornalistas engajados no movimento ecológico"

10. A Filipe Marcel

11. A Mariana Alves Campos

12. Jornalismo em defesa do verde, por Marco Antonio Nascimento Rosa - revista Jornalismo em Ação, veículo de extensão universitária da UMESP Universidade Metodista de São Paulo

13. A Revista “Cooperador Paulino”

14. para a tese de mestrado sobre Ambientalismo de Frederico Loureiro

15. A Rubens Ribeiro - Revista Futuro

 

ENTREVISTA A WILSON BUENO - REVISTA COMUNICAÇÃO, AGRIBUSINESS & MEIO AMBIENTE

 

Revista: Há quem conteste a idéia de que existe um "jornalismo ambiental" ou um "jornalismo científico", com o argumento de que jornalismo é jornalismo, sem adjetivos. O que você acha disso? O jornalismo ambiental constitui um campo específico ou o ambiental é apenas um adjetivo a mais nesse caso para qualificar o jornalismo e pode ser descartado?

 

VSDB: O Jornalismo em geral não dá conta de tantos temas tão específicos, notadamente o ambiental, com toda a sua complexidade. É uma utopia imaginar que o Jornalismo não vá precisar de especializações ou que todo profissional de comunicação irá receber uma capacitação que dará conta de todo o conhecimento específico que precisará para o adequado exercício de suas atividades. Mas isso gera distorções, fazendo por vezes que o jornalismo especializado acabe virando um compartimento às vezes estanque e impermeável nas redações. Para o profissional que se especializa e investe tempo, conhecimento e dinheiro em sua área de conhecimento específico, ser respeitado é bom e todo mundo gosta, além de assegurar seu nicho de empregabilidade, mas corre o risco do tema deixar de ser pauta no jornalismo não-especializado.


Revista: Existem diferenças (de postura, de conteúdo, de compromisso) entre o jornalismo ambiental da Grande Mídia (como você costuma identificar) e o jornalismo ambiental desenvolvido pelas mídias ambientais? Se sim, quais são elas?

VSDB: Há algum tempo, percebia mais claramente que a Grande Mídia só se ocupava dos temas ambientais quando eram desastres. Hoje, percebo que isso está sendo superado lentamente. Já vejo com alguma freqüência a chamada Grande Mídia realizando boas coberturas ambientais, às vezes até com mais vantagens em termos de qualidade sobre a mídia especializada, por dispor de maiores recursos e meios. O volume de informações e a complexidade da questão ambiental justifica a existência de setores e espaços para a informação ambiental na chamada Grande Mídia, e também na mídia especializada. Enquanto a Grande Mídia disputa espaço com os variados temas do cotidiano, como política, moda, esportes, violência, etc., a mídia especializada em meio ambiente enfrenta o desafio de abrigar em sua pauta a complexidade do tema ambiental, que vai desde as questões da ecologia natural até a ecologia humana, envolvendo aspectos econômicos, ambientais, sociais, culturais, etc. A Grande Mídia e a mídia ambiental especializadas são complementares entre si.

Ao traçar planos de mídia para a área ambiental é importante que as empresas e agências compreendam o papel complementar da chamada Grande Mídia e das mídias especializadas em meio ambiente, a fim de evitar o desperdício de informação e de recursos, e obterem melhores resultados junto ao segmento da opinião pública que realmente se interessa e leva em conta a informação ambiental. A Grande Mídia precisa atender um público diferenciado que está interessado em diversos assuntos, e isso inclui muitos mais temas que só o ambiental. Já a mídia ambiental também aborda diversos temas, mas todos interligados direta ou indiretamente à questão ambiental, tornando-se uma referência natural para quem busca informações ambientais.

 

Revista: Levando em conta a importância das mídias ambientais em termos de penetração e acesso, em especial pela Web, como se justificaria o descaso das agências de propaganda e dos Governos em relação a elas? Desconhecimento? Preconceito? Antagonismo político ou ideológico? Ou tudo isso um pouco (ou muito!)?

VSDB: A mídia ambiental sofre de fato um certo bloqueio comercial. Não há, entretanto, um objetivo político como, por exemplo, estrangular as mídias ambientais para que não façam a crítica do modelo predatório e poluidor. Creio que o que existe é desconhecimento mesmo, falta de cultura ambiental, de formação e até mesmo, em alguns casos, incompetência. Tem agências que preferem investir suas verbas de publicidade em veículos da grande mídia em vez de também incluírem as mídias especializadas em seus planos de divulgação. Compram quantidade de público e não qualidade de público. Pouco importa se uma mensagem ambiental será lançada para um público numeroso que não está nem aí para as questões ambientais e que até às vezes acham o assunto chato. As empresas acabam gastando às vezes verdadeiras fortunas para adotar procedimentos ambientais adequados e controlar ou eliminar sua poluição, mas divulgam isso, quando divulgam, para um público assim, que não se importa com a informação ambiental. Mas também tem empresas e governos que agem como se o simples fato de terem mudado de atitude e de agora estarem cuidando direito do meio ambiente fosse suficiente para virar pauta de qualquer veículo ambiental. Limitam-se a contratar serviços de assessoria de comunicação ou mesmo usam suas próprias assessorias para enviarem releases, na esperança de divulgação, como se coubesse aos veículos financiarem a divulgação dos resultados.

 

Revista: Você acha possível, razoável, aceitável que as mídias ambientais possam inserir anúncios ou ter patrocinadores de empresas reconhecidamente agressivas ao meio ambiente? Se não, por quê? Se sim, como impedir a interferência nos conteúdos da publicação? Qual é a postura da Revista e do Portal do Meio Ambiente com relação a isso?

 

VSDB: Ninguém precisa ser 100% ecologicamente correto - até por que isso não existe - para só aí ter o direito de anunciar numa mídia ambiental. Assegurar espaço na mídia ambiental para a publicidade de poluidores que querem divulgar aspectos ambientais positivos de seus avanços ambientais é também uma forma de estimular estes avanços e fazer uma educação ambiental entre os poluidores que podem se sentir desafiados a também investirem em meio ambiente, como seus concorrentes. O problema é quando um veículo ou um profissional de comunicação aceita qualquer tipo de constrangimento, direcionamento ou mesmo assume posturas de auto-censura em relação a um patrocinador. Impedir isso é muito simples, é só assegurar espaço a todos os lados diferentes envolvidos numa questão ambiental, ainda que afete seu anunciante poluidor. Se alguém tem de ser anti-democrático, que seja o anunciante que retira sua publicidade por que não está gostando da liberdade de opinião do veículo que financia. Deveria refletir antes sobre a oportunidade interessante que é anunciar num veículo que tem a liberdade para criticar, pois isso atrai leitores interessados realmente na questão ambiental, exatamente aquele tipo de leitor crítico em relação ao patrocinador, e que terá a chance de talvez mudar de opinião ao receber também as informações que ele desconhecia.

Quanto à Revista e ao Portal do Meio Ambiente trata-se de veículos de comunicação especializados em meio ambiente e comprometidos com a verdade e a democratização da informação onde asseguramos espaço, com o máximo de isenção possível, a ambientalistas, empresas, governos e a todos que produzam ou necessitem democratizar informação ambiental. Assim, consideramos bem vindos apoios, parcerias, patrocínios, colaborações de Empresas, ONGs, Governos, poluidores ou não, desde que estas não pretendam interferir ou influenciar direta ou indiretamente na linha editorial ou na pauta. Cabe ao leitor o direito de escolher o que quer ler e julgar a informação, dispondo também do Espaço do Leitor para expor sua opinião, crítica, concordância, discordância. No item 4 de seu código de ética, como regra geral, a Revista e o Portal do Meio Ambiente assumem que devem dar espaço para todos os lados envolvidos em todas as controvérsias ambientais que estiver cobrindo.

 

Revista: O Jornalismo Ambiental contribui, em que sentido, para a educação ambiental? Ou são instâncias completamente diferentes, sem qualquer ponto de tangência?

 

VSDB: O acesso à informação ambiental de qualidade é indispensável ao exercício da cidadania na defesa dos seus direitos e no exercício de seus deveres, por um meio ambiente melhor e preservado. A Lei nº 9.795 de 27 de abril de 1999, que institui a Política Nacional de Educação Ambiental, define em seu art. 5º, inciso II, como um dos objetivos fundamentais da educação ambiental a garantia da democratização das informações ambientais. E isso é perfeitamente compreensível pois os jovens de hoje, por exemplo, serão adultos num mundo que exigirá deles uma capacidade não só de dizer não às agressões ambientais, mas de dizer sim a um modelo de desenvolvimento que garanta a qualidade de vida humana sem destruir o planeta. Neste sentido, a escola assume um papel fundamental de estimular a cidadania ambiental do aluno, e uma das maneiras mais eficientes de se fazer isso é trazendo o contemporâneo para a sala de aula, aproximando o cotidiano vivido pelos alunos. Por isso, vejo o encontro do jornalismo ambiental com a educação ambiental como fundamental e desejável. O ideal é que a educação ambiental formal utilize jornais em sala de aula, ou mesmo vídeo com programas e shows com temas ambientais como motivadores para aulas interessantes e, sobretudo, próximas da realidade vivida. Desta forma, a educação ambiental pode ajudar o aluno a pensar criticamente sobre sua realidade e também influir sobre ela.

Revista: Como está o panorama na Web a partir das mídias ambientais? Tem observado alguma modificação (para melhor) nos últimos anos?

 

VSDB: A internet é uma ferramenta nova e superpoderosa para a democratização da informação de uma maneira geral, inclusive a ambiental. Ainda assusta, é mal empregada, é utilizada abaixo de sua potencialidade, as agências de publicidade e os grandes anunciantes ainda não perceberam o potencial comercial que representa, mas é inegável que veio para ficar e ocupar cada vez mais espaços e importância em nossas vidas. E, é sempre bom lembrar, informação é poder. Sem acesso à informação, as lutas dos cidadãos por seus direitos e mesmo o exercício de seus deveres, ficam bem mais difíceis. A internet deu ao conceito de aldeia global a sua real dimensão. No campo ambiental, cujas lutas são locais e globais, já que a poluição não respeita fronteiras, além de uma ferramenta poderosa de informação é uma ferramenta que proporciona a interatividade, a articulação e o exercício de cidadania, ampliando a capacidade de luta e dando voz aos cidadãos de todo o planeta na defesa de seus direitos a um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Num país de dimensões continentais, como o Brasil, e com problemas ambientais que ultrapassam muitas fronteiras, a Internet veio ocupar uma lacuna onde antes não existia nada, talvez só o telefone, ou o telex, com todas as suas limitações. Graças à internet, a REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental (http://www.portaldomeioambiente.org.br/JMA-Rebia.asp ) , ancorada no www.portaldomeioambiente.org.br vem pouco a pouco se tornando uma referência para produtores e difusores de informações ambientais de todo o Brasil.

Creio que a tendência é a internet crescer em importância em relação às demais ferramentas de comunicação devido à interatividade que proporciona, até por que entre os internautas de hoje, não sei precisar em que percentuais, estão também os leitores de jornais e revistas, telespectadores da televisão e ouvinte dos rádios. Não sei como a internet irá influir em seus hábitos. Tenho percebido uma sinergia cada vez maior entre os veículos tradicionais, que citam e remetem seus leitores, telespectadores e ouvintes para sites e fontes na internet, como forma de complementar o espaço curto e a ausência de canais de interatividade que o público, aparentemente, exige cada vez mais. A Revista do Meio Ambiente segue esta tendência. Não sei se isso estimulará uma migração para a internet, ou se acabará por fortalecer todas as ferramentas à medida que traz mais gente para 'consumir' informações.

Revista: As universidades, em particular as de Jornalismo, estão capacitando os profissionais de imprensa para atuarem nessa área? Quais seriam os conhecimentos e posturas básicas que deveriam fazer parte desta formação?

 

VSDB: Nenhum curso universitário faz milagres, por isso o profissional precisa manter a mente aberta e buscar complementar seu conhecimento. Qualquer veículo especializado vai exigir do profissional um mínimo de domínio no conhecimento do tema abordado pelo Jornal. No caso ambiental, o profissional precisa conhecer bastante deste universo, nomenclatura, etc. Só agora as universidades começam, timidamente, a promover o curso de Jornalismo Ambiental, mas ainda é um esforço isolado de algumas instituições. Mas é importante ir além do ensino da Academia, participar de grupos de debates de jornalismo ambiental, estagiar na área, participar de seminários e encontros ambientais, ler sobre o assunto, etc. Isso tudo para descobrir depois que não tem uma vaga no mercado para os profissionais da área, por que a grande mídia não valoriza adequadamente o tema, a mídia especializada é em número pequeno e quase ideológico sem condições de contratar ninguém.

O futuro jornalista ambiental não deve se limitar à visão de empregados à procura de um patrão. O emprego tradicional está desaparecendo. A saída pode ser organizar com os colegas cooperativas de serviços profissionais de comunicação para oferecer serviços a segmentos da sociedade que apesar de pequenos ou especializados e de terem necessidade de estabelecer algum tipo de democratização da informação, não encontram espaço nas mídias tradicionais, e isso envolve inúmeras organizações como bairros, clubes, ONGs, associações de pequenos comerciantes, etc. O diploma e o talento, apesar de importantes, não asseguram vaga em lugar algum.

 

Revista: O jornalismo ambiental é, por natureza, um jornalismo militante?

 

VSDB: Não acredito em isenção. Acredito em compromisso ético. O jornalista ambiental deve assumir o compromisso pessoal e ético de sempre assegurar espaço equivalente tanto para os que denunciam quanto para os que são denunciados, tanto para os que falam e escrevem apaixonadamente contra ou a favor de algum aspecto ambiental. Cabe ao leitor, e não ao editor ou ao jornalista, escolher que informação o leitor lerá. E é isso o que diferencia bem um veículo aberto de um veículo institucional, onde geralmente o que conta é a opinião, a ideologia, o pensamento, o engajamento da instituição que financia o veículo.

 

Revista: Fale um pouco sobre a Revista e o Portal do Meio Ambiente. Como é a sua avaliação a respeito desses veículos ao longo desta vitoriosa trajetória? O número de acessos tem aumentado? Quais os principais problemas, incluindo as dificuldades para a própria sobrevivência financeira?

VSDB: A Nedstat (www.nedstatbasic.net) é um serviço de auditoria independente, com sede nos EUA, que vem monitorando os acessos ao Portal do Meio Ambiente registrando a média de mais de 7.000 acessos ao dia. Na média MENSAL o site tem ultrapassado 200.000 visitantes! Este número de acessos ultrapassa as tiragens dos veículos impressos especializados em meio ambiente no Brasil, inclusive da própria Revista do Meio Ambiente, cuja tiragem mensal está em torno de 25 mil exemplares! Para conferir diariamente as estatísticas do site basta clicar na página 'Estatísticas'. Os números crescentes de visitas ao www.portaldomeioambiente.org.br são indicadores importantes que desmistificam a idéia de que os brasileiros não se importam nem se interessam pelo meio ambiente. O que podemos constatar é o contrário. As pessoas estão cada vez mais interessadas e a mídia impressa não tem conseguido acompanhar e divulgar a enorme quantidade e diversidade de informações ambientais que acontece diariamente no país. Aqueles que lidam e dependem da informação ambiental, seja em seu processo de decisão, seja para garantir direitos ou mesmo para se manterem informados da conjuntura ambiental sabem como é estratégico ter acesso a esse tipo de informação especializada.

Outro indicador qualitativo sobre como a sociedade vem valorizando a importância da democratização da informação ambiental são os inúmeros prêmios recebidos pelo Portal do Meio Ambiente:

 

Página Nota 10 - Escola Net - escolanet.com.br por atender aos critérios de estar em português, apresentação visual adequada, conteúdo cultural e educativo nos artigos e textos, boa resolução da página e página educacional e cultural;
Prêmio Ecosite - do Projeto Eco Via (www.ecovia.cjb.net e-mail: ecovia@zipmail.com.br), concedido aos melhores sites ecológicos brasileiros;
Melhor Periódico - A Ambiental - Rede de Informações Sobre Meio Ambiente ( www.ambiental.com.br ) elegeu o Portal do Meio Ambiente como o melhor periódico sobre o assunto na Internet.
Top 10% PNN - O Portal do Meio Ambiente foi escolhido para fazer parte da seleção PNN Top 10% pela PNN Rede de Notícias em Português™ - Departamento de seleção e promoção dos melhores sites de língua portuguesa - www.interpnn.com e-mail: top10@interpnn.com).

 

Existe um gargalo que tem impedido a democratização da informação ambiental no Brasil e que justifica a fundação de novos veículos dedicados à questão ambiental. Veja por exemplo a situação do Portal do Meio Ambiente que recebe diariamente, por meio eletrônico, a média de cinqüenta novas notícias ambientais, umas 1.500 por mês. Aproveitamos cerca de 10 notícias no Boletim Notícias do Meio Ambiente, enviado por e-mail diariamente para 32.000 leitores cadastrados e, mensalmente, umas 40 que veiculamos através da Revista do Meio Ambiente impressa, cuja tiragem de 25.000 exemplares é enviada por correio e distribuída de maneira dirigida aos multiplicadores e formadores de opinião em todo o país. Essa situação não é muito diferente para os outros editores de mídias ambientais no Brasil. Todos recebem muito mais informações do que conseguem aproveitar. De um lado, está a iniciativa crescente da Sociedade, através de suas empresas, universidades, organizações do terceiro setor e do próprio governo, em produzir informações ambientais, aparentemente demonstrando que acordou para a nova realidade ambiental do planeta e está passando do discurso e declarações de boa vontade ambiental para a prática. Do outro, as mesmas empresas e governos que enchem as redações da mídia especializada com releases, por um lado, excluem esses veículos de seus planos de mídia. Também não asseguram recursos para divulgação nos projetos ambientais que patrocinam. Depois se queixam que os resultados obtidos não receberam a divulgação que merecia, que apesar de todo o investimento em projeto de responsabilidade sócio-ambiental a imagem institucional da empresa ou Governo continua péssima, ou que o evento, curso ou seminário ambiental não recebeu o público esperado por falta de divulgação.

 

Revista: O que você diria para um colega que se dispusesse a seguir o mesmo caminho? Vá em frente ou pense bem antes de entrar nessa?

 

VSDB: Sugiro que leia os Dez Mandamentos da Comunicação Ambiental, uma colaboração de minha autoria para ajudar aos que desejam se engajar nessa causa.

 

1. A comunicação ambiental, como qualquer atividade humana, não é neutra - A comunicação ambiental é um instrumento que tanto pode estar a serviço de grupos e pessoas empenhadas sinceramente na defesa do meio ambiente, quanto movidas por interesses individuais ou corporativos que contratam profissionais para tentar passar uma imagem de ambientalmente responsáveis, sem ser, para se apossarem de recursos naturais ameaçados antes que se tornem indisponíveis ou caros demais tirar de onde está. Diante da impossibilidade de neutralidade, o profissional de comunicação ambiental precisa balizar sua conduta por um código de ética ambiental, como, por exemplo, o adotado pelos veículos da REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental e associados.

 

1. O direito a um ambiente limpo e a um desenvolvimento sustentável é fundamental e está intimamente ligado ao direito à vida, à saúde e ao bem estar de todos. Os veículos da REBIA e associados devem informar o público sobre as ameaças ao ambiente - se está no nível global, regional, nacional ou local.

 

2. Freqüentemente, a mídia é a única fonte da informação para as pessoas interessadas em meio ambiente. É dever dos veículos da REBIA e associados aumentarem a consciência destas pessoas nos noticiários que tratam do meio ambiente. Os veículos da REBIA e associados devem se esforçar para relatarem diversos aspectos e assuntos relacionados com o meio ambiente.

 

3. Informando o público, os veículos da REBIA e associados desempenham um papel vital, permitindo às pessoas recorrer à ação para proteger o meio ambiente. O dever dos veículos da REBIA e associados está não somente em alertar as pessoas sobre os perigos que a cercam, mas também de acompanhar tais ameaças e em mantê-las informadas sobre as ações tomadas para resolver os problemas. Os veículos da REBIA e associados devem também tentar realizar reportagens que apresentem soluções possíveis aos problemas ambientais.

 

4. Os veículos da REBIA e associados não devem ser influenciados por interesses comerciais, políticos, governamentais ou não governamentais. Como regra geral, os veículos da REBIA e associados devem dar espaço para todos os lados envolvidos em todas as controvérsias ambientais que estiver cobrindo.

 

5. Os veículos da REBIA e associados devem manter o máximo de isenção possível, citar as fontes da informação e evitar o comentário especulativo ou alarmista, bem como a reportagem tendenciosa. A verificação das informações das fontes devem ser feitas sempre através da técnica de cruzamento, seja ela uma fonte comercial, oficial ou não governamental.

 

6. Os veículos da REBIA e associados devem promover a igualdade no acesso à informação e ajudar organizações e indivíduos a recebê-la. A recuperação eletrônica dos dados é uma ferramenta útil e igualitária neste ponto.

 

7. Os veículos da REBIA e associados devem respeitar o direito à privacidade dos indivíduos que foram afetados por catástrofes ambientais, por desastres naturais e também quando assim desejarem, em qualquer caso.

 

8. Os veículos da REBIA e associados não devem hesitar em corrigir uma informação que acreditava estar correta e na verdade estava errada, ou tentar mudar a opinião pública através de análises à luz de conhecimentos futuros.


2. Direito e dever de se comunicar - As organizações têm o direito e o dever de se comunicarem adequadamente com o público interessado, informando sobre como estão cuidando do meio ambiente. Ao fazerem isso, podem contribuir para a formação de consciência ambiental na população e mesmo dar o exemplo para outros, estimulando novos investimentos em meio ambiente, num efeito cascata. Qualquer plano ou campanha de Comunicação Ambiental deve estar baseado no desejo sincero em se comunicar francamente com seus diversos públicos. Adotar o silêncio como estratégia para se proteger de problemas, pode até dar certo em alguns casos, mas, quando não dá, pode ser tarde demais ou custar muito mais caro ter de corrigir boatos ou mentiras. Também deve-se evitar divulgar como grande mérito ambiental ações e projetos que fazem parte das obrigações legais ou de controle de poluição intrínsecos à própria atividade poluidora, ou então, dar ênfase exagerada a investimentos ambientais absolutamente desproporcionais com o que se retira da natureza ou se provoca em degradação ambiental, sob pena de não se conseguir agregar credibilidade à informação ambiental.

3.
Um profissional da comunicação ambiental não precisa necessariamente ser ambientalista - Ser ambientalista é uma decisão cidadã que um profissional da comunicação ambiental pode ter ou não. Melhor se tiver, pois o planeta não é um enorme armazém de recursos infinitos, por um lado, e uma enorme lixeira capaz de absorver indefinidamente os nossos restos, por outro. O engajamento com a causa ambiental, neste caso, não é do profissional de comunicação, mas do cidadão, e isso deve estar claro para não transformar o resultado do trabalho em panfletos ideológicos onde só importa a opinião de uma lado em detrimento de outras opiniões.

4.
Os limites da comunicação Ambiental - Só democratizar a informação ambiental pode não ser suficiente para produzir as mudanças necessárias de opinião. Não é pelo maior ou menor volume de informações que a população aprende a pensar criticamente e atuar em seu mundo para transformá-lo, se não tiver uma cultura e uma formação que predisponha as pessoas a valorizar esta informação. Sem isso, as pessoas vão pouco a pouco tornando-se insensíveis diante da informação, como se fosse mais uma espécie de poluição onde as palavras perdem o significado e importância, e tanto faz saber que derrubaram uma árvore ou uma floresta. A simples veiculação de informação ambiental desassociada de um compromisso com a cidadania crítica e participativa como defende a educação ambiental, ao contrário de estimular uma revisão de valores, pode aumentar a velocidade do saque aos recursos do Planeta, uma espécie de ética distorcida, como se a seleção natural das espécies separasse o mundo em vencedores (desenvolvidos, países de primeiro mundo) e perdedores (em desenvolvimento, sub-desenvolvidos, países de segundo e terceiro mundo) onde apenas os mais aptos e espertos sobrevivem, aqueles que chegaram primeiro e dispõem dos melhores meios e tecnologias para retirar e utilizar com mais eficiência e rapidez os recursos do Planeta, capitalizando lucros e socializando prejuízos.

5.
Adaptar o "ecologês" - Não basta ter clareza do que precisa ser mudado a fim de conseguir uma relação mais harmônica da espécie humana com as outras espécies e o próprio planeta. É preciso sensibilizar e mobilizar a sociedade em direção a esse mundo melhor, por isso, aqueles que se comunicam com o público precisam falar uma linguagem que seja percebida por todos. Se queremos a compreensão e a mobilização da sociedade para os temas ecológicos, devemos adaptar o ecologês às carências da nossa sociedade, partindo dos temas que a sociedade já domina e conhece para os que precisa conhecer a fim de construir uma melhor relação, mais harmônica, menos poluidora com seu meio ambiente e os outros seres vivos do planeta.

 

6. A opinião pública não é um livro em branco - Ao traçar uma política de comunicação ambiental deve-se levar em conta que a opinião pública já dispõe de informações ambientais, mas essas informações podem ser negativas, incompletas, falsas, preconceituosas, tendenciosas. Nem toda a informação ou o melhor plano de comunicação ambiental do mundo irá convencer ou sensibilizar quem não quer ser convencido nem sensibilizado. Por isso, uma política de comunicação ambiental nunca parte do zero, mas precisa pesquisar a percepção que os diferentes públicos já possuem e, a partir daí, estabelecer uma estratégia para identificar quais os públicos são os mais prioritários, que tipo de mensagem e linguagem serão mais apropriados, que veículos deverão ser empregados, que campanhas devem ser prioritárias. A cada período, uma nova pesquisa deve ser efetivada a fim de avaliar se a política de comunicação está sendo eficaz, redefinindo prioridades e aprendendo com os erros.

7.
A verdade como melhor estratégia - O melhor antídoto para a desconfiança do público é a verdade, com a circulação de documentos e informações específicas para este público e identificação de parceiros para projetos. Pode-se ainda promover visitas desse público ao empreendimento e palestras de especialistas independentes, cujas posições, apesar de críticas em relação ao empreendimento, mantêm abertas as portas ao diálogo e aprovam o empreendimento, embora com restrições e exigências, o que é melhor que posições absolutamente contrárias, que não favorecem o diálogo ou provocam um clima de confronto da comunidade com a empresa.

8.
Os papéis das mídias - Ao traçar planos de mídia para a área ambiental é importante que os profissionais de comunicação compreendam o papel complementar da chamada Grande Mídia e das mídias especializadas em meio ambiente, a fim de evitar o desperdício de informação e de recursos, e obterem melhores resultados junto ao segmento da opinião pública que realmente se interessa e leva em conta a informação ambiental. A Grande Mídia precisa atender um público diferenciado que está interessado em diversos assuntos, e isso inclui muitos mais temas que só o ambiental. Já a mídia ambiental também aborda diversos temas, mas todos interligados direta ou indiretamente à questão ambiental, tornando-se uma referência natural para quem busca informações ambientais.

9.
O todo em vez das partes - É importante adotar um Plano de Comunicação de forma sistêmica, ou seja, envolvendo a todos e não apenas um de seus setores, pois não adianta um setor para preservar e criar uma imagem de compromisso com o meio ambiente, se outros setores contribuem para a imagem de poluição e degradação ambiental. Por exemplo, tão importante quanto a atuação coordenada dos setores de relações públicas, assessoria de imprensa, publicidade e propaganda, é a atuação de setores como de controle e monitoramento ambiental, engenharia de produção, etc.

10.
Comunicação em mão dupla - O diálogo tem a função de reconciliar posições conflitantes, sendo mais eficaz que a imposição e o controle. Ao criar canais de negociação, como Conselhos Comunitários ou Auditorias Ambientais Não-Governamentais, as organizações permitem que os tomadores de decisão se antecipem a problemas ou adotem novos procedimentos no seu gerenciamento e atividades ambientais. As análises e decisões sobre os problemas, quando tomadas em conjunto, estimulam o envolvimento e comprometimento de todos nas soluções adotadas.

 

Entrevista a Thaís Naldoni, Revista IMPRENSAwww.portalimprensa.com.br

 

Os últimos acidentes naturais, tais como o Katrina, por exemplo, mobilizaram a imprensa em todo o mundo. Como o senhor avalia a cobertura da imprensa quando o assunto é meio-ambiente? Ainda faz-se uma cobertura factual ou já é possível encontrar matérias mais educativas? Por que?

 

Vilmar: A opinião pública está cada vez mais consciente e sensível às questões ambientais e cobra das empresas, políticos e governos cada vez maior responsabilidade ambiental. O resultado são leis e multas cada vez mais rigorosas, podendo chegar facilmente a milhões de reais, além da obrigação de reparar o dano. O papel da imprensa nessa tomada de consciência foi estratégico. Ao divulgarem as tragédias e acidentes ambientais em todo o mundo, por exemplo, contribuíram para o despertar de uma consciência ambiental que cada vez é mais crescente e cuja tendência, ao contrário de diminuir de intensidade, como se fosse um modismo passageiro, é de aumentar. Segundo o Major Hazard Incident Data Service, da Grã-Bretanha, até 1.986 ocorreram 2.500 acidentes industriais no mundo, sendo que mais da metade (1.419) em apenas cinco anos, entre 1981 e 1986. Já os grandes acidentes ambientais, que envolveram maior número de mortes e milhões de dólares de indenização, num total de 233 acidentes, ocorreram no curto período entre 1970 e 1989. A divulgação em escala mundial destes fatos não só contribuiu para sensibilizar a opinião pública, mas também para fortalecer os movimentos ambientalistas, que se multiplicaram nesse período, além de gerar um conjunto de leis ambientais e de órgãos de controle que não existiam antes de 1970.

Há algum tempo, percebia mais claramente que a imprensa tradicional só se ocupava dos temas ambientais quando eram desastres. Hoje, percebo que isso está sendo superado lentamente. Já vejo com alguma freqüência a imprensa tradicional realizando boas coberturas ambientais, às vezes até com mais vantagens em termos de qualidade sobre a imprensa especializada, por dispor de maiores recursos e meios, mas não pode fugir à lógica deter de atender um público diferenciado que está interessado em diversos assuntos, e isso inclui muitos mais temas que só o ambiental. Vejo a imprensa tradicional e a ambiental como complementares.

 

A mídia brasileira já se mostra mais consciente quanto às causas ambientais? Por que?

 

Vilmar: Cada veículo tende a acompanhar o interesse do seu público e é visível o crescimento da consciência ambiental na sociedade brasileira. A menos de duas décadas poluição era sinônimo de progresso, hoje, é tratada como crime ambiental. A consciência ambiental da população é um caminho sem retorno que só tenderá a crescer diante de leis que se tornam cada vez mais rigorosas. Um exemplo do crescimento desta consciência ambiental pode ser medido através do números de acesso ao Portal do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br ). O Portal tem mantido a média diária de 7.000 visitas. Cerca de 200.000 acessos ao MÊS, o que constitui uma tiragem significativa por qualquer ângulo que se examine, especialmente por não ser um veículo de massa, mas especializado. Entretanto, há limites para a democratização da informação ambiental. Enquanto para a maioria das pessoas notícias sobre impactos e danos ambientais, principalmente diante de grandes acidentes, podem sensibilizar e contribuir para o despertar da consciência ambiental, para outras pode significar a necessidade de aumentar o controle e a posse aos recursos naturais ameaçados a fim de tomar para si tudo o que puder antes que o recurso acabe ou se comprometa de vez. Assim, não basta apenas democratizar a informação ambiental, é preciso uma ‘educomunicação’ para contribuir na formação de cidadãos mais críticos e participativos, e também menos egoístas e mais solidários. No fundo, a questão ambiental propõe uma revisão de nossos valores espirituais, éticos e culturais, por isso é tão difícil a mudança de um modelo predatório para outro ambientalmente sustentável e socialmente justo.

 

Quais são os principais assuntos relacionados ao meio ambiente tratados pela imprensa tradicional?

 

Vilmar: Cada veículo tem seu perfil de público, por isso, essa pauta pode ser bem diversificada, cobrindo desde a internacionalização da Amazônia até o tráfico de animais silvestres, o impacto ambiental de novos empreendimentos, os movimentos da sociedade, especialmente do Terceiro Setor, na defesa dos direitos ambientais, etc.

 

A cobertura sistemática deste tema já é feita pela imprensa tradicional ou é apenas realizada pelos veículos especializados?

 

Vilmar: Quando não há grande evento ambiental acontecendo, a questão ambiental deixa de ser assunto de pauta na imprensa tradicional, com raras exceções. Quando o assunto em pauta é um grande acidente, a imprensa tradicional se interessa pelo tema na mesma proporção de sua visibilidade. Quando o problema deixa de ser visível, o assunto também desaparece da pauta. E esta é uma diferença importante, pois a mídia especializada em meio ambiente tende a não deixar a questão ambiental de lado, e também não foca seu interesse apenas nos problemas e impactos ambientais, mas procura apontar soluções.

 

Existem empresas que são poluidoras em potencial e que se preocupam em divulgar ações ecologicamente responsáveis. Como a imprensa deve fazer para não cair em armadilhas desse tipo?

 

Vilmar: Nenhuma empresa precisa ser 100% ecologicamente correta – até por que isso não existe – para só aí ter o direito de anunciar seus resultados ambientais. Quando as empresas poluidoras divulgam seus resultados ambientais, podem estar estimulando a continuidade ou o aumento dos seus próprios investimentos em meio ambiente, além de desafiar seus concorrentes a tentar fazer igual ou melhor. Quanto mais empresas poluidoras ou não se sentirem à vontade para democratizar suas informações melhor para a democratização da informação ambiental e melhor para a sociedade que terá informações para melhor fiscalizar, sugerir propostas e encaminhamentos, etc.

Por outro lado, compromete a credibilidade da informação quando há uma tentativa da empresa poluidora em exagerar 'aspectos da verdade'. Não são poucas as empresas que pretendem obter mérito ambiental por estar fazendo parte de suas obrigações legais, ou cumprindo algum termo de ajuste de  conduta, ou medida compensatória obrigatória devido licenciamento ou agindo no controle de poluição intrínsecos à própria atividade poluidora. Nestes casos, não houve mentira ou tendencionismo, nem a empresa está exorbitando do seu direito de informar, mas a empresa precisa compreender que o público não estará dando à informação toda a importância que a empresa gostaria.

Em minha opinião, não há nenhum problema em aceitar patrocínio de empresa poluidora. Errado é praticar a auto-censura ou aceitar condicionamentos de qualquer natureza que evitem pautar um tema que incomoda ao anunciante, ou praticar um mau jornalismo abrindo espaço apenas para a opinião do anunciante. Se não somos corruptos não temos por que temer os corruptores. Também não devemos assumir o papel de 'babás' dos leitores até por que eles não nos pedem isso, pois são capazes de saber se defender escolhendo que veículos, que profissionais, que informações querem continuar recebendo ou não.

 

Os veículos especializados em meio ambiente conseguem sobreviver no azul?

 

Vilmar: A imprensa ambiental vive seis meses de vacas magras, de novembro a abril, e seis meses de vacas menos magras. O mês de maior faturamento ainda é junho, quando homenageia-se o Dia Mundial do Meio Ambiente. Na média, a imprensa ambiental acumula mais dívidas e prejuízos que lucros, daí se explicam as baixas tiragens e as enormes dificuldades para democratizar a informação ambiental no Brasil. O problema da falta de financiamento da informação ambiental no Brasil ainda parece distante de ser resolvido.

Existem empresas e até órgãos de Governo, por exemplo, que estão executando projetos e ações ambientais dignos de mérito, mas que não conseguem divulgar de forma adequada. Não basta fazer o certo, é preciso também investir na divulgação dos resultados. Tem gestores que imaginam, equivocadamente, que o simples fato de estarem agindo de forma ambientalmente correta será o suficiente para virar pauta da imprensa. Limitam-se às vezes em enviar releases, como se coubesse aos veículos financiarem a divulgação dos resultados. O curioso é que tem empresas que enchem as redações da mídia ambiental com releases, por um lado, mas por outro excluem esses veículos de seus planos de mídia e não asseguram recursos para divulgação nos projetos ambientais que patrocinam.

 

O mercado editorial investe neste tipo de veículo?

 

Vilmar: As empresas e agências de publicidade ainda não acordaram para a importância estratégica que é anunciar temas ambientais para o público que se interessa por questões ambientais. As exceções são raras, e graças a elas existe uma imprensa ambiental, ainda insipiente, com baixas tiragens, mas existe, ou sobrevive. Mas aos poucos mais empresas e agências estão entendendo que a democratização da informação ambiental é uma moeda com dois lados, num está a informação, no outro, o financiamento da informação, por isso vejo o futuro com otimismo. A Sociedade precisa cada vez mais de informação ambiental para formar consciência ambiental, daí, trata-se também de uma questão de política pública e não apenas uma tarefa do mercado. Na opinião de 1.141 dos 1.337 delegados participantes da “II Conferência Nacional de Meio Ambiente”, entre 10 a 13 de fevereiro de 2005, a falta de informação sobre Meio Ambiente ficou entre os três principais problemas ambientais brasileiros. O principal problema codificado foi o desmatamento (28%), seguido de recursos hídricos/Água (13%) e falta de informação sobre Meio Ambiente e Educação Ambiental (11%). A pesquisa foi realizada pelo ISER a pedido da Secretaria de Políticas para o Desenvolvimento Sustentável (SDS).

 

O jornalista que cobre meio ambiente deve ter um perfil de preocupação e identificação com o tema?

 

Vilmar: Um profissional da comunicação ambiental não precisa necessariamente ser ambientalista. Ser ambientalista é uma decisão cidadã que um profissional da comunicação ambiental pode ter ou não. Melhor se tiver, pois o planeta não é um enorme armazém de recursos infinitos, por um lado, e uma enorme lixeira capaz de absorver indefinidamente os nossos restos, por outro. O engajamento com a causa ambiental, neste caso, não é do profissional de comunicação, mas do cidadão, e isso deve estar claro para não transformar o resultado do trabalho em panfletos ideológicos onde só importa a opinião de um lado em detrimento de outras opiniões.

 

Por que a mídia ambiental brasileira não tem uma posição mais xiita, assim como o Greenpeace, por exemplo? Por que parece ser tão passiva?

 

Vilmar: Não cabe à imprensa ambiental substituir a sociedade organizada nas suas reivindicações. Cabe, sim, democratizar a informação ambiental da forma mais independente possível, sempre ouvindo, no mínimo o lado de quem denuncia e o de quem é denunciado e levando em conta a proporcionalidade entre estes lados, pois existem espertalhões que aproveitam o princípio do contraditório para ‘aparecer’ na mídia.

 

Quantos jornalistas fazem parte da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental? Quando ela foi criada? Como ela funciona e como os jornalistas podem fazer para fazer parte da Rede?

 

Vilmar: a RBJA reúne cerca de 400 jornalistas especializados em meio ambiente que atuam na imprensa tradicional, imprensa ambiental, assessorias de comunicação, etc. Para participar é preciso ser jornalista. O Código de Admissão e Convivência da Rede dos Jornalistas Ambientais Brasileiros completo está no endereço http://www.jornalismoambiental.jor.br/jornalismoambiental/codigo.htm
E visite também o site da Rede em
http://br.groups.yahoo.com/group/jorn-ambiente/

 

Fale um pouco, por favor, sobre a Revista do Meio Ambiente, seu foco e trabalho.

 

Vilmar: Em janeiro de 1996, fundei este veículo impresso que, a partir de junho de 2006 passou a se denominar REVISTA DO MEIO AMBIENTE com a proposta de ser uma espécie de ponte de informação entre os diferentes segmentos da sociedade dedicados ao meio ambiente, unindo ambientalistas, empresários, governos, políticos, lideranças comunitárias, um incentivador e facilitador para o diálogo entre os multiplicadores e formadores de opinião ambientais. Dez anos depois, com mais de 2 milhões de exemplares distribuídos gratuitamente, precisamos fazer uma reengenharia a fim de nos adequar à demanda crescente da sociedade por mais informação ambiental. Nossa meta é chegar às bancas. Fundamos também a REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental, uma OSC – Organização da Sociedade Civil sem fins lucrativos que possui diversos grupos regionais e nacional de produtores e difusores de informações ambientais, organizados nas REBIAS SUL, SUDESTE, CENTRO-OESTE, NORTE e NORDESTE, cobrindo todo o território nacional, cada um deles difusor de informações ambientais para outros grupos e redes, assegurando uma sinergia para a multiplicação e a difusão da informação. Estimamos que, através destas redes e de seus multiplicadores, as informações disponibilizadas pela REBIA beneficiem cerca de 1 milhão de pessoas com acesso à Rede de Computadores conectadas à Internet. A posição da REBIA nessa comunidade é estratégica, atuando como emissora e receptora de informações ambientais, proporcionando material informativo capaz de permitir a análise dia a dia da conjuntura ambiental no Brasil e no mundo. Para participar da REBIA e conhecer o nosso trabalho basta fazer uma visita ao Portal do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br ).





Entrevista sobre Marketing Ecológico no Brasil para a Revista Marketing – Outubro 2002 - Por Anna Gabriela Araújo

Quando e como surgiu a Revista e o Portal do Meio Ambiente?
VSDB: surgiu da necessidade de existir um veículo especializado em meio ambiente que democratizasse, de forma regular, as informações ambientais para multiplicadores de opinião especializados em meio ambiente. Seu objetivo principal é ser um projeto cultural para a formação de uma nova consciência e cidadania ambiental planetárias atuando através da democratização da informação ambiental. O público-alvo da Revista e do Portal do Meio Ambiente é formado por lideranças de cada um dos mais importantes segmentos envolvidos com a causa ambiental, notadamente ambientalistas, governantes e empresários, o que inclui as ONGs (organizações não governamentais) ambientalistas brasileiras, bem como secretarias de meio ambiente de municípios, jornalistas especializados em meio ambiente, técnicos de órgãos de controle ambiental estaduais e federais, professores universitários, educadores ambientais, técnicos e gerentes de meio ambiente em empresas públicas e privadas, etc., atendidos através de nossa mala direta, considerada por especialistas como uma das mais completas e atualizadas do segmento de opinião pública ambiental brasileiro.

Dentro da ecologia, quais as áreas que recebem os maiores incentivos por parte da iniciativa privada? Por quê?
VSDB: As empresas têm investido não só em infra-estrutura para poluírem menos, mas também na adequação ecológica de seus produtos e embalagens e no resgate de suas imagens institucionais junto à opinião Pública e seus consumidores. A questão ambiental deixou de ser um assunto de ambientalistas 'eco-chatos' ou de românticos, para se converter em SGA (Sistema de Gestão Ambiental), PGA (Programa de Gestão Ambiental), ISO 14.001 e outras siglas herméticas. E não se trata de um tardio despertar de consciência ecológica dos empresários e gerentes, mas uma estratégia de negócio, por que pode significar vantagens competitivas ao promover a melhoria contínua dos resultados ambientais da Empresa; minimizar os impactos ambientais de suas atividades; tornar todas as operações tão ecologicamente corretas quanto possível. Com isso, a empresa ecológica estará se antecipando às auditorias ambientais públicas além de promover a redução de custos e riscos com a melhoria de processos e a racionalização de consumo de matérias-primas; diminuição do consumo de energia e água e redução de riscos de multas e responsabilização por danos ambientais.

Quais as principais dificuldades encontradas tanto pelas fundações do setor quanto pelas empresas que têm interesse em atuar nessa área?
VSDB: São muitas, entre eles, graus variados de desconfiança de segmentos da opinião pública em relação a empresas poluidoras e governos, mesmo quando estes demonstram sinceridade de propósitos e ações objetivas em defesa do meio ambiente, daí a importância de agregar a opinião de terceiros independentes, principalmente ambientalistas e veículos especializados em meio ambiente, no processo de resgate da imagem ambiental das empresas. É preciso lembrar que a opinião pública não é um bloco homogêneo, mas integrada por diferentes segmentos de opinião, exigindo produtos e mensagens diferenciadas segmentadas por públicos-alvo, especialmente no ambiental, onde multiplicadores como líderes comunitários, ambientalistas, jornalistas, políticos, etc., formam opinião ou, no mínimo, despertam na população a perplexidade e o desejo de se informar melhor ou ter uma opinião sobre um dado assunto, sendo, portanto, não só mais barato como mais eficiente atuar sobre estes multiplicadores, através das mídias ambientais especializadas. E, muitas vezes, falta aos profissionais de comunicação e publicidade capacitação e conhecimento adequados desse universo, e quem perde com isso são os clientes, que às vezes gastam dinheiro desnecessário em campanhas inúteis ou em veículos inadequados para o público-alvo errado.

O consumidor brasileiro já prefere produtos ecologicamente corretos? Cite alguns exemplos.
VSDB: Sim, e as pesquisas tem revelado isso. Publicamos no site do Jornal, durante a semana que antecedeu o Natal de 2001, uma enquete onde perguntamos ao leitor: "Você se preocupa com a origem ambientalmente correta e com o impacto ambiental dos produtos que compra?" 96 leitores (73,85%) responderam que sim; 26 (20%), que às vezes; 6 (4,62%) responderam que não e 2 (1,54%) disseram que não sabem. Em outubro de 2001, o Ministério do Meio AMBIENTE e o ISER publicaram os resultados da pesquisa nacional de opinião "O QUE O BRASILEIRO PENSA DO MEIO AMBIENTE E DO CONSUMO SUSTENTÁVEL" que, entre muitos outros dados, apontou que 59% da população disse que compram lâmpadas poupadoras de energia, 44% que compram produtos que venham em embalagens recicláveis e 36% que preferem os produtos "verdes". Observa-se ainda que 81% da população declararam que se sentem mais motivados quando, ao fazer uma compra, encontram nos produtos que procuram um rótulo que informa que o produto foi fabricado de maneira ambientalmente correta. Também 73% admitiram ficar mais motivados a comprar um produto quando o rótulo informa que ele foi produzido organicamente, isto é sem insumos químicos. Como era de se esperar, esses consumidores conscientes ou ambientalmente responsáveis estão em sua maioria em centros urbanos, possuem alta escolaridade e se concentram nas faixas economicamente ativas e de maior poder aquisitivo.

Quais as empresas e as categorias de produtos que mais investem na área ecológica? Por quê?
VSDB: A imagem ambiental das empresas é como um calcanhar de Aquiles, um ponto fraco, principalmente para aqueles setores que dependem da venda direta ao consumidor que está cada vez mais esclarecido e, embora a componente ambiental ainda pese pouco na decisão de comprar, esta preocupação está crescendo e as empresas não podem correr o risco de ter um produto recusado pelo consumidor daqui a pouco por ter uma imagem ambiental ruim. Os empresários estão atentos para o fato que, em pouco menos de duas décadas, a opinião pública mudou radicalmente de uma posição que justificava o progresso a qualquer preço, para uma opinião de que o desejável é uma espécie de progresso que leve em conta a preservação do meio ambiente. A divulgação em escala nacional e até planetária dos muitos acidentes ambientais, contribuem ainda mais para sensibilizar a opinião pública, e também fortalecer os movimentos ambientalistas, que se multiplicaram nesse período, além de gerar um conjunto de leis ambientais e de órgãos de controle que não existiam até bem pouco tempo.

Na sua opinião, quais companhias deveriam investir em estratégias de marketing ecológico? E, por quê?
VSDB: Aquelas que adotam políticas ambientais com seriedade e já tem o que mostrar ao público interno, externo e ao seu consumidor. Durante o período autoritário que vivemos no Brasil, muitas empresas adotaram o 'nada a declarar' como estratégia para se proteger de problemas, o que deu certo em muitos casos. Hoje, com a abertura democrática e instrumentos de participação da sociedade como as audiências públicas, a ausência de investimentos em programas de comunicação ou, o que é pior, a não circulação da informação correta, na linguagem adequada a cada público-alvo, é a maneira mais rápida de favorecer e até estimular boatos ou notícias erradas contra o empreendimento ou seus produtos, por maiores que sejam seus méritos ou vantagens para a comunidade e consumidor. Uma campanha de marketing ecológico é tão importante para uma empresa quanto construir prédios ou instalar equipamentos, pois se a opinião pública estiver contra a empresa, as dificuldades para licenciamento de novas operações ou para a ampliação de instalações existentes, ou venda dos produtos, será cada vez maior.



Entrevista a Aline Garcia

Quais os principais desafios que o meio ambiente deve enfrentar hoje em dia?
VSDB: São muitos, mas aproveitando o foco de sua entrevista, certamente a democratização da informação ambiental é um deles. As pessoas se mobilizam para exercer a sua cidadania, ou procuram estudar e se qualificar melhor, ou procuram mudar de comportamento a partir da informação. Se esta chega deturpada, em número insuficiente, ou desqualificada, a percepção do público também estará prejudicada. E, sem informação, como pode haver diálogo entre diferentes, como se estabelecerão parcerias em direção a um novo modelo de desenvolvimento mais sustentável, como será possível implementar uma Agenda 21? Outro aspecto que desafia os jornalistas ambientais é: como informar adequadamente sobre o meio ambiente, se as aspirações em nossa sociedade são baseadas mais em valores de consumo materiais que em valores espirituais, culturais ou artísticos, por exemplo? Frei Beto, em seu artigo Viagens Interiores (O Globo, 13/07/98) nos chama a atenção para o que andamos vendo nas propagandas, novelas, filmes, etc. Bastam alguns minutos à frente da televisão para percebermos que defeitos como inveja, orgulho, cobiça, avareza, luxúria, gula, preguiça - bases do consumismo desenfreado que gera esgotamento dos recursos naturais e poluição do planeta, por um lado, e injustiça social e concentração de renda, por outro - foram transformados em valores a serem perseguidos, como se o planeta tivesse recursos naturais em abundância para atender ao sonho de consumo de todos. O preço que pagamos pode ser visto por todo o lado. Não só no esgotamento e na poluição do planeta, mas também na miséria.

Como reverter essa situação?
VSDB: A primeira grande barreira a ser vencida é o verdadeiro bloqueio econômico de agências de publicidade, Secretarias de comunicação de governos e departamento de comunicação de grandes empresas, que simplesmente fingem desconhecer o segmento das mídias ambientais, apesar de sua importância como agentes de disseminação de informação ambiental. Apesar do reconhecimento público da importância das mídias ambientais, não é só a ampliação da tiragem, do número de páginas e da periodicidade que está ameaçada, mas a própria continuidade dos atuais veículos. Os recursos para publicidade, quando existem, são desviados primeiro para a mídia de massa das capitais, depois para as mídias de massa do interior e só por último e eventualmente, para as mídias especializadas, como a do segmento ambiental. O que parece uma simples questão econômica, na verdade tem sido uma forma de impedir o crescimento e até a manutenção de veículos de meio ambiente, que são estratégicos para a democratização da informação ambiental no Brasil. É preciso perceber, também, que por trás de nossos problemas ambientais, não estão apenas a ação de poluidores, o desmantelamento dos órgãos públicos de controle ambiental, ou a falta de consciência ambiental, mas também um tipo de atitude e valores, que julga natural explorar ao meio ambiente e aos nossos semelhantes para atingir um modelo de desenvolvimento que, por si só, gera agressões ambientais e problemas sociais. Logo, não basta exigir mudança de comportamento de empresas e governos. Precisamos ser capazes de enfrentar a nós próprios, pois não haverá planeta suficiente capaz de suprir as necessidades de quem acha que a felicidade e o sucesso estão na posse de cada vez mais bens materiais. Se queremos um planeta preservado, de verdade, não basta apenas lutar contra poluidores e depredadores. É preciso também nos esforçarmos para mudar nossos valores consumistas, hábitos e comportamentos que provocam poluição, atitudes predatórias com os animais, as plantas e o meio ambiente. Mas só isso não basta, pois não há coerência em quem ama os animais e as plantas mas explora, humilha, discrimina, odeia seus semelhantes. Por isso, precisamos, além de nos preocupar com o meio ambiente, nos esforçarmos para sermos mais fraternos, democráticos, justos e pacíficos com os nossos semelhantes.

Na sua opinião a mídia tem feito uma boa cobertura do meio ambiente? Você acha que a cobertura ambiental limita-se a acidentes, como vazamentos de substâncias tóxicas ou eventos preparados por grupo ambientalista? Como os meios de comunicação vêm tratando a questão ambiental? O espaço que a mídia oferece para a temática ambiental é suficiente?
VSDB: Contraditoriamente à necessidade de mais informação ambiental, após a RIO 92 este espaço restringiu-se na chamada grande mídia limitando-se hoje a ocorrências ocasionais, diante de acidentes ambientais e um ou outro tema que interesse ao público mais geral. Como resposta a este quadro, surgiram veículos alternativos de informação ambiental, basicamente divididos em institucionais e comerciais. Os veículos institucionais são editados por diversas entidades como estratégia para manter seus filiados e público-alvo informados das atividades e posições políticas da instituição. Mas têm tiragem restrita e não chegam a atingir a comunidade ambiental, mas podem ser uma oportunidade de trabalho para jornalistas ambientais. Desenvolveu-se, então, um segmento de mídias ambientais, de caráter não-institucional, no qual se incluem a Revista e o Portal do Meio Ambiente. É um esforço hérculeo de uns poucos editores abnegados que tentam sobreviver com dificuldades para manter veículos para tratar de um assunto que ainda é inovador numa sociedade acostumada a usar o planeta como se fosse um armazém de recursos infinitos por um lado e uma lixeira infinita por outro. E, sem veículos fortes economicamente, também não há muita esperança de emprego para jornalistas ambientais, e tanto os proprietários dos veículos ambientais, quanto os jornalistas especializados em meio ambiente, acabam dedicando-se à democratização da informação ambiental em nosso País muito mais por amor, por ideologia, que por interesse comercial. Claro que isso precisa mudar. E os instrumentos estão aí. Os países membros da ONU aprovaram durante a RIO 92 a Agenda 21, como um roteiro a ser seguido em direção ao desenvolvimento sustentável. Em seu capítulo 40, sobre Informação Para a Tomada de Decisões, os signatários recomendam que "sempre que existam impedimentos econômicos ou de outro tipo que dificultem a oferta de informação e o acesso a ela, particularmente nos países em desenvolvimento, deve-se considerar a criação de esquemas inovadores para subsidiar o acesso a essa informação ou para eliminar os impedimentos não econômicos." Os representantes dos países signatários justificam essa medida ao reconhecer que "em muitos países, a informação não é gerenciada adequadamente devido à falta de recursos financeiros e pessoal treinado, desconhecimento de seu valor e de sua disponibilidade e a outros problemas imediatos ou prementes, especialmente nos países em desenvolvimento. Mesmo em lugares em que a informação está disponível, ela pode não ser de fácil acesso devido à falta de tecnologia para um acesso eficaz ou aos custos associados, sobretudo no caso da informação que se encontra fora do país e que está disponível comercialmente."

A questão ambiental tem ganhado mais força na sociedade? Como está o interesse dos leitores pelo meio ambiente?
VSDB: Penso que sim. Em pouco menos de duas décadas a opinião pública mudou radicalmente de uma posição que justificava o progresso a qualquer preço, para uma opinião de que o desejável é uma espécie de progresso que leve em conta a preservação do meio ambiente. Influíram nessa mudança diversos fatores, entre os quais: a) a pressão exercida pelas ONGs (organizações não-governamentais), principalmente as ambientalistas, com o reforço de artistas e cientistas sensíveis à causa ambiental; b) a imensa capacidade de comunicação da imprensa, e a popularização de meios como a televisão. As empresas, por sua vez, são obrigadas a ver a questão ambiental com seriedade, menos pela pressão dos ambientalistas ou exigências legais e mais por outros fatores como, por exemplo: a) precisam alcançar uma certa excelência ambiental para obter selos verdes, do tipo ISO 14.000, a fim de evitar barreiras comerciais a seus produtos no exterior; b) se dependem de recursos financeiros via BNDES, por exemplo, devem adequar-se às exigências do Protocolo Verde. Empresas poluidoras ou que não cumprem acordos ambientais, têm poucas chances de obter ou manter empréstimos; c) se são multinacionais cujas matrizes estão em países como Europa e Estados Unidos, onde a opinião pública está mais sensível às questões ambientais, precisam dar satisfações aos acionistas a fim de garantir cargos e recursos nas filiais. As ONGs já perceberam que a imagem é um dos 'pontos fracos'dos poluidores. Por isso, quando os canais de diálogo com as empresas são interrompidos, inexistentes ou insuficientes, os ambientalistas procuram sensibilizar a opinião pública. Além da imprensa, as ONGs estão tendo acesso à Internet, denunciando as empresas poluidoras à opinião pública de seus países de origem, onde têm as matrizes, e junto a fontes de financiamento ou certificação internacional, como Banco Mundial e ISO. A intenção dos ambientalistas, aparentemente, não é 'perseguir' os poluidores, mas sim estimulá-los a priorizar recursos e ações no sentido de controlar a poluição e recuperar o passivo ambiental. Tem empresas que fazem 'pouco caso', agem como se não fosse com ela, qualificam a ação dos ambientalistas como 'oba-oba'. Em outros casos, a empresa tem investido em meio ambiente, e às vezes até já superou seus principais problemas ambientais, mas esqueceu de investir no resgate de sua imagem junto à opinião pública, que continua lembrando da empresa como poluidora. Em outros casos, ainda, a empresa desperdiça recursos ao entregar a tarefa de resgate de sua imagem a agências de publicidade que não dispõem de conhecimento sobre as questões e linguagens ambientais, muito menos sobre que veículos atingem o público multiplicador de opinião ambientalista.

Qual é a importância do jornalismo ambiental para a sociedade?
VSDB: A imprensa não gera necessariamente opinião pública, mas ao expor a informação, gera perplexidade na opinião pública, tornando-a sensível à mensagem de grupos de pressão como os ambientalistas, artistas, cientistas, políticos, por exemplo, e mais interessada em buscar informação ambiental mais qualificada em veículos especializados, cursos profissionais, etc. As informações sobre os grandes acidentes ambientais ocorridos no mundo foram determinantes para a formação de uma opinião pública sensível à questão ambiental. Segundo o Major Hazard Incident Data Service, da Grã-Bretanha, até 1.986 ocorreram 2.500 acidentes industriais no mundo, sendo que mais da metade (1.419) em apenas cinco anos, entre 1981 e 1986. Já os grandes acidentes ambientais, que envolveram maior número de mortes e milhões de dólares de indenização, num total de 233 acidentes, ocorreram no curto período entre 1970 e 1989. A divulgação em escala mundial destes fatos não só contribuiu para sensibilizar a opinião pública, mas também para fortalecer os movimentos ambientalistas, que se multiplicaram nesse período, além de gerar um conjunto de leis ambientais e de órgãos de controle que não existiam antes de 1970. Os acidentes ambientais com óleo derramado na Baía de Guanabara e no Paraná, em 1999, por exemplo, reacederam a indignação da sociedade com o descaso ambiental. A questão ambiental tornou-se um nervo exposto para empresas e governos. A opinião pública quer respostas, quer soluções. Engana-se quem pensa que a preocupação ambiental é um modismo passageiro. Diziam isso também na década de 70, quando tudo começou. Agora se percebe que ou as empresas e políticos levam o meio ambiente a sério, ou perderão negócios e votos. O Jornalismo ambiental também contribui e muito como motivador para o processo de uma nova consciência ambiental. Mas é preciso não confundir informação com formação, pois apenas transmitir conhecimentos não basta. Os meios de comunicação não possuem o caráter pedagógico requerido para o ensino do meio ambiente, mas são aliados estratégicos e fundamentais no ensino para o meio ambiente. Os educadores ambientais podem aproveitar as informações e conceitos veiculados como ferramenta pedagógica para ajudar os alunos na reflexão sobre os fatos, relacionando-os com suas realidades mais próximas. Nesse processo, os alunos ao mesmo tempo em que adquirem os instrumentos intelectuais necessários para a compreensão do mundo em que vivem, motivam-se a transformá-lo, buscando solução real para os problemas apresentados, atacando suas causas. Neste sentido, se adequadamente utilizada, os meios de comunicação podem ser aliados, não adversários do professor. Através das notícias ambientais é possível aproximar o aluno de seu meio ambiente próximo, propiciar a troca de experiência e idéias, em grupo ou individualmente, sobre o que seja meio ambiente, seus problemas concretos e possibilidades de solução. Os alunos estarão partindo do local para o global, da realidade que conhecem e dominam para a que não conhecem e desejam dominar.

Qual o futuro do jornalismo ambiental?
VSDB: Penso que não é se criando setores ambientais nas redações, departamentos, secretarias, ministérios para o meio ambiente que se ajudará a uma melhor cobertura da questão ambiental, mas é principalmente estimulando a 'ecologização' dos temas tradicionais como Saúde, Educação, Moraria, Transporte, Emprego etc. É preciso romper com a própria tendência dos jornalistas ambientais e dos ecologistas à acomodação em seus guetos e compartimentos onde o 'ecologês' é compreendidos sem questionamentos. Existe uma tendência cartesiana pela separação dos assuntos uns dos outros, sob pretexto de poder estudá-los melhor. Esse é um método de análise que, se por um lado produz profundos conhecimentos sobre particularidades da realidade, por outro perde a visão do conjunto. Não só as redações das grandes mídias, mas também as administrações públicas e as organizações não-governamentais acabam tentando transpor para a organização social essa mesma fórmula, criando departamentos e compartimentos estanques - e por vezes incomunicáveis - para tratar dos diversos temas da sociedade humana. Um dos resultados disso é a neutralização dos esforços dos jornalistas ambientais e dos ecologistas sempre que tentam penetrar em outras áreas que não a ambiental, como se fossem intrometidos em busca de ampliação de espaços de atuação política. Quando um jornalista ambiental trata de temas como fauna e flora, é imediatamente compreendido, mas quando discute os aspectos antiecológicos da Saúde, Educação, Moradia etc. é por vezes criticado ou incompreendido, como se estes assuntos não estivessem interligados. Logo não é apenas a população que percebe mal as questões ecológicas. As redações, as organizações governamentais e não-governamentais, incluindo-se ai os partidos políticos, também.

O que você acha da cobertura da grande mídia e da mídia especializada?
VSDB: Creio que exercem papéis complementares. Na chamada grande mídia a questão permanece com destaque na pauta geralmente enquanto o problema ambiental for visível. Já para a mídia especializada o problema continua na pauta mesmo depois da emergência, mostrando a parte invisível que leva aos acidentes, como a falta de controle ambiental nos processos industriais, as manobras dos políticos para afrouxar a legislação ambiental, as ações ou omissões de autoridades que levam à deterioração ambiental generalizada, etc. Para mim, grande mídia e mídia especializadas não são concorrentes, mas complementares entre si. Muitas vezes as críticas que se faz à grande imprensa de que só trata do problema ambiental enquanto o problema é visível, na verdade é uma crítica que pretende atribuir à grande mídia um papel que não é seu, já que tem de manter um olhar amplo sobre os diversos assuntos que mobilizam a sociedade e seus leitores, e isso inclui muitos mais temas que só o ambiental. Este papel cabe à mídia especializada. Só que, no Brasil, a mídia ambiental não consegue exercer adequadamente este papel não por culpa das baixas tiragens ou da incompetência de seus editores, que fazem das tripas coração para manterem seus veículos, mas por que sofrem um verdadeiro bloqueio comercial por parte de empresas e agências de publicidade. Este bloqueio, a meu ver, não tem um fim político de estrangular as mídias ambientais para que não façam a crítica do modelo predatório e poluidor, mas creio que é mais por desqualificação, falta de formação e incompetência mesmo dos profissionais de publicidade e de comunicação nas empresas em compreenderem adequadamente o papel das diferentes mídias. Este problema também atinge os clientes dessas agências, que às vezes preferem investir suas verbas de publicidade em veículos da grande mídia em vez de também incluírem as mídias especializadas em seus planos de divulgação. As empresas acabam gastando às vezes verdadeiras fortunas para adotar procedimentos ambientais adequados e controlar ou eliminar sua poluição, mas divulgam isso, quando divulgam, para um público que não se importa tanto com a informação ambiental colocada na linguagem errada no veículo errado. Durante o período autoritário que vivemos no Brasil, muitas empresas adotaram o silêncio, o 'nada a declarar', como estratégia para se proteger de problemas, o que deu certo em muitos casos. Hoje, com a abertura democrática e instrumentos de participação da sociedade como as audiências públicas, as empresas estão descobrindo que a ausência de investimentos em programas de comunicação ou, o que é pior, a não circulação da informação correta, na linguagem adequada a cada público-alvo, é a maneira mais rápida de favorecer e até estimular boatos ou notícias erradas contra o empreendimento, por maiores que sejam seus méritos ou vantagens para a comunidade. As empresas estão descobrindo que uma política de comunicação institucional é tão importante para uma empresa quanto construir prédios ou instalar equipamentos, pois se a opinião pública estiver contra a empresa, as dificuldades para licenciamento de novas operações ou para a ampliação de instalações existentes será cada vez maior.

O que você sugere para melhorar a atuação da imprensa em relação às questões ambientais? O que é necessário para um jornalista conseguir um bom desempenho na área ambiental? É necessário fazer um curso de especialização?
VSDB: É fundamental para os jornalistas ambientais falarem uma linguagem que seja percebida por todos, especialmente pelas lideranças dos movimentos comunitários, sindicais, profissionais, enfim aqueles que possuem poder de multiplicar e de produzir informações e de contribuir para o processo de transformação social. Os jornalistas ambientais, assim como os ecologistas, podem ter a clara percepção do que precisa ser mudado, a fim de conseguirmos uma relação mais harmônica da espécie humana com as outras espécies e o próprio planeta, entretanto, para conseguir mudar efetivamente as coisas é preciso a participação da população, cuja maioria elege políticos e enriquece empresários comprando seus produtos nos supermercados. Caso os jornalistas ambientais insistam em usar linguagem técnicas ou conceitos ecológicos ainda não assimilados pela população, além de não conquistarem para as teses ecológicas a adesão das forças vivas da sociedade, capazes de produzir mudanças. Se os jornalistas ambientais e os ecologistas querem a compreensão e a mobilização da sociedade para os temas ecológicos, devem antes procurar adaptar o ecologês às carências da nossa sociedade, partindo dos temas que já dominam e conhecem para os que precisam conhecer a fim de construírem uma melhor relação, mais harmônica, menos poluidora com seu meio ambiente e os outros seres vivos do planeta. A mensagem mais importante que podem passar é que nada existe isolado no planeta, mas tudo está inter-relacionado entre si.. O que acontece num lugar afeta um outro. Para pior ou para melhor. E tem mais um elemento importante que os jornalistas ambientais devem levar em consideração antes de falarem dos outros seres vivos do planeta, como as plantas e os animais. O ser humano é a única espécie em condições de alterar profundamente seu meio ambiente. Entretanto, antes de se propor uma relação mais harmônica e menos predatória de nossa espécie com as outras, que consideramos inferiores, é preciso engajar a ecologia nas lutas contra a exposição de um indivíduo contra o outro em nossa própria espécie. Ou continuaremos contribuindo para romantizar as relações ser humano-planeta Terra, e tornar as questões ecológicas cada vez mais supérfluas, elitistas e secundárias, reservadas apenas a um pequeno grupo de iniciados, que adoram discursar sobre os próprios umbigos. A população tem uma visão muito romântica da ecologia, associando-a mais em defesa do verde e, por extensão, das árvores e animais e como se a espécie humana não fizesse parte da natureza. Logo, por mais que julguem as questões ecológicas importantes, a maioria da população as considera secundárias. É mais importante lutar por moradia, alimento, emprego, escola, bons salários etc. Ecologia, na visão mais popular, é assunto para as classes mais abastadas, que já resolveram esses problemas básicos de infra-estrutura e podem viver em bairros melhores, longe da poluição, em locais arborizados. Os ecologistas pouco contribuíram para modificar essa imagem e - na maioria dos casos - ajudaram até a reforçar essa visão romântica e alienada. Dedicaram-se muito mais à defesa de animais e plantas que aos problemas da espécies humana. Com isso, embora sem má fé, ajudaram a associar ecologia ao meio ambiente natural, onde vivem as plantas e os animais, deixando de fora o meio ambiente urbano/rural, onde vivem os seres humanos. Sabemos no entanto, que ambos os ambientes vivem interrelacionados, logo, as lutas por melhores condições de vida travadas por sindicatos, associações de moradores e outras entidades da sociedade civil, por exemplo, são também lutas pelo ambiente, no caso, ambiente humano. Outra questão que os jornalistas ambientais precisam resolver para realizarem boas matérias é definir os principais responsáveis pela destruição do ambiente. É comum acusar-se a falta de conhecimento ambiental, o progresso ou a tecnologia, entre outros fatores, como os inimigos da natureza. Isso seria verdadeiro se pessoas como conhecimento ambiental não destruíssem a natureza. Infelizmente, não é o que se vê. Os caçadores, por exemplo, possuem muito mais conhecimentos sobre ecologia, natureza e a vida silvestre que muitos ecologistas, mas usam esses conhecimentos para destruir e matar. Com relação ao progresso é a mesma coisa. Na década de 70, governos internacionais preocupados com a rápida destruição dos recursos naturais e a poluição do plante, defenderam a tese do crescimento zero, ou seja, congelar os níveis de progresso à época. Ora, por diversas vezes durante nossa história econômica, o Brasil teve crescimento abaixo de zero, portanto negativo, e nem por isso viu diminuindo seus problemas ambientais, muito pelo contrário. Devido à crise econômica, as empresas investiram menos em controle de poluição. A questão tecnológica também tem sido apontada como uma das responsáveis pela destruição ambiental, uma vez que polui, degrada o meio ambiente e desperdiça recursos naturais. Ora, a tecnologia e a ciência não são neutras. Elas se submetem aos interesses dos detentores do poder naquele momento. Por outro lado, a adoção de tecnologia mais brandas e menos poluentes não asseguram uma relação menos predatória nas relações humanas, pelo menos. Um exemplo disso são quartéis de soldados norte-americanos movidos a energia solar ou biodigestores em países colonizados. Enfim, o que podemos perceber é que a destruição da natureza não resulta da forma como nossa espécie se relaciona com ela, mas da maneira como se relaciona consigo mesma. Ao desmatar, queimar, poluir, utilizar ou desperdiçar recursos naturais ou energéticos, cada ser humano está reproduzindo o que aprendeu ao longo da história e cultura de seu povo, portanto, este não é um ato isolado de um ou outro indivíduo, mas reflete as relações sociais e tecnológicas de sua sociedade. Portanto, é impossível pretender que seres humanos explorados, injustiçados e desprovidos de seus direitos de cidadãos consigam compreender que não devam explorar outros seres vivos, como animais e plantas, considerados inferiores pelos humanos. A atual relação de nossa espécie com a natureza é apenas um reflexo do atual estágio de desenvolvimento das relações humanas entre nós próprios. Vivemos sendo explorados, aprendemos a explorar. O Jornalismo ambiental, portanto, constitui-se num desafio, inclusive para separar informação de formação. Não é pelo maior ou menor volume de informações vinculado pelos meios de comunicação que a população aprende a pensar criticamente e atuar em seu mundo para transformá-lo. Muito pelo contrário. Sem uma base que permita a compreensão do que está sendo transmitido, o receptor acaba tornando-se insensível diante da poluição da informação, as palavras perdem o significado e importância, tanto faz derrubarem uma árvore ou uma floresta, tanto faz assassinarem um indivíduo ou uma multidão inteira numa republiqueta qualquer. A educação, por sua vez, não se dá ao vácuo, mas inserida em seu tempo e no contexto. Deve, portanto, associar-se aos meios de comunicação para, a partir das informações veiculadas, desenvolver um processo educativo, crítico e participativo, adequado à realidade dos alunos. Não há cidadania ambiental sem participação política. Logo, não é de estranhar que os governos até hoje não tenham conseguido estabelecer diretrizes e investir realmente em educação ambiental ou manter uma política de comunicação que leve em conta as mídias ambientais especializadas, pois é impossível estimular a participação mas não garantir os instrumentos, direitos e acesso à participação e interferência nos centros de decisões. O Jornalismo Ambiental deve contribuir principalmente para o exercício da cidadania, estimulando a ação transformadora, além de buscar aprofundar os conhecimentos sobre as questões ambientais, as melhores tecnologias, estimular mudança de comportamento e a construção de novos valores éticos menos antropocêntricos. Não basta se tornar mais consciente dos problemas ambientais, sem se tornar também mais ativo, crítico e participativo. Em outras palavras, o comportamento dos cidadãos - e dos jornalistas - em relação ao seu meio ambiente, é indissociável do exercício da cidadania.



Entrevista a Priscila Cerqueira Ribeiro

Quando e como resolveu ser jornalista?
VSDB: por volta de 1.994, quando percebi que havia dificuldades na democratização da informação ambiental no Brasil, principalmente no estado do Rio de Janeiro. A informação é uma das ferramentas básicas para a formação de consciência de cidadania e fator fundamental de estímulo à mobilização da sociedade em defesa de seus direitos, bem como conhecimento de seus deveres. A chamada grande mídia tem se ocupado do assunto mais diante de graves acidentes ambientais e tende a ignorar o tema após o desaparecimento dos sinais e conseqüência do acidente. Na época, os veículos existentes não eram em número suficiente para promover esta democratização da informação ambiental, como, aliás, ainda não é hoje, apesar da existência da Revista e do Portal do Meio Ambiente (
www.portaldomeioambiente.org.br ). Esta ausência de veículos especializados em número suficiente prejudica o fluxo regular de informações ambientais e contribui para retardar a tomada de consciência ambiental da população, além de também atuar como fator de desmobilização da sociedade em defesa de seus direitos a um meio ambiente ecologicamente equilibrado conforme assegurado pela Constituição Brasileira.

Como foi seu início na profissão?
VSDB: Como os veículos da chamada grande mídia não se interessavam em manter colunas, seções e mesmo o tema ambiental como um assunto permanente em suas pautas, também não havia espaço para um profissional especializado em meio ambiente. A saída era buscar os veículos especializados existentes, o que fiz, entretanto, verifiquei tratarem-se de veículos conduzidos quase que voluntariamente, não havendo possibilidade de remuneração profissional. A saída foi fundar um veículo próprio. Criei, em janeiro de 1996, o Jornal do Meio Ambiente, descontinuado em junho de 2006, quando já estava em sua 113ªedição, e criei um novo veículo impresso, a Revista do Meio Ambiente, e o Portal do Meio Ambiente que atualmente mantém a média, crescente, de 200.000 visitas ao mês. A Revista e o Portal são considerados como veículos de referência para a democratização da informação ambiental no Brasil.

Para um jornalista iniciante qual o diferencial que ele precisa ter para se destacar?
VSDB: Um bom nível de conhecimentos gerais, sensibilidade para perceber o tipo de linguagem e conteúdo que o público-alvo do veículo em que trabalha espera do veículo, uma formação que inclua o maior número possível de habilidades no campo da informação evitando a excessiva especialização que isola o profissional e o torna dependente demais da estrutura (ou seja, capacidade de ver a floresta além das árvores), noção de que o emprego tradicional acabou e que hoje o profissional que se limitar a ganhar salário em redações de veículos endividados e enfraquecidos - como estão a maioria -, amargarão baixa remuneração e condições ruins de trabalho.

O senhor é a favor da exigência do diploma no jornalismo?
VSDB: Este tema é polêmico e já existem iniciativas legais tanto na direção da exigência de diploma quanto na direção da liberação dessa exigência. A própria lei que regulamenta o assunto tentou encontrar uma forma de adequar o problema criando divisão de tarefas entre jornalistas com e sem diploma, mas esta divisão de tarefas nunca ficou muito nítida pois o processo de produzir informação não acontece de forma compartimentalizada numa única especialização, mas exige diversas habilidades. Entretanto, seja qual for a proposta vencedora, o fato indiscutível é que, sem uma boa formação, seja com diploma ou sem diploma, nenhum profissional da comunicação estará apto a desenvolver de forma adequada as suas funções, e a preparação de um profissional, definitivamente, não se encerra com a formatura e o recebimento do diploma, mas segue pela vida inteira. Sou a favor de uma boa formação profissional, e é excelente quando esta boa formação pode ser proporcionada pelas faculdades de comunicação, o que nem sempre é verdadeiro numa época em que a educação parece estar mais a serviço dos lucros crescentes que da qualidade do ensino. O diploma não é um atestado de bom profissional. Veja a situação dos advogados que, depois de formados, tem de fazer uma prova na Ordem dos Advogados a fim de exercer a profissão. Mais da metade não consegue ser aprovada, indicando uma falha nos cursos de Direito. Para exercer o jornalismo não é exigido prova semelhante, mas se fosse, certamente o quadro não seria diferente. O diploma é apenas um indicador que aquele profissional gastou um determinado número de horas para aprender um determinado conteúdo que um conjunto de profissionais mais antigos e experientes entendeu que era importante para considerar formados quem quisesse entrar na profissão. Mas, assim como a ausência de diploma não indica por si só um mau profissional, já que existem centenas de casos de ótimos jornalistas sem diplomas, também a presença do diploma não indica por si só um bom profissional. O importante é que o profissional tenha a consciência de que não se deixa de aprender nunca, ou seja, o diploma registra o momento do fim de um curso, e não do fim do aprendizado. Por isso aqueles que se formam de maneira autodidata também deveria ver valorizados os seus esforços já que, como não há um momento marcante indicando o fim dos estudos e o início da vida profissional, seguem, naturalmente estudando, a vida inteira, enquanto vão trabalhando. Mas esta questão tem outros lados: a reserva de mercado profissional. Os profissionais que entraram para a profissão após investirem parte de suas vidas e de suas economias ou das economias de seus pais numa formação universitária sentem-se, no mínimo, meio enganados quando encontram ocupando postos de trabalho que poderiam ser seus profissionais que não fizeram o mesmo caminho. O outro aspecto importante é o da ética. A Sociedade faz suas escolhas e forma sua opinião principalmente a partir das informações que recebe. Se estas informações foram falsas ou tendenciosas isso influenciará, certamente, na opinião pública. Assim como as pessoas devem confiar no seu médico, também precisam confiar no seu Jornalista, na pessoa que apura, produz e transmite as informações sobre a realidade. Independente de ter ou não ter diploma, o profissional de comunicação tem de ser ético no tratamento da informação.

Que conselhos/dicas o senhor daria aos alunos que estão no início do curso universitário para enfrentarem o mercado de trabalho?
VSDB: Não se limitem à visão de empregados à procura de um patrão. O emprego tradicional está desaparecendo. A saída pode ser organizar com os colegas cooperativas de serviços profissionais de comunicação para oferecer serviços a segmentos da sociedade que apesar de pequenos ou especializados e de terem necessidade de estabelecer algum tipo de democratização da informação, não encontram espaço nas mídias tradicionais, e isso envolve inúmeras organizações como bairros, clubes, ONGs, associações de pequenos comerciantes, etc. Procurem estabelecer estas parcerias ainda na faculdade quando todos estão no mesmo barco e em busca das mesmas chances. Procurem unir diferentes profissionais de diferentes disciplinas, como publicidade&marketing com o pessoal de jornalismo, pois, ao contrário de se achar que o jornalismo é uma profissão mais nobre que a publicidade, são lados diferentes da mesma moeda. A informação só consegue ser veiculada por que existem publicitários fazendo o trabalho deles. O diploma e o talento, apesar de importantes, não asseguram vaga em lugar algum. Investir no que vocês podem é um bom caminho, e vocês podem investir no aperfeiçoamento do próprio conhecimento, no desenvolvimento de parcerias entre os próprios colegas, numa visão menos egoísta e mais solidária principalmente com os setores mais conscientes da sociedade que buscam alertar e conscientizar a população, etc. Então, enquanto não encontram o tão sonhado espaço profissional, busquem estágios até não remunerado, leiam livros, façam trabalhos voluntários em sua área profissional, mantenham a mente aberta para as inúmeras oportunidades que a vida sempre nos oferece e, principalmente, não desistam.

Os profissionais chegam preparados para o mercado?
VSDB: Raramente. Mas, lembre-se que não existe uma vaga no mercado ao final do curso. As regras do mercado são diferentes das regras do ensino. Uma determinada profissão que está valorizada agora, com as da área de informática, daqui a 4, 5 anos, quando o profissional se formar, poderá não estar mais valorizada, pois o mercado funciona na base da oferta e da procura, quando a oferta de profissionais é pequena, o preço sobe, quando existem muitos profissionais na mesma área, o preço cai e o desemprego é comum. Por isso a principal pergunta a se fazer ao se decidir por esta ou aquela carreira é: esta profissão me fará feliz? Poderei através de minha profissão contribuir para melhorar o mundo de alguma maneira, ainda que seja só um pouco? Quando a gente faz o que gosta, o dinheiro é uma conseqüência, mais ou menos como a cauda do cachorro. Se o cachorro ficar correndo atrás da cauda, no mínimo ficará estressado, cansado e frustrado, pois a cauda estará sempre correndo dele apesar de quase ao seu alcance, mas se resolver ir cuidar de viver a vida sem angústias, a cauda virá naturalmente atrás dele. É preciso lembrar ainda que nenhum curso universitário faz milagres, por isso o profissional precisa manter a mente aberta e buscar complementar seu conhecimento. Quem lida com informação percebe perfeitamente a diferença entre a informação que precisa chegar o mais fiel e rapidamente possível ao receptor, da educação, que lida com a informação sobre outro prisma, buscando fixar a mensagem a ponto de estabelecer sistemas de reforço e de verificação da aprendizagem. Assim, as escolas deveriam estar muito mais empenhadas em formar cidadãos que profissionais, mas isso já é outra história.

Quais são as diferenças principais de se escrever para uma revista ou para jornal?
VSDB: Existe uma questão que vai além do mero formato. O tipo de conteúdo. Enquanto o jornal se dedica ao maior número de temas possíveis, tendendo a passar horizontalmente sobre os diferentes assuntos de interesse da sociedade, as revistas procuram se dedicar mais verticalmente a menos assuntos. Por esta característica, os jornais tendem a ter uma periodicidade mais curta, tendendo a diária, enquanto as revistas tendem a periodicidades mais longas. Ainda quanto ao conteúdo, os jornais procuram transmitir o fato quase que em tempo real e a notícia de ontem perde rapidamente a importância se não houver fatos novos. Já a revista trabalha os fatos passados e os organiza de uma forma que façam mais sentido podendo, desta forma, ser mais opinativas e tendendo a se especializarem mais e a investigar melhor os fatos.

É preciso ter alguma especialização para escrever para um veículo ambiental?
VSDB: Qualquer veículo especializado vai exigir do profissional um mínimo de domínio no conhecimento do tema abordado. No caso ambiental, o profissional precisa conhecer bastante deste universo, nomenclatura, etc. Só agora as universidades começam, timidamente, a promover o curso de Jornalismo Ambiental, mas ainda é um esforço isolado de algumas instituições. Então, para aqueles que escolherem este caminho, o jeito é mesmo estudar de forma autodidata, participar de grupos de debates de jornalismo ambiental, estagiar na área, participar de seminários e encontros ambientais, ler sobre o assunto, etc. Isso tudo para descobrir depois que não tem uma vaga no mercado para os profissionais da área, por que a grande mídia não valoriza adequadamente o tema, a mídia especializada é em número pequeno e quase ideológico sem condições de contratar ninguém.

Como surgiu a idéia de criar o Portal do Meio Ambiente?
VSDB: Surgiu de forma visionária, em 1996, quando a internet ainda não tinha a popularização de hoje. Baseou-se no compromisso com democratizar a informação ambiental de todas as formas possíveis e a internet é um veículo especial, pois pode estar em todos os cantos do Brasil e do planeta onde haja um computador e uma forma de conexão.



Entrevista a Aline Moura, sobre Jornalismo Ambiental no Terceiro Setor

1 . Qual a sua preocupação em estar atuando para o Terceiro Setor, quando criou A Revista e o Portal do Meio Ambiente?

VSDB: A rigor, A Revista e o Portal do Meio Ambiente não são direcionados para o Terceiro Setor, mas para toda a sociedade, o que inclui o Terceiro Setor, especialmente seus segmentos dedicados às lutas sócio-ambientais. O que motivou a criação da Revista e do Portal do Meio Ambiente foi a constatação de que existe muitos obstáculos para a democratização da informação ambiental no Brasil, e a informação é uma das ferramentas básicas para a formação de consciência de cidadania e fator fundamental de estímulo à mobilização da sociedade em defesa de seus direitos, bem como conhecimento de seus deveres. A chamada grande mídia tem se ocupado do assunto mais diante de graves acidentes ambientais e tende a ignorar o tema após o desaparecimento dos sinais e conseqüência do acidente. Na época em que decidi criar este projeto de comunicação ambiental, os veículos existentes não eram em número suficiente para promover esta democratização da informação ambiental, como, aliás, ainda não é hoje, apesar da existência da Revista e do Portal do Meio Ambiente ( www.portaldomeioambiente.org.br ). Esta ausência de veículos especializados em número suficiente prejudica o fluxo regular de informações ambientais e contribui para retardar a tomada de consciência ambiental da população, além de também atuar como fator de desmobilização da sociedade em defesa de seus direitos a um meio ambiente ecologicamente equilibrado conforme assegurado pela Constituição Brasileira.

2 . Você acredita no potencial do Terceiro Setor como mercado de trabalho para os jornalistas?

VSDB: Existe potencial, sim. São mais de 5 mil ONGs e OSCIPs no Brasil, cada uma delas uma fonte potencial de informações e muitas delas possuidoras de boletins, sites, que exigem profissionais qualificados. Entretanto, a não existência de políticas públicas para a democratização da informação ambiental, por exemplo, no Brasil, principalmente, a ausência de mecanismos de financiamento dessa informação, mantem esse potencial reprimido, o que não abre portas para o mercado profissional e, se constitui num bloqueio para que a informação ambiental do Terceiro Setor, com raríssimas exceções, chegue ao público interessado.

Minha sugestão aos profissionais que esperam atuar nesta área é que procurem ter um bom nível de conhecimentos gerais, sensibilidade para perceber o tipo de linguagem e conteúdo que o público-alvo da organização espera do veículo, uma formação que inclua o maior número possível de habilidades no campo da informação evitando a excessiva especialização que isola o profissional e o torna dependente demais da estrutura (ou seja, capacidade de ver a floresta além das árvores). Sugiro ainda que não se limitem à visão de empregados à procura de um patrão. O emprego tradicional está desaparecendo. A saída pode ser organizar com os colegas cooperativas de serviços profissionais de comunicação especializada em meio ambiente para atender ao Terceiro Setor através da montagem de projetos de comunicação ambiental para as muitas fontes nacionais e internacionais de financiamento, inclusive com cartas de apoio e a ajuda das organizações do Terceiro Setor que seriam beneficiadas. Sugiro que estabeleçam estas parcerias ainda na faculdade quando todos estão no mesmo barco e em busca das mesmas chances. Procurem unir diferentes profissionais de diferentes disciplinas, como publicidade&marketing com o pessoal de jornalismo, pois, ao contrário de se achar que o jornalismo é uma profissão mais nobre que a publicidade, são lados diferentes da mesma moeda. A informação só consegue ser veiculada por que existem publicitários fazendo o trabalho deles. O diploma e o talento, apesar de importantes, não asseguram vaga em lugar algum. Investir no que vocês podem é um bom caminho, e vocês podem investir no aperfeiçoamento do próprio conhecimento, no desenvolvimento de parcerias entre os próprios colegas, numa visão menos egoísta e mais solidária principalmente com os setores mais conscientes da sociedade que buscam alertar e conscientizara população, etc. Então, enquanto não encontram o tão sonhado espaço profissional, busquem estágios até não remunerado no Terceiro Setor a fim de ir ganhando experiência, leiam livros, façam trabalhos voluntários em sua área profissional, mantenham a mente aberta para as inúmeras oportunidades que a vida sempre nos oferece e, principalmente, não desistam. Lembrem-se que não existe uma vaga no mercado ao final do curso. As regras do mercado são diferentes das regras do ensino. Uma determinada profissão que está valorizada agora, com as da área de informática, daqui a 4, 5 anos, quando o profissional se formar, poderá não estar mais valorizada, pois o mercado funciona na base da oferta e da procura, quando a oferta de profissionais é pequena, o preço sobe, quando existem muitos profissionais na mesma área, o preço cai e o desemprego é comum. Por isso a principal pergunta a se fazer ao se decidir por esta ou aquela carreira é: esta profissão me fará feliz?

Poderei através de minha profissão contribuir para melhorar o mundo de alguma maneira, ainda que seja só um pouco? Quando a gente faz o que gosta, o dinheiro é uma conseqüência, mais ou menos como a cauda do cachorro. Se o cachorro ficar correndo atrás da cauda, no mínimo ficará estressado, cansado e frustrado, pois a cauda estará sempre correndo dele apesar de quase ao seu alcance, mas se resolver ir cuidar de viver a vida sem angústias, a cauda virá naturalmente atrás dele.

3. Para você, a que se deve a presença do Terceiro Setor na mídia, o que não era comum há um tempo atrás? Você acredita que foi a mídia que notou a força do Terceiro Setor ou ao contrário o Terceiro Setor sentiu a necessidade de se comunicar?

VSDB - O Terceiro Setor representa os segmentos organizados da sociedade em busca de seus direitos. Neste sentido, o interesse pela aproximação entre Terceiro Setor e Mídia é recíproca. A Mídia tem no Terceiro Setor o seu contraponto às declarações oficiais e de empresas. Tais aproximações sempre existiram, mas, sem dúvida, se tornaram muito mais significativas com o fim da ditadura no Brasil, que permitiu a livre organização da sociedade. Durante as décadas de 60 e 70, a organização da sociedade em ONGs, Associações, Sindicatos, era visto como uma atividade meio subversiva e não era raro a presença de 'arapongas' da Ditadura infiltrados nos movimentos sociais. O crescimento significativo do Terceiro Setor só se deu a partir da década de 80, com a abertura democrática.

4. Você tem observado o trabalho das Assessorias de Imprensa de ONGs, Instituições e Fundações em "divulgar" suas ações para a imprensa? Existe uma maior preocupação do Terceiro Setor em estar na mídia?

VSDB: Sem dúvida, mas, devidos aos bloqueios e dificuldades que falei anteriormente, muitas vezes este trabalho é desempenhado por não-profissionais da comunicação que emprestam seu trabalho voluntário na divulgação de organizações do Terceiro Setor, ou o trabalho é feito por profissionais, mas carece de continuidade exatamente pelo seu caráter voluntário.

5. Qual a diferença em atuar no Terceiro Setor, como jornalistas, e nos demais veículos?

VSDB: No Terceiro Setor, o profissional estará ligado a uma determinada organização, assim, trata-se de uma comunicação institucional, diferente de uma comunicação plural. O profissional estará comprometido com a visão institucional da organização que patrocina ou edita o veículo, e com o seu público-alvo. Notícias de caráter geral podem ser abordadas, mas sempre sob o enfoque institucional, o que favorece o pensamento único, ao contrário dos veículos abertos, não-institucionais, que tendem a tratar de todos os temas de interesses, sem necessariamente obrigar-se a colocar-se institucionalmente diante de cada notícia.

6. Como é produzir uma matéria sobre esse setor? Existe alguma diferença em relação às outras pautas, como economia, política, esporte e policial? As ONGs estão preparadas para atender a imprensa?

VSDB - As matérias devem ter um caráter crítico e ao mesmo tempo propositivo. Crítico por que estão em jogo direitos coletivos a um meio ambiente preservado, e não se defende direitos abrindo mão de direitos, mas se organizando para lutar por eles. Propositivo, por que não basta dizer o que está errado, é preciso também dizer como fazer certo, e até mesmo, num grau mais profissional, capacitar-se e capacitar para fazer o certo, e não apenas dizer como fazer. Neste sentido, existem diferenças, sim, na abordagem das notícias, pois o Terceiro Setor pressupõe uma visão crítica e propositiva agregada à notícia, o que nem sempre ocorre com outras matérias. Infelizmente, as organizações do Terceiro Setor estão muito longe de estarem preparadas para atender à imprensa, mas a recíproca também é verdadeira. A imprensa precisa capacitar-se melhor para atender e até mesmo compreender o Terceiro Setor e seu importante papel na conquista e manutenção dos direitos democráticos em nosso país e no mundo.



Entrevista à Revista Construir - Fabiana Barboza - revistaconstruir@hotmail.com

1. Qual a real situação e necessidades hoje do meio ambiente.

VSDB: Não resta a menor dúvida que nosso estilo de vida sobre o Planeta é insustentável e está avançando sobre os estoques naturais da Terra, comprometendo as gerações atuais e futuras. De acordo com Relatório Planeta Vivo 2002, elaborado pelo WWF, o ser humano usa 20% a mais do que a terra pode repor. Além disso, é preciso considerar que este avanço sobre os recursos do Planeta não se dá de maneira igual para todos. Existe um enorme desequilíbrio entre África e Ásia, que usam os recursos do Planeta em torno de 1,4 hectares por pessoa, enquanto na Europa Ocidental este uso chega a 5,0 hectares e a dos norte-americanos, a 9,6 hectares. Os brasileiros usam em média 2,3 hectares.

São alguns dos muito indicadores que tem apontado para o crescimento dos problemas ambientais que estão se tornando globais, ameaçando o meio ambiente e, por conseqüência, a qualidade de vida e a sobrevivência de nossa própria espécie - e das demais. A sociedade precisa de informações ambientais de qualidade para tomar decisões e enfrentar o desafio de descobrir novos caminhos, novas tecnologias, novo jeito de viver sobre o Planeta sem comprometer o presente e mesmo o futuro de filhos e netos - muitos dos quais nem nasceram ainda mas que já dependem do que estamos fazendo e decidindo aqui e agora.

O grito de alerta já foi dado há algum tempo e, durante a RIO 92, no Rio de Janeiro, quando estabeleceu-se uma espécie de novo pacto social que passou a incluir com real seriedade a componente ambiental. Dez anos depois, os governantes reuniram-se novamente em Johannesburgo, na África do Sul, para avaliar o que foi realmente realizado nos 10 anos e tentarem reverter algumas das tendências negativas e colocar a humanidade no caminho do desenvolvimento sustentável.

O planeta não é um enorme armazém de recursos infinitos, por um lado, e uma enorme lixeira capaz de absorver indefinidamente os nossos restos, por outro. O atual modelo de desenvolvimento tem usado o planeta além de sua capacidade de suporte, e o colapso dos sistemas vivos e os seus sinais já são visíveis por todo o lado, como o aquecimento global, a perda maciça de florestas e biodiversidade, etc. Como um lado diferente da mesma moeda, milhões de nossos semelhantes estão condenados a uma vida de sofrimento, fome e miséria. O que se percebe é que a mesma lógica que superexplora o planeta produz também a miséria e a fome. Não basta defender um desenvolvimento ambientalmente sustentável sem perguntar: sustentável para quem? Para os ricos? É fundamental que além de ambientalmente sustentável, esse novo modelo de desenvolvimento seja também justo na distribuição da renda e qualidade de vida para todos.

Por trás deste modelo insustentável não está a falta de informação ou de conhecimento científico, muito menos a exigência de atender as necessidades básicas da humanidade. Só o que se gasta em armamentos hoje no mundo seria mais do que suficiente para dar casa, comida e uma vida digna a todo ser humano neste planeta. Por trás dessa forma de vida existem valores egoístas, materialistas, mesquinhos onde o que importa é acumular mais e mais poder e lucros crescentes. E pouco adiantará exibir números sobre os impactos negativos e as conseqüências dessa ação humana sobre o planeta, pois, ao contrário de estimular uma revisão de valores, só servirá para tornar os materialistas e egoístas ainda mais afoitos em sua corrida por acumular mais bens e poder antes que os recursos que restam se esgotem ou o meio ambiente se contamine demais. Para esse tipo de gente o mundo se divide entre vencedores por um lado e perdedores por outro, uma espécie de seleção natural da espécie, onde vencem os mais aptos. É mais ou menos como aquele sujeito que, ao ser informado sobre a necessidade de economizar água pois ela pode acabar, trata logo de beber e estocar o máximo que puder antes dos outros.

Seria muito cômodo acreditar que só os donos do poder econômico e político são egoístas, materialistas e hipócritas. Na verdade, cada um de nós que coloca sua idéia de felicidade, sucesso, prestígio ou reconhecimento social no acúmulo de bens e dinheiro reforça esse modelo. Quantas vezes ouvimos pessoas medindo o sucesso e a felicidade de alguém pelo novo carro ou iate, a viagem ao exterior, a construção de uma piscina, o tamanho dos lucros num determinado período, a operação plástica, etc.

Por trás de nossos problemas ambientais, não estão apenas a ação de poluidores, o desmantelamento dos órgãos públicos de controle ambiental, ou a falta de consciência ambiental, mas também um tipo de atitudes e valores, que julga natural explorar ao meio ambiente e ao nossos semelhantes só para acumular lucros crescentes, só se importante a nível do discurso com as agressões ambientais e problemas sociais que gera. Logo, não basta exigir mudança de comportamento de empresas e governos. Precisamos ser capazes de enfrentar a nós próprios, pois não haverá planeta suficiente capaz de suprir as necessidades de quem acha que a felicidade e o sucesso está na posse de cada vez mais bens materiais.

2. O planeta hoje está muito "sensível", pois algo que acontece do outro lado do mundo, reflete nos quatro cantos do planeta. Por que essa ligação "planetária" está se estabelecendo tão rapidamente e tão significativamente.

VSDB: Os problemas ambientais estão se tornando cada vez mais globais, como por exemplo, a emissão de gases provocadores do efeito estufa e que estão resultando em alterações de clima e aquecimento global e isso se deve ao avanço de um estilo de vida. Só para citar o exemplo da Amazônia, no período entre 2002 e 2003 atingimos o segundo maior nível de desmatamento da historia, com 23.750 quilômetros quadrados destruídos, quase o recorde de 1994-1995, de 29.059. O desmatamento, segundo o inventário de emissões de gases-estufa feito este mês pelo governo Lula é o principal responsável pela emissão de CO2 (dióxido de carbono, ou gás carbônico), o principal gás causador do aquecimento do Planeta e, somente no ano de 1994, o Brasil emitiu na atmosfera 1,03 bilhão de toneladas do gás o que coloca o nosso país responsável por 3% de todos os gases-estufa emitidos pelo ser humano no Planeta.

O que está em discussão é um novo modelo de valores e princípios que deverá nortear nossa ação no mundo. A grosso modo existem duas grandes visões em confronto. Uma visão economicista não solidária, que transforma tudo em mercadoria, incluindo a força de trabalho e a inteligência humana e todo o planeta junto, para o fortalecimento e enriquecimento de um pequeno grupo de nações e grandes empresas. Esta é a visão dominante, que nos trouxe até aqui. E outra visão, de uma economia solidária não só com as pessoas, exigindo melhor justiça social e distribuição de riquezas, mas também mais respeito ao Planeta e todas as suas formas de vida. A visão ecológica é relativamente nova. Há pouco menos de três décadas poluição era sinônimo de progresso. Hoje, a opinião pública está mais consciente e crítica. Continua querendo progresso e crescimento, mas já não aceita a falta de responsabilidade ambiental, a poluição, a destruição e desperdício de recursos naturais. Um dos problemas é definir quais os limites do crescimento. Até onde uma comunidade pode usar os recursos naturais e a biodiversidade sem comprometer a sua própria qualidade de vida ou a de seus filhos e netos e, por mais que os antropocêntricos não gostem da idéia, também a vida e a qualidade de vida das outras espécies não-humanas, com tanto direito quanto nós sobre os recursos do planeta?

3. Qual o caminho para uma relação mais harmoniosa com o meio ambiente;

VSDB: A mudança para uma relação mais harmônica e menos predatória e poluidora com o planeta e as outras espécies depende de todos, mas, especialmente, começa em cada um de nós, individualmente, através de dois movimentos distintos: um para dentro de nós mesmos e de nossa família, com adoção de no­vos hábitos, comportamentos, atitudes e valores; e outro para a sociedade em torno de nós, buscando a união com outros cidadãos para influir em políticas públicas e empresariais que levem em conta o planeta, a qualidade de vida, a justiça social.

Entretanto, quando pensamos em mudanças, precisamos enfrentar um fato objetivo: de onde vem o poder dos poderosos? Da força das armas e de seus exércitos? Claro que não. Vem do povo. É o povo quem dá força aos poderosos. É o povo quem elege e deselege políticos e é quem compra ou deixa de comprar produtos e serviços que criam ou destróem as mega empresas. Só que o povo não tem a consciência dessa sua força, como um enorme elefante que permanece prisioneiro numa corrente que agora é fraquinha, mas não era quando ele era pequeno e tentava se libertar. Será que o povo deseja mesmo uma economia solidária, como se fôssemos uma enorme colméia de abelhas onde cada um faz a sua parte para o bem de todos, ou no fundo no fundo, que vença o melhor e o mais forte? O que está em discussão, é o grau de civilidade que a Humanidade como um todo está disposta a adotar. Precisamos nos olhar diante do espelho para saber se nossas palavras, pensamentos, valores, desejos, não contradizem nossos atos. Como agimos no nosso dia a dia? Quais são os valores e princípios que nos movem em nosso cotidiano? O que sonhamos para os nossos filhos no futuro e que futuro é esse que estamos construindo para nossos filhos e netos? Enfim, qual é a nossa idéia de felicidade, para nós e para os que dependem de nossos atos aqui e agora para ter qualidade de vida no futuro?

Nossa rota sobre o planeta será insustentável, enquanto nossa idéia de felicidade for baseada na posse de bens materiais e na acumulação de riquezas, enquanto ter for mais importante que ser. Então, se pretendemos que os poderosos do mundo mudem, precisamos também saber se estamos mudando a nós próprios, para não continuarmos a criar poderosos com nossos falsos sonhos e perspectivas de felicidade.

4. Como a educação pode contribuir para uma prática mais efetiva de cuidado com o meio ambiente;

VSDB: O en­sino so­bre o meio ambiente deve contribuir principalmente para o exer­cício da ci­dadania, estimulando a ação transformadora, além de buscar aprofundar os conhecimentos sobre as questões ambientais de me­lhores tecnologias, estimular mudança de com­portamentos e a cons­trução de novos valores éticos menos antro­pocêntricos. A educação ambiental é fundamentalmente uma pedagogia de ação. Não basta se tornar mais consciente dos problemas ambientais sem se tornar também mais ativo, crítico participativo. Em outras pala­vras, o com­portamento dos cidadãos em relação ao seu meio ambiente, é in­dissociável do exercício da cidadania.

Afinal, todos nós dese­jamos viver num mundo melhor, mais pací­fico, fraterno e ecológico. O problema é que as pes­soas sempre esperam que esse mundo melhor comece no outro. É comum ouvirmos pessoas falando que têm boa vontade para ajudar, mas como ninguém as convida para nada, nem se organizam, então não podem contribuir como gostariam para um mu­tirão de limpeza da rua, por exemplo, ou para plantio de árvores. Pessoas assim acabam achando mais fácil reclamar que nin­guém faz nada, ou que a culpa é do “Sistema”, dos governantes ou empresas, mas não se perguntam se estão fazendo a parte que lhes cabe.

O professor deve procurar colocar os alunos em situações que sejam formado­ras, como, exemplificando diante de uma agressão ambiental ou de um bom exemplo de preservação ou conservação ambiental, apresentando os meios de compreensão do meio ambiente. Em termos ambientais isso não constitui dificul­dades, uma vez que o meio ambiente está a nossa volta. Dissociada dessa realidade, a educação ambiental não teria ra­zão de ser. Entretanto, mais importante que dominar informações sobre um rio ou ecos­sistema da região é usar o meio ambiente local como mo­tivador, para que o aluno seja levado a compreender conceitos como, por exemplo, que nada vive isolado na natureza e assim como influenciamos no meio, somos influenciados por ele, etc.

5. Como estimular e sensibilizar o professor, independente de sua especialidade, a trabalhar, junto com seus alunos, a idéia de cuidar do meio ambiente;

VSDB: O professor pode não se considerar um ecologista na acepção da palavra, mas naturalmente gosta de natureza e não acha bom quando a destróem. Mas o que fazer? Os poluidores costumam argumentar que a poluição é o preço do progresso. Mas será que existe só esse tipo de progresso? Claro que não! E, depois, progresso é para gerar desenvolvimento e bem estar, por isso não se justifica que prejudique a saúde da população com po­luição do meio ambiente. Esse tipo de pro­gresso não é progresso. É atraso. Então, a primeira coisa a fazer diante de uma agressão à na­tureza é NÃO FICAR CALADO! A Constituição nos garante que um meio am­biente preservado é direito de TODOS! Precisamos nos organizar para garantir nosso direito a um meio ambiente limpo, para nós e para os que virão depois de nós! Mas como enfrentar problemas tão graves, se somos tão poucos? Pensando assim, muita gente que poderia ajudar, acaba ficando de fora. Se nenhum de nós nunca começar, nunca to­mar uma atitude pessoal e firme diante da poluição ao nosso meio am­biente, seremos sempre pou­cos. Mas o professor pode ajudar a mu­dar isso a partir da sala de aula, com seus alunos. Em meu livro COMO FAZER EDUCAÇÃO AMBIENTAL (editora Paulus 0800-557880 www.paulus.org.br ) sugiro algumas idéias:

REVEJA SEU PLANEJAMENTO ESCOLAR - Introduza a questão am­biental em todas as matérias do seu plano de aula. A Educação Ambien­tal pode e deve estar presente em todas as ma­térias! Não só na Ciên­cia, mas também na Matemática, Português, História, Geografia, Artes etc. Encontrar as maneiras de fazer isso é um desafio para você. Con­verse com seus colegas da mesma disciplina e estudem juntas as possi­bilidades de incluir a questão ambiental em cada item do plano de aula. Use a criati­vidade.

SAIA DA SALA DE AULA - Será que aquele rio que passa ao lado da escola sempre foi poluído? Onde ele começa a fi­car poluído? Onde ele nasce? Que tipo de po­luição suja o rio? Quem suja mais? Como fazer para defender os rios? São perguntas que só po­dem ser respondidas botando o pé no chão, marcando dia e hora com sua turma para todos fazerem isso em equipe. Isto é só um exemplo das mui­tas possibilidades que você pode vivenciar com seus alunos. Mas para isso aconte­cer você deve primeiro vencer algumas barreiras como, por exem­plo, quantas vezes ouvimos que “fazer atividades com alunos fora de sala é muito complicado, dá muito trabalho. Se em sala de aula eles já não obedecem direito, imagina na rua". Se preci­sar fa­zer a atividade num fim de semana ou feriado é ainda pior: "Sábado não é meu dia de trabalho, por tanto não vou me prejudicar"; ou então: "não tenho tempo". Como se a conquista dos nossos direitos precisasse de pessoas desocupadas. Pessoas de­socupadas normalmente não se interessam por coisa alguma, por isso são desocupadas. Tempo nós arranjamos ad­ministrando nossa vida. Há um provérbio árabe que diz assim: QUANDO ALGUÉM QUER FAZER ALGUMA COISA, SEMPRE ARRANJA UM JEITO. QUANDO NÃO QUER FAZER, SEMPRE ARRANJA UMA DESCULPA! Por isso, estimule seus colegas a vencerem bar­reiras, se não, a natureza vai ficar cada vez pior, e os maiores pre­judicados seremos nós próprios e aqueles que virão depois de nós, como nossos filhos e netos.

TRABALHE EM EQUIPE E BUSQUE AJUDA - Existem grupos ecológicos, associações de morado­res, sindica­tos, clubes de serviço etc. que podem ser alia­dos. Pelo lado do Governo você pode contar também com ajuda, mas não alimente muitas ilusões. Os órgãos governamen­tais de meio ambiente normalmente carecem de verba e pessoal. De qual­quer maneira, você deve procurá-los ao constatar alguma irregu­laridade, exigindo direitos de cidadão. Então, a defesa do nosso direito ao meio ambiente preservado, é feita assim: buscando aliados nas for­ças populares, procurando os órgãos governamentais de meio ambiente, evitando ser envolvido ou iludido pelos adversá­rios naturais, que são aque­les que enriquecem com a destruição do meio ambiente. Experimente dividir essa tarefa com seus alunos: iden­tifique uma boa causa através do estudo do meio ou de caso, en­tre em contato com seus possíveis aliados, procure legislação e documentos sobre o problema, convoque técnicos para palestras na escola, escreva para en­tidades que tenham informações, pro­cure a imprensa para denunciar as agressões ambientais. Você vai descobrir que suas aulas se tornarão muito interessantes e seus alunos, bastante motivados.

6. Ainda dá tempo de "consertar" o que fizemos de errado?

VSDB: Como última esperança precisamos confiar no forte instinto de sobrevivência de nossa espécie. Antes, só quem sofria eram os que não tinham acesso ao poder e à riqueza. Agora, com a destruição crescente dos sistemas vitais a nível global, os poderosos também começam a ver ameaçados as suas conquistas. Afinal, de que adiantará acumular um tesouro em bens e dinheiro, mas não ter um ar ou uma água limpa para respirar. Cada vez mais as pessoas estão percebendo que, ao contrário do planeta parecer uma laranja que podemos jogar o bagaço fora depois de chupada, o planeta é um barco, onde uns poucos privilegiados podem estar viajando na primeira classe, mas estamos todos juntos no mesmo destino.

Tem gente que acha mais fácil ficar reclamando que nin­guém ajuda, mas não se pergunta se está fazendo a sua parte em defesa do Planeta. Para conseguir convencer os outros a modificarem seus hábitos, precisamos mo­dificar os nossos primeiro. Se queremos um planeta preservado, de verdade, não basta apenas lutar contra poluidores e depredadores. É preciso também nos esforçarmos para mudar nossos valores consumistas, hábitos e com­portamentos que provocam poluição, atitudes predatórias com os animais, as plantas e o meio ambiente.

Mas só isso não basta, pois não há coerência em quem ama os animais e as plantas mas explora, humilha, discrimina, odeia seus semelhantes. Por isso, precisamos, além de agirmos corretamente com o meio ambiente, nos esforçarmos para sermos mais fraternos, democráticos, justos e pacíficos com os nossos semelhantes.

Confúcio disse, há mais de 5 mil anos, que se alguém quisesse mudar o mundo, teria de come­çar por si próprio, pois mudando a si próprio, sua casa muda­ria. Mudando sua casa, a rua mudaria. Mudando a rua, o bairro mudaria. Mudando o bairro, mudaria o município e assim por diante, até mudar o mundo.

O atual modelo predatório e injusto sobreviverá enquanto nossa idéia de felicidade for baseada na posse de bens materiais e na acumulação de riquezas, enquanto ter for mais importante que ser. Então, se pretendemos que os poderosos do mundo mudem, precisamos também saber se estamos mudando a nós próprios, para não continuarmos a criar poderosos com nossos falsos sonhos e perspectivas de felicidade.



 

Entrevista a Maria Cecília Trannim para tese de mestrado para o Programa EICOS, Cátedra da Unesco no Brasil, UFRJ

 

Maria Cecília: Na sua opinião, quais são os principais temas enfocados na cobertura ambiental?

 

Vilmar: Na chamada Grande mídia, principalmente acidentes e problemas ambientais enquanto permanecerem visível. Na mídia especializada, depende do enfoque do veículo em seu público-alvo, no caso do JMA, são formadores e multiplicadores de opinião em meio ambiente, daí a pauta ser diversificada e procurar cobrir todo o espectro da complexa questão ambiental. No caso da Revista Meio Ambiente Industrial, por exemplo, o foco são gestores ambientais na iniciativa privada, então a pauta dedica-se mais às questões técnicas industriais ligadas à gestão ambiental, e assim por diante.

 

Maria Cecília: Na sua opinião, qual a importância das áreas protegidas para a conservação da biodiversidade?

 

Vilmar: Acho fundamentais para a conservação da natureza, e talvez seja a forma mais bem sucedida de atingir este objetivo, pelo menos no atual quadro de educação e consciência ambiental da sociedade, que ainda vê a natureza como um armazém de recursos naturais infinitos para o ‘progresso’ humano. O problema é que pressupõe, por um lado, que, o que não está protegido numa determinada área, então pode ser usado sem os mesmos critérios de cuidados ambientais, o que não é verdadeiro, e, por outro, que o que está protegido como área natural, não pode ser tocado sob pena de ser destruído, o que também não é verdadeiro.

 

Maria Cecília: De que maneira a mídia tem divulgado as áreas protegidas?

 

Vilmar: Quanto à Grande mídia, ou para denunciar queimadas e problemas ou como destino de ecoturismo. Na mídia ambiental, dependendo do veículo, para informar sobre descobertas científicas, política ambiental, divulgação de projetos ambientais, etc.

 

Maria Cecília: quais as áreas protegidas mais divulgadas pela mídia?

 

Vilmar: As que estão mais próximas dos grandes centros urbanos (ex. PN da Tijuca) e que são grandes destinos de ecoturismo (ex. PN de Foz do Iguaçu) ou estão no foco do interesse das ONGs Internacionais (ex. Amazônia).

 

Maria Cecília: qual a razão do enfoque nessas áreas?

 

Vilmar: Regras do mercado. Nas grandes cidades está também o público leitor que compra este tipo de informação.

 

Maria Cecília: Há dificuldades de difusão das áreas protegidas através da mídia de massa?

 

Vilmar: sim, pois Governos, ONGs, Academia, Empresas, etc., gastam às vezes bastante para produzir conhecimento e conteúdo ambiental e muito pouco para democratizá-la. A ausência de financiamento da informação ambiental é um fator limitante tanto na esfera pública, em todos os níveis, inclusive internacional (Banco Mundial, etc.), quanto no setor privado e mesmo no terceiro setor. Apesar de existirem inúmeros projetos envolvendo a Biodiversidade e as áreas naturais, estes projetos quase nunca incluem em seus orçamentos o componente ‘democratização da informação ambiental’ gerada pelo projeto, pressupondo que os veículos se interessarão em pautar e financiar esta democratização, o que não é verdade. A divulgação é como uma moeda com dois lados, num está a informação, no outro a publicidade ou os recursos que permitem pagar gráfica, profissionais, etc. e, como o mercado não valoriza adequadamente a informação ambiental, o esforço acumulado acaba empoeirando-se em alguma estante ou gaveta. Muitas vezes os projetos limitam-se à publicação de um folder de baixa tiragem, ou a apresentação de um site pouco divulgado, ou produzem uma publicação institucional de pensamento único que não promove o contraditório, a pluralidade de opiniões e a informação, ou um livro de luxo de baixa tiragem e acesso restrito, e aí a informação ambiental sobre a biodiversidade acaba ‘encastelada’ em pequenos fóruns, que já detém a informação; Falta de interesse do mercado (leitores) pela informação ambiental (existem dezenas de títulos nas bancas do país sobre temas diversos, de sexo, vida de artistas, moda, culinária, beleza, etc., e quase nenhum sobre meio ambiente, com exceção da Revista Horizonte Geográfico, que enfoca o Ecoturismo e a Revista Natureza, que enfoca jardinagem e paisagismo); falta de espaço na grande mídia para a informação ambiental, a não ser quando é problema, ou nos cadernos de ecoturismo, quando é destino; falta de capacitação dos profissionais de comunicação; falta de uma visão conservacionista dos editores e pauteiros. Falta de veículos especializados em meio ambiente em número e tiragem suficiente. O que existe atualmente, somadas as tiragens, não alcança 500 mil expls. Por mês. Etc.

 

Maria Cecília: Você identifica problemas de gestão das áreas protegidas?

 

Vilmar: Sim. Simplificando, e sempre que se simplifica se comete erros, a grosso modo, existem duas visões distintas de gestão de uma área natural: a que considera o ser humano um fator de risco para a biodiversidade, um predador natural, cuja presença em áreas naturais que se deseja preservar, deveria ser evitada ou restringida ao máximo; e outra visão, que considera o ser humano, quando adequadamente motivado, educado e conscientizado ambientalmente, um fator de preservação dessa mesma biodiversidade. Teoricamente, os especialistas têm defendido essa segunda visão, na prática, tem sido muito difícil deixar de agir pela primeira visão. Principalmente por sete fatores, entre outros: a segunda visão ainda é bastante moderna e teórica, e ainda vai demorar um pouco para substituir a visão tradicional que exclui o ser humano e que está na base mesmo da filosofia que criou as unidades de conservação, no passado, como porções isoladas, há cerca de uns 50 anos. Esta filosofia, hoje, está sendo revista, pois entende-se que, ao se propor uma ‘ilha isolada’ se pressupõe por princípio que fora dessa ilha é permitido não conservar a biodiversidade, o que não é verdadeiro. Por outro lado, ao contrário das áreas naturais estrangeiras, onde praticamente, por ocasião de sua criação, só havia biodiversidade, sem a presença humana, no Brasil, é muito difícil a não existência de presença humana em áreas naturais, criando-se uma situação de injustiça social e a figura do ‘refugiado ecológico’ que apesar de ter chegado muito antes da lei que criou a proteção daquela determinada área, é tratado como um estorvo indesejável e restringido na reprodução de sua cultura e modo de vida. Falta capacitação de nossos gestores para lidar com a presença humana em áreas naturais protegidas. A maior parte desses gestores é formada em áreas de ciências naturais, como biólogos, engenheiros florestais, etc. e muito poucos em ciências humanas, como antropólogos, sociólogos, etc. Os cursos nas áreas de ciências naturais abordam muito pouco na grade de ensino a problemática da conservação de áreas naturais, e muito menos ainda sobre como lidar com a presença humana nessas áreas. E, até que me provem o contrário, lidar com plantas e bichos é infinitamente mais fácil que lidar com gente. Falta a compreensão – e conseqüentemente, investimentos - do papel da comunicação no processo de gestão. Assim como o cimento é fundamental na construção de uma ponte ligando um lugar ao outro, a comunicação é a ponte que liga diferentes pessoas, interesses, pensamentos. Sem um efetivo investimento adequado em políticas de comunicação, que considere os diferentes públicos interessados e suas diferentes linguagens, não existe gestão que funcione adequadamente. E assistimos esse erro repetir-se indefinidamente, não só na gestão de áreas naturais públicas como também nas privadas. A legislação considera crime ambiental agravado o dano ambiental em áreas protegidas, e penaliza tanto o agressor quanto o gestor. Na dúvida, os gestores podem preferir não arriscar e correr o risco de parecer antipático mas manter o público o mais distante possível das áreas naturais, ou restringir bastante o seu acesso, a fim de evitar problemas. Ainda é muito tímida a adoção de princípios de auto-sustentação, como hotéis, restaurantes, equipamentos e destinos de ecoturismo em áreas naturais, que poderiam estar gerando recursos e sustentando economicamente tais áreas. Aqui também há uma enorme falta de capacitação dos gestores que não recebem formação empreendedora e as atividades lucrativas em áreas naturais são vistas mais como um mal necessário que como um fator de preservação ambiental. Até mesmo o gestor empreendedor é visto com certa desconfiança por muitos ambientalistas que ainda têm a visão da intocabilidade ambiental das áreas naturais e que qualquer atividade lucrativa é um mal em si mesma. A aprovação de qualquer empreendimento comercial dentro de uma área natural não só não é estimulado como sofre restrições e burocracias de desanimar qualquer investidor. Embora na teoria o princípio de parcerias público-privada já exista, inclusive toda uma legislação reconhece as OSCIPs como organizações que poderiam, na teoria, estarem gerindo áreas naturais públicas. Na prática, ainda não se superou a desconfiança que existe de parte a parte e aqui também as regras e burocracias desanimam qualquer tentativa. Os Estados e a União são abstrações jurídicas, pois se vive mesmo é no território dos municípios. Falta uma legislação que compense financeiramente os municípios pelas porções de território ‘imobilizados’ com a criação de áreas naturais protegidas. As receitas de um município, além dos repasses federais, são o ICMs, IPTU, ISS, Impostos por circulação de veículos, e nenhum desses impostos são gerados numa área natural protegida, onde não se pode construir, daí não tem, IPTU, nem há circulação de mercadorias ou de venda de combustíveis ou serviços. Assim, uma área natural traz mais ônus que bônus aos municípios e, existem municípios, como Paraty, por exemplo, no Estado do Rio de Janeiro, que 70% de seu território é área natural protegida, ou seja, o município só arrecada sobre 30% de seu território. Em nome da preservação da biodiversidade, promove-se o congelamento da miséria econômica-social da região. Essa distorção poderia ser facilmente resolvida caso o principio da compensação financeira ambiental fosse adotada em todo o país, com o exemplo do Paraná, onde o Deputado Estadual Neivo Beraldin incluiu na constituição do Estado o ICMs Ecológico.

 

Maria Cecília: Quais as recomendações que você entende serem pertinentes aos órgãos públicos para a divulgação e difusão das áreas protegidas?

 

Vilmar: Em primeiro lugar, e acima de qualquer outra prioridade, tratar a comunicação ambiental como talvez o insumo mais importante como fator de preservação ambiental de qualquer área natural, tão ou mais importante quanto os investimentos em segurança, limpeza, delimitação, demarcação, etc., pois a comunicação é o ‘cimento’ que constrói as pontes da gestão eficiente, que leva em conta as pessoas e seus diversos interesses.

 

Maria Cecília: O que poderia ser aprimorado para que a mídia possa colaborar melhor com a difusão das áreas protegidas, o processo de conservação da biodiversidade e temas conexos para o grande público?

 

Vilmar: Quem faz a mídia são sua equipe de profissionais e seus leitores. No caso em foco, o profissional precisa conhecer  bastante deste universo, nomenclatura, etc. Só agora as universidades começam, timidamente, a incluir a temática ambiental no currículo, mas ainda é um esforço isolado de algumas instituições ou cursos. Então, é importante oferecer oportunidades de conhecimento e articulação, como o Projeto REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental, por exemplo, para oferecer informações e favorecer a troca de informações, opiniões, conhecimentos sobre o tema, promover seminários e encontros ambientais, etc. Também é importante trabalhar com o ‘fermento da massa’. A opinião pública não é um bloco homogêneo, mas divide-se em públicos de interesse. Trabalhar com os formadores e multiplicadores de opinião interessados em meio ambiente é um caminho estratégico diante dos recursos que são poucos e, a partir daí, ir ganhando a grande ‘massa’. Temos buscado priorizar a Natureza Brasileira, inclusive dedicando um setor inteiro do Portal que edito à divulgação das áreas naturais brasileiras e sua rica biodiversidade.

 

 

 

Entrevista a Berenice Gehlen Adams para a revista eletrônica Educação Ambiental em Ação


EA EM AÇÃO: Conte-nos como surgiu o seu interesse pelas questões ambientais e desde quando você se dedica a esta temática?

 

Vilmar: minha atuação na área ambiental não se deu por alguma necessidade profissional ou objetivo econômico, mas por um compromisso com a formação de uma nova consciência ambiental em nossa sociedade onde a maior e primeira necessidade é a de informação, pois, uma vez informado, o cidadão busca seus direitos, cumpre com seus deveres, procura formação adequada, etc. Após mais de dez anos como militante ambientalista, primeiro na Univerde, depois nos Defensores da Terra, no período entre 1980 e 1994, vi crescer a consciência ambiental na sociedade e também vi multiplicarem-se os números de novos militantes ambientalistas e de novas ONGs. Achei, então, que poderia investir minhas energias em outras frentes onde eu poderia ser mais útil na luta por uma nova consciência e atitudes com o Planeta. Por que as pessoas tinham tanta dificuldade de se mobilizarem na defesa dos seus direitos a um meio ambiente preservado e mesmo para mudarem de atitude? Existem vários fatores mas um deles, sem dúvida, é a falta de formação ambiental adequada na sociedade, o que me levou a escrever livros de educação ambiental, entre os quais "Como Fazer Educação Ambiental" que é adotado em muitas escolas e por muitos professores no país e hoje é curso à distância da UFF. Neste livro, proponho a criação de uma Rede de Clubes de Amigos do Planeta, para que as novas gerações já cresçam com a preocupação de pensar e agir concretamente na melhoria do meio ambiente em vez de ficar esperando por 'salvadores da pátria'. Esta idéia vem se multiplicando pelo país e, por exemplo, só no município de Barra Mansa, no Rio de Janeiro, já são mais de 40 clubes, reunindo mais de 500 jovens que realizam ações concretas como plantio de árvores, etc. Importante também a iniciativa de criar instrumentos para favorecer a ação da sociedade através do trabalho voluntário ambiental. A diferença entre o Projeto dos Voluntários Ambientais e o Clube de Amigos do Planeta é que o primeiro se propõe a estabelecer um canal permanente para atender à demanda já existente na sociedade para o trabalho voluntário, enquanto o segundo se propõe a motivar e ajudar a organizar os jovens em idade escolar para serem voluntários ambientais. A idéia é fazer de cada escola um clube, e de cada clube uma ação concreta em benefício do meio ambiente adjacente, num trabalho que procura envolver toda a comunidade e contribuir para formar cidadãos críticos e participativos. Mas, sem informação ambiental em quantidade e qualidade suficientes, a formação de um novo cidadão ambiental mais consciente, crítico e atuante fica mais difícil, e a própria divulgação das lutas ambientais, da legislação ambiental e da educação ambiental fica comprometida. Assim, fundei em janeiro de 1996, o veículo impresso hoje denominado Revista do Meio Ambiente, com a proposta de ser uma espécie de ponte de informação entre os diferentes segmentos da sociedade dedicados ao meio ambiente, unindo ambientalistas, empresários, governos, políticos, lideranças comunitárias, para que através do conhecimento do que cada segmento realizava o jornal atuasse como um incentivador e facilitador para o diálogo entre os multiplicadores e formadores de opinião ambientais.

    
EA EM AÇÃO:o que foi que te motivou ou te impulsionou para adentrar nestas questões tão importantes para a vida, e gostaria de saber,  também, se você teve um momento de "despertar"?

 

Vilmar: Sim, e foi com a leitura da carta que o cacique índio Seatle, da tribo Duwamish, do Estado de Washington, escreveu ao presidente Franklin Pierce, dos Estados Unidos, em 1855, depois do governo norte-americano ter dado a entender que desejava adquirir o território da tribo. Quase 150 anos atrás, quando nem mesmo haviam inventado o termo ecologia, um índio já ensinava os mais profundos conceitos ecológicos, válidos até hoje. Foi a leitura deste texto, na década de 80, que me fez decidir pela defesa do meio ambiente.

 
O Grande Chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar nossa terra. O Grande Chefe assegurou-nos também de sua amizade e sua benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não ne­cessita da nossa amizade. Porém, vamos pensar em tua oferta, pois sa­bemos que se não o fizermos o ho­mem branco virá com armas e tomará nossa terra. O Grande Chefe em Washington pode confiar no que o chefe Seatle diz, com a mesma certeza com que os nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano. Minha palavra é como as estre­las. Elas não impalidecem.

 

Como podes comprar ou vender o céu - o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do res­plendor da água. Como podes comprá-los de nós? Decidi­mos apenas sobre o nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada uma fo­lha reluzente, todas as praias arenosas, cada véu de neblina nas flo­restas escuras, cada clareira e to­dos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na cons­ciência do meu povo.

 

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de vi­ver. Para ele um torrão de terra é igual a outro. Porque ele é um es­tranho que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e de­pois de exauri-la, ele vai embora. Deixa para trás o túmulo do seu pai, sem remorsos de cons­ciência. Rouba a terra dos seus filhos. Nada respeita. Esquece as se­pulturas dos antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empo­brecerá a terra e vai deixar atrás de si os desertos. A vista de tuas cidades é um tormento para os olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.

 

Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem um lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada en­tende, o barulho das cidades é para mim uma afronta contra os ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio pre­fere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pi­nho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vi­vos respiram o mesmo ar - animais, árvores, homens. Não parece que o ho­mem branco se importe com o ar que respira. Como um mori­bundo, ele é insensível ao mau cheiro.

 

Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição. O ho­mem branco deve tratar os animais como se fossem irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser certo de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco, que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso do que um bisão que nós, índios, matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode afetar os homens. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto fere a terra fere também os filhos da terra.

 

Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nos­sos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, e envenenam o corpo com ali­mentos doces e be­bidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias - eles não são muitos. Mas algumas horas, até mesmo uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos nos bosques, sobrará para chorar sobre os túmulos. Um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de con­fiança como o nosso.

 

De uma coisa sabemos que o homem branco talvez venha um dia a descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julgas, talvez, que O podes possuir da mesma maneira como desejas possuir a nossa terra. Mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira. E quer o bem igualmente ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. E causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo seu Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças.

 

Continua poluindo a tua própria cama e hás de morrer uma noite, sufocado nos teus próprios dejetos! Depois de aba­tido o último bisão e domados todos os cavalos silvestres, quando as matas misteriosas fede­rem à gente - onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinhas da torre, à caça do fim da vida e o começo da luta para sobreviver...

 

Talvez compreenderíamos se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do fu­turo oferece às suas men­tes para que possam formar os desejos para o dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do ho­mem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos, temos de escolher o nosso próprio caminho. Se consen­tirmos, é para ga­rantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez pos­samos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vender­mos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças como era a terra quando dela tomaste posse. E com toda a tua força, o teu poder, e todo o teu coração con­serva-a para teus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.


EA EM AÇÃO: Como você percebe a Educação Ambiental (EA) de uma forma geral? Ou, como você definiria EA em poucas palavras?


Vilmar: a Educação Ambiental é en­sino para a cidadania ambiental crítica e transformadora. 

EA EM AÇÃO: Quais relações são possíveis de serem feitas entre a Educação Ambiental e Jornalismo? Qual é a importância da informação para a consolidação da Educação Ambiental?


Vilmar: Só democratizar a informação ambiental não é suficiente sem uma articulação com a educação ambiental, afinal, não é pelo maior ou menor volume de informações que a população aprende a pensar criticamente e atuar em seu mundo para transformá-lo, se não tiver uma cultura e uma formação que predisponha as pessoas a valorizar esta informação. Sem isso, as pessoas vão pouco a pouco tornando-se insensíveis diante da informação, como se fosse mais uma espécie de poluição onde as palavras perdem o significado e importância, e tanto faz saber que derrubaram uma árvore ou uma floresta. A educação, por sua vez, não se dá ao vácuo, mas inserida em seu tempo e no contexto. Deve, portanto, saber aproveitar dos meios de comunicação seu compromisso com o contemporâneo, trazendo a realidade vivida para o processo educativo, crítico e participativo, adequado à realidade dos alunos.  Por outro lado, não há educação ambiental sem participação política. Não basta estimular a participação dos cidadãos e não garantir os instrumentos de acesso à informação, primeiramente, pois sem ela dificilmente o cidadão consegue se mobilizar, e garantir canais de participação, com comitês e conselhos paritários, e, finalmente, instrumentos que permitam aos cidadãos participarem do estabelecimento das regras do jogo. A educação ambiental é fundamentalmente uma pedagogia de ação. Não basta se tornar mais consciente dos problemas ambientais, sem se tornar também mais ativo, crítico e participativo. O comportamento dos cidadãos em relação ao seu meio ambiente, é indissociável do exercício da cidadania. É preciso reconhecer que os meios de comunicação, por sua pró­pria natureza, estão muito mais em sintonia com o que a sociedade está que­rendo num determinado momento do que o sis­tema educacional. A dife­rença se dá no tempo. Os meios de comu­nicação procuram mos­trar o fato quando o mesmo ocorre, ao vivo, ou quase. É tão eficiente, quanto mais rápido conseguir infor­mar. Não há tempo para explicações didáticas e, com isso, pode ocorrer uma verdadeira confusão de conceitos envolvendo ter­mos como ecologia, meio ambiente, preservação ambiental, controle de poluição, combate ao desperdício de recursos naturais, pro­teção à fauna e flora etc. Ecologia é um tema do cotidiano das pessoas. Por isso, o ideal é que que a educação ambiental formal utilize jornais em sala de aula, ou mesmo vídeo com programas e shows com temas ambientais como motivadores para aulas bem interessantes e, sobretudo, próximas da realidade vivida. Desta forma, a educação ambiental formal incorpora a educação informal, garantindo maior agilidade ao processo educativo, le­vando o aluno a fixar o aprendizado ao mesmo tempo em que se torna capaz de pensar critica­mente sobre sua realidade e também de influir sobre ela.

 

EA EM AÇÃO: Em suas atividades relacionadas à Educação Ambiental especificamente, quais são as maiores dificuldades que você enfrenta nesta prática?

Vilmar: A distância entre a boa intenção ambiental e o gesto concreto. Cada vez mais pessoas tem a consciência que o meio ambiente é importante, que precisamos mudar nosso jeito de estar no Planeta, mas daí para a prática ainda há um enorme abismo que precisamos ultrapassar através de pontes como a educação e a comunicação ambiental pois não dá para esperar que a sociedade mude a tempo de preencher o abismo. Por trás de nossos problemas ambientais, não está apenas a ação de poluidores, o desmantelamento dos órgãos públicos de controle ambiental, ou a falta de consciência ambiental, mas também um tipo de atitude e valores, que julga natural explorar ao meio ambiente e aos nossos semelhantes para atingir um modelo de desenvolvimento que, por si só, gera agressões ambientais e problemas sociais. Logo, não basta exigir mudança de comportamento de empresas e governos. Precisamos ser capazes de enfrentar a nós próprios, pois não haverá planeta suficiente capaz de suprir as necessidades de quem acha que a felicidade e o sucesso estão na posse de cada vez mais bens materiais. Também não basta se tornar mais consciente dos problemas ambientais sem se tornar também mais ativo, crítico participativo. Em outras palavras, o comportamento dos cidadãos em relação ao seu meio ambiente, é indissociável do exercício da cidadania. Só que tem gente que acha mais fácil ficar reclamando que ninguém ajuda, mas não se pergunta se está fazendo a sua parte. Acha mais prático ficar esperando que o governo ou algum político salvador da pátria faça alguma coisa - afinal, costuma argumentar, já se paga tanto de impostos -, em vez de arregaçar as mangas por sua comunidade ou escola. Na base da falta de participação não está a ausência da consciência ambiental, mas de cidadania. Então, como convencer os outros a modificarem seus hábitos, se não modificamos os nossos primeiro? Como exigir que os poluidores deixem de envenenar o ar da comunidade, se os fumantes jogam sua fumaça no ar de quem está do lado, mesmo sabendo que incomoda e prejudica a saúde do vizinho? Se queremos uma natureza preservada, devemos começar mudando nossos hábitos, comportamentos e atitudes com o planeta, os animais, as plantas, o meio ambiente e, principalmente, com o nosso próximo, pois não há coerência em quem ama os animais e as plantas mas explora, humilha, discrimina, odeia seus semelhantes. Sem coerência, a comunicação é vazia, seja atuando em nível familiar, seja no bairro, seja através do próprio trabalho na escola, na Prefeitura, na comunidade, na empresa, sindicato etc.


EA EM AÇÃO: Deixe uma frase, uma palavra, uma poesia ou uma idéia que você pode compartilhar com os/as leitores/as da revista eletrônica Educação Ambiental em Ação:

 

Vilmar: O mundo melhor que sonhamos não depende nem começa no outro, mas em nós. Sugiro que façamos um esforço para romper com o imobilismo de apenas reclamar e não fazer nada, ou de viver encontrando desculpas para não fazer as coisas acontecerem, e passemos a encontrar um jeito de fazer.

 

 

Entrevista a Rafaela Lobato sobre "Jornalistas engajados no movimento ecológico"

 

Rafaela: É possível fazer jornalismo e ao mesmo tempo lutar por uma causa?

 

Vilmar: não só é possível como é fundamental quando esta causa é, por exemplo, a ambiental. Como jornalistas ambientais tomamos conhecimento todo dia sobre a situação para o bem e para o mal do ambiente em que vivemos e procuramos refletir isso em nossas matérias. Enquanto seres vivos extremamente dependentes deste meio ambiente agredido não podemos ficar insensíveis a estas agressões, daí o natural engajamento em causas e idéias que levem a um outro modelo de estar neste meio ambiente, mais responsável e consciente. O problema é não deixar que a defesa de uma causa atrapalhe o exercício profissional, por exemplo, deixando de ouvir a versão dos que estão na trincheira oposta à que defendemos.

 
Rafaela: É possível  lidar com esse segmento sem tornar-se um ativista?


VB: é, como é possível a um correspondente de guerra constatar atrocidades contra civis inocentes e fazer de conta que não é com ele, que não pode fazer nada para ajudar, que deve permanecer 'neutro' diante das agressões. Alguns poderão dizer que se trata de um bom profissional, mas não será um ser humano tão assim. Tudo se resume a escolhas e valores.

 
Rafaela: É possível fazer jornalismo de qualidade sem estar ligado ao movimento?

VB: claro, estar engajado na causa ambiental não significa necessariamente fazer parte do movimento enquanto instância organizada da sociedade. Pode ser uma ação individual somente. Não acredito em jornalismo isento, por que não existe ser humano isento. Mesmo quando você escolhe não escolher, faz uma escolha, e às vezes esta pode ser a pior delas.

 
Rafaela: O engajamento colabora ou dificulta o trabalho jornalístico?

VB: é relativo. Por exemplo, um jornalista que trabalhe para uma ONG, como o Greenpeace, pode ter o seu trabalho facilitado se for também engajado nas causas que a ONG defende, ou dificultado, se defender uma causa contrária à da ONG. Este mesmo profissional, trabalhando no setor de comunicação de uma empresa ligada aos setores questionados pelos ambientalistas, como o nuclear e os transgênicos, viveria a mesma situação, dificuldades se fosse engajado em causas ambientalistas e facilidades se acreditasse nas causas do nuclear e dos transgênicos. O importante ao assumir que não existe neutralidade em jornalismo é o profissional passar a desconfiar de si próprio. Assim, se estiver dirigindo-se ao público geral deve ter a clareza que esse público pode não estar esperando dele o que ele pensa ou deixa de pensar sobre um determinado assunto, mas o que está acontecendo de verdade com as questões ambientais, quais são as diferentes idéias e forças envolvidas, para que o leitor possa formar o seu conceito de valor e atuar nessa realidade. O engajamento do profissional com um lado ou outro da causa não deve prejudicar o seu entendimento da realidade. 
 
Rafaela: O que falta para que o jornalismo ambiental seja de qualidade?

VB: mais investimento na capacitação e treinamento dos profissionais que atuam na área e instrumentos inovadores que assegurem o financiamento da informação ambiental de tal forma a que não fiquem subordinadas às forças de um mercado que não tem o menor interesse na existência de uma mídia crítica e independente, daí não incluem estas mídias em seus planos de mídia.

 
Rafaela: Quais os desafios para os futuros jornalistas no jornalismo ambiental?

VB: São muitos, certamente a democratização da informação ambiental é um deles. As pessoas se mobilizam para exercer a sua cidadania, ou procuram estudar e se qualificar melhor, ou procuram mudar de comportamento a partir da informação. Se esta chega deturpada, em número insuficiente, ou desqualificada, a percepção do público também estará prejudicada. E, sem informação, como pode haver diálogo entre diferentes, como se estabelecerão parcerias em direção a um novo modelo de desenvolvimento mais sustentável, como será possível implementar uma Agenda 21? Outro aspecto que desafia os jornalistas ambientais é: como informar adequadamente sobre o meio ambiente, se as aspirações em nossa sociedade são baseadas mais em valores de consumo materiais que em valores espirituais, culturais ou artísticos, por exemplo? Frei Beto, em seu artigo Viagens Interiores (O Globo, 13/07/98) nos chama a atenção para o que andamos vendo nas propagandas, novelas, filmes, etc. Bastam alguns minutos à frente da televisão para percebermos que defeitos como inveja, orgulho, cobiça, avareza, luxúria, gula, preguiça - bases do consumismo desenfreado que gera esgotamento dos recursos naturais e poluição do planeta, por um lado, e injustiça social e concentração de renda, por outro - foram transformados em valores a serem perseguidos, como se o planeta tivesse recursos naturais em abundância para atender ao sonho de consumo de todos. O preço que pagamos pode ser visto por todo o lado. Não só no esgotamento e na poluição do planeta, mas também na miséria. A primeira grande barreira a ser vencida é o verdadeiro bloqueio econômico de agências de publicidade, Secretarias de comunicação de governos e departamento de comunicação de grandes empresas, que simplesmente fingem desconhecer o segmento das mídias ambientais, apesar de sua importância como agentes de disseminação de informação ambiental. Apesar do reconhecimento público da importância das mídias ambientais, não é só a ampliação da tiragem, do número de páginas e da periodicidade que está ameaçada, mas a própria continuidade dos atuais veículos. O que parece uma simples questão econômica, na verdade tem sido uma forma de impedir o crescimento e até a manutenção de veículos de meio ambiente, que são estratégicos para a democratização da informação ambiental no Brasil. Sem veículos fortes economicamente, também não há muita esperança de emprego para jornalistas ambientais, e tanto os proprietários dos veículos ambientais, quanto os jornalistas especializados em meio ambiente, acabam dedicando-se à democratização da informação ambiental em nosso País muito mais por amor, por ideologia, que por interesse comercial. Claro que isso precisa mudar. E os instrumentos estão aí. Os países membros da ONU aprovaram durante a RIO 92 a Agenda 21, como um roteiro a ser seguido em direção ao desenvolvimento sustentável. Em seu capítulo 40, sobre Informação Para a Tomada de Decisões, os signatários recomendam que "sempre que existam impedimentos econômicos ou de outro tipo que dificultem a oferta de informação e o acesso a ela, particularmente nos países em desenvolvimento, deve-se considerar a criação de esquemas inovadores para subsidiar o acesso a essa informação ou para eliminar os impedimentos não econômicos." Os representantes dos países signatários justificam essa medida ao reconhecer que "em muitos países, a informação não é gerenciada adequadamente devido à falta de recursos financeiros e pessoal treinado, desconhecimento de seu valor e de sua disponibilidade e a outros problemas imediatos ou prementes, especialmente nos países em desenvolvimento. Mesmo em lugares em que a informação está disponível, ela pode não ser de fácil acesso devido à falta de tecnologia para um acesso eficaz ou aos custos associados, sobretudo no caso da informação que se encontra fora do país e que está disponível comercialmente."

 

 

Entrevista a Filipe Marcel

 

Felipe: Os projetos como a Revista do Meio Ambiente podem ser confundidos com os trabalhos divulgados por ONG´s que ministram a luta pela manutenção do meio ambiente como o Greenpeace?

 

Vilmar: Confundido, pode, por que a visão e a consciência ambiental em nossa sociedade ainda são bastante insipientes. Entretanto, a chamada mídia institucional, esta a que você se refere, editada pelas ONGs, Governos, Empresas, etc., não podem se confundir com a mídia especializada em meio ambiente. A mídia institucional pauta os temas de acordo com o pensamento, as ações, os projetos, os interesses da organização que edita, focando no público-leitor associado. A mídia ambiental, como o JMA, não tem esse enfoque institucional e abre espaço para todos os seguimentos e interesses da sociedade. Na verdade, tratam-se de mídias complementares, mas cada qual com sua identidade própria.

 

Felipe: Quantos jornais isentos e imparciais buscam hoje informar o leitor sobre os abusos do ser humano diante da questão ambiental?

 

Vilmar: Não conheço nem jornais nem jornalistas "isentos e imparciais". O ser humano é por natureza parcial e movido a paixões e ideologias. Por isso a nossa preocupação em construir um veículo democrático, que abra espaço igualmente para todas as 'verdades' e versões da verdade' ambiental, ainda que isso desagrade alguns leitores que gostariam de ver apenas as 'verdades' de que gosta publicadas no jornal.

 

Felipe: Como separar uma mera informação jornalística do engajamento que muitas vezes direciona aqueles que informam ou apresentam uma denúncia?

 

Vilmar: Não tem como. O profissional da comunicação é quem deve se preocupar em assegurar espaço equivalente tanto para os que denunciam quanto para os que são denunciados, tanto para os que falam e escrevem apaixonadamente contra ou a favor de algum aspecto ambiental. Cabe ao leitor, e não ao editor ou ao jornalista, escolher que informação o leitor lerá. E é isso o que diferencia bem um veículo aberto de um veículo institucional, onde geralmente o que conta é a opinião, a ideologia, o pensamento, o engajamento da institução que financia o veículo.

 

Felipe: Qual a quantidade de processos impetrados por empresas que sentiram-se lesadas pela veiculação de notícias que desagradaram os acionistas?

 

Vilmar: Não faço a menor idéia. Mas, vivi a seguinte experiência:

 

Justiça brasileira condena injustamente jornal ambiental

O Jornal A Notícia (20/04/2001), de Schroeder - SC, publicou matéria assinada por Peterson Izidoro informando que o Ibama havia multado e interditado a produção da Natureza Central de Tratamento e Resíduos Ltda, comprovando a denúncia feita dois anos antes (junho 1999) pelo Jornal do Meio Ambiente, através do artigo assinado do colaborador Gert Fischer, Prêmio Global 500 da ONU, denunciando a empresa por enterrar resíduos sem tratamento no seu pátio, numa área de preservação de mata nativa em Schroeder, Norte do Estado de Santa Catarina, enquanto prometia inertizar esses resíduos na forma de lajotas e tijolos de cerâmica. A poucos metros do muro que isola a empresa, há um afluente do rio Itapocuzinho, que abastece parte da população de Guaramirim, e deságua no rio Itapocu, o maior da região.

 

Na época, o veículo foi processado pelo empresário sob o argumento de danos à imagem da empresa, e nem mesmo o fato de não ter citado o nome da empresa e do artigo ser assinado foi suficiente para livrar o veículo da condenação injusta. O Jornal está impedido de movimentar a pessoa Jurídica, Berna Educação Ambiental Ltda., enquanto não pagar a dívida de R$ 18.000,00 à empresa poluidora e veicular por três vezes o desmentido da notícia. O Veículo não pagou até hoje, pois não tem como pagar, e está tentando negociar com o empresário o perdão da dívida, e também não tem como publicar o desmentido conforme ordenado pela Justiça, já que a denúncia foi comprovada como verdadeira.

 

Felipe: O governo, seja estadual, municipal ou federal, são presentes na questão ambiental?

 

Vilmar: Cada vez mais presentes. Nas últimas duas décadas, não só aumento e muito a participação dos governos, mas também de empresas e políticos, uma conseqüência direta do aumento da consciência ambiental da sociedade.

 

Felipe: Qual o maior problema enfrentado hoje por estes profissionais do jornalismo?

 

Vilmar: são vários: falta de veículos com sustentabilidade econômica, falta de cursos de capacitação em comunicação ambiental, etc.

 

Felipe: Por quê matérias como Lei da Biossegurança, Transgênicos, devastação da Amazônia, poluição do ar, contaminação da água ainda são tratados por aqueles que tem verdadeiro amor - logo um certo comprometimento em noticiar tais assuntos – e rechaçado pelas grandes empresas e leitores que desconhecem os possíveis impactos.

 

Vilmar: Porque existem dois modelos de desenvolvimento, um tradicional, que nos trouxe até aqui, onde o meio ambiente é apenas um obstáculo no caminho do 'progresso humano' e outro, novo, novíssimo, chamado de sustentável. Os jornalistas ambientais mostram as mazelas do primeiro modelo e apontam para o segundo. Aqueles que se acostumaram a ganhar com o primeiro modelo não estão interessados em mudanças, muito menos em financiar veículos que ponham em risco suas formas tradicionais de exploração, ainda assim, precisamos continuar lutando.

 

Felipe: Teria alguma informação adicional para passar para os leitores do Novo Momento, futuros profissionais da comunicação que certamente enfrentarão o dilema de denunciar o abuso de uma grande indústria ou ficar com o silêncio na espera do poder público.

 

Vilmar: Assinem a Revista do Meio Ambiente e ajudem a sustentar a mídia ambiental independente.

 

Entrevista a Mariana Alves Campos

 

 

Dos anos 80 para cá, o que mudou no jornalismo brasileiro em relação à forma de lidar com as questões ambientais? Com a ECO-92, houve um boom de pautas ecológicas nos meios de comunicação.  Após esse evento, podemos dizer que o modo de fazer jornalismo ambiental melhorou?

 

Vilmar: A democratização da informação ambiental é fundamental para o exercício pleno da cidadania crítica e participava, pois quando as pessoas, o povo, ou as organizações não dispõem de informação de qualidade, fica comprometida a capacidade de fazer escolhas entre as diferentes alternativas e caminhos. Nossa sociedade, por exemplo, passou muito tempo recebendo informações apenas sobre um determinado tipo de modelo de desenvolvimento, predatório, poluidor e injusto. É compreensível que ainda seja dominante a idéia de que os seres humanos têm o direito de usar o Planeta como um armazém inesgotável de recursos e uma lixeira infinita. Entretanto, para quem vem acompanhando a evolução dessa consciência especialmente nas últimas duas décadas, existem motivos de sobra para termos esperanças. Ainda há tempo para salvar o Planeta, e a nós próprios. Nosso estilo de vida ainda irá provocar muitos danos e poluição ambiental, sem dúvida nenhuma, mas é inegável que aumenta ano a ano a consciência ambiental em todos os países, especialmente no Brasil, país de maior mega-diversidade do Planeta.

É uma grande ironia constatar que muito da evolução da consciência ambiental da sociedade se deve à tomada de conhecimento de grandes problemas e acidentes ambientais. Então, não é errado dizer que a imprensa tem sido determinante na formação de uma opinião pública sensível à questão ambiental. Este é um caminho sem retorno que só tenderá a crescer diante de leis que se tornam cada vez mais rigorosas, diante da demanda crescente por capacitação e formação ambiental que tem resultado no aparecimento de cursos de especialização, graduação e pós-graduação em meio ambiente  em todo o país, o aumento de títulos sobre temas ambientais nas livrarias e bancas de jornais e revistas, o aumento de programas de televisão e rádio com o tema ambiental, o investimento das empresas e centros de pesquisa no desenvolvimento de novas tecnologias e produtos mais limpos, a quantidade de prêmios ambientais e de encontros, seminários, eventos nacionais e internacionais ligados à questão ambiental.

Hoje, ainda são muitas as dúvidas e incertezas sobre os novos caminhos e alternativas na direção de um modelo de desenvolvimento ambientalmente sustentável e socialmente mais justo, principalmente devido à falta de informação ambiental em quantidade e qualidade e à falta de alternativas tecnológicas viáveis economicamente. Trata-se apenas de uma questão de tempo para que estas lacunas sejam preenchidas, pois cresce a cada dia a quantidade de pessoas que buscam informações ambientais e se há mercado, a tendência é haver mais veículos de comunicação seja especializados em meio ambiente, seja com a inclusão dos temas ambientais nas pautas dos veículos tradicionais. Igualmente, é crescente o surgimento de novas tecnologias
ambientais como assistimos ano a ano em feiras e eventos de meio ambiente industrial, entre outros.

Entretanto, há limites para a democratização da informação ambiental. Enquanto para a maioria das pessoas notícias sobre impactos e danos ambientais, principalmente diante de grandes acidentes, podem sensibilizar e contribuir para o despertar da consciência ambiental, para outras pode significar a necessidade de aumentar o controle e a posse aos recursos naturais ameaçados a fim de tomar para si tudo o que puder antes que o recurso acabe ou se comprometa de vez.

Assim, não basta apenas democratizar a informação ambiental, é preciso que ela esteja de mãos dadas com a educação ambiental comprometida em formar cidadãos mais críticos e participativos, e também menos egoístas e mais solidários. No fundo, uma questão de espiritualidade e cultura, onde ao nos tornarmos ambientalmente mais responsáveis nos tornamos também pessoas melhores, mais solidárias e éticas e menos egoístas, não só com os nossos semelhantes, mas com todos os seres vivos tripulantes deste planeta como
nós.

As matérias sobre meio ambiente publicadas na grande mídia raramente são positivas, pois há a idéia de que o "caótico" vende mais. Como reverter essa situação?

Vilmar: A Grande Mídia segue as regras do mercado, informando ao público o que ele quer saber. Assim, os veículos procuram incluir em suas pautas um pouquinho de tudo: política, economia, moda, esportes, comportamento, etc. O público quer saber sobre um determinado acidente ou problema ambiental, então a grande mídia abre manchetes e primeira página. E à medida que o problema vai perdendo a visibilidade, também vai desaparecendo do noticiário. O sucesso de um veículo na Grande Mídia está muito relacionado à
capacidade do seu editor em sintonizar-se com o que seu público-leitor quer saber. É preciso compreender o que motiva a nossa curiosidade, e que nos impulsiona a querer saber mais, querer comprar uma notícia. O cachorro morder a moça não é notícia, mas a moça morder o cachorro é. Uma empresa cuidar adequadamente do meio ambiente não é notícia, mas o acidente ambiental que ela provoca é. Uma rodovia cheia de carros indo e vindo não é notícia, mas um acidente é. Vizinhos convivendo em paz a vida toda não é notícia, mas uma briga entre vizinhos é. E assim por diante. Não se deve responsabilizar a mídia por isso.

Antes eu percebia mais claramente que a Grande Mídia só se ocupava dos temas ambientais quando eram desastres. Hoje, percebo que isso está sendo superado lentamente. Já vejo com alguma freqüência a chamada Grande Mídia realizando boas coberturas ambientais, às vezes até com mais vantagens em termos de
qualidade sobre a mídia especializada, por dispor de maiores recursos e meios. O volume de informações e a complexidade da questão ambiental justifica a existência de setores e espaços para a informação ambiental na
chamada Grande Mídia, e também na mídia especializada. Enquanto a Grande Mídia disputa espaço com os variados temas do cotidiano, como política, moda, esportes, violência, etc., a mídia especializada em meio ambiente enfrenta o desafio de abrigar em sua pauta a complexidade do tema ambiental, que vai desde as questões da ecologia natural até a ecologia humana, envolvendo aspectos econômicos, ambientais, sociais, culturais, etc. A Grande Mídia e a mídia ambiental especializadas são complementares entre si.


Quais são os princípios adotados pela Revista do Meio Ambiente para um jornalismo ambiental com ética e qualidade?


Vilmar: A comunicação ambiental, como qualquer atividade humana, não é neutra. Trata-se de uma técnica, um instrumento, que tanto pode estar a serviço de grupos e pessoas empenhadas sinceramente na defesa do meio ambiente, quanto movidas por interesses individuais ou corporativos que contratam profissionais para tentar passar uma imagem de ambientalmente responsáveis, sem ser, para se apossarem de recursos naturais ameaçados antes que se tornem indisponíveis ou caros demais tirar de onde está. Diante da impossibilidade de neutralidade, o profissional de comunicação ambiental precisa balizar sua conduta por um código de ética ambiental. Na Revista do Meio Ambiente adotamos princípios éticos.

 

Você é favorável à criação de uma editoria específica de meio ambiente nos grandes veículos de comunicação?


Vilmar: O Jornalismo em geral não dá conta de tantos temas tão específicos, notadamente o ambiental, com toda a sua complexidade. É uma utopia imaginar que o Jornalismo não vá precisar de especializações ou que todo profissional de comunicação irá receber uma capacitação que dará conta de todo o conhecimento específico que precisará para o adequado exercício de suas atividades. Por isso sou favorável às editorias de meio ambiente nas mídias não-ambientais. Entretanto, é preciso tomar o cuidado de não gerar distorções, para que o jornalismo especializado não vire um compartimento estanque e impermeável nas redações. Para o profissional que se especializa e investe tempo, conhecimento e dinheiro em sua área de conhecimento
específico, ser respeitado é bom e todo mundo gosta, além de assegurar seu nicho de empregabilidade, mas corre o risco do tema deixar de ser pauta nas demais editoriais, e isso não será bom já que o meio ambiente é umn tema transverso.

 

Falar em jornalismo ambiental e elaboração de pautas ecológicas é abordar, ao mesmo tempo, a questão do consumo consciente. Como, então, vencer a batalha contra a indústria publicitária, financiadora da grande
mídia?


Vilmar: Ninguém precisa ser 100% ecologicamente correto - até por que isso não existe - para só aí ter o direito de anunciar numa mídia ambiental. Assegurar espaço na mídia ambiental para a publicidade de poluidores que querem divulgar aspectos ambientais positivos de seus avanços ambientais é também uma forma de estimular estes avanços e fazer uma educação ambiental entre os poluidores que podem se sentir desafiados a também investirem em meio ambiente, como seus concorrentes. O problema é quando um veículo ou um profissional de comunicação aceita qualquer tipo de constrangimento, direcionamento ou mesmo assume posturas de auto-censura em relação a um patrocinador. Impedir isso é muito simples, é só assegurar espaço a todos os lados diferentes envolvidos numa questão ambiental, ainda que afete seu anunciante poluidor. Se alguém tem de ser anti-democrático, que seja o anunciante que retira sua publicidade por que não está gostando da liberdade de opinião do veículo que financia. Deveria refletir antes sobre a oportunidade interessante que é anunciar num veículo que tem a liberdade para criticar, pois isso atrai leitores interessados realmente na questão ambiental, exatamente aquele tipo de leitor crítico em relação ao patrocinador, e que terá a chance de talvez mudar de opinião ao receber também as informações que ele desconhecia. Quanto à Revista do Meio Ambiente trata-se de um veículo de comunicação especializado em meio ambiente e comprometido com a verdade e a democratização da informação onde asseguramos espaço, com o máximo de isenção possível, a ambientalistas, empresas, governos e a todos que produzam ou necessitem democratizar informação ambiental. Assim, consideramos bem vindos apoios, parcerias, patrocínios, colaborações de Empresas, ONGs, Governos, poluidores ou não, desde que estas não pretendam interferir ou influenciar direta ou indiretamente na linha editorial ou na pauta. Cabe ao leitor o direito de escolher o que quer ler e
julgar a informação, dispondo também do Espaço do Leitor para expor sua opinião, crítica, concordância, discordância. No item 4 de seu código de ética, como regra geral, a Revista do Meio Ambiente assume que deve dar espaço para todos os lados envolvidos em todas as controvérsias ambientais que estiver cobrindo.

O acesso à informação ambiental de qualidade é indispensável ao exercício da cidadania na defesa dos seus direitos e no exercício de seus deveres, por um meio ambiente melhor e preservado. A Lei nº 9.795 de 27 de abril de 1999, que institui a Política Nacional de Educação Ambiental, define em seu art. 5º, inciso II, como um dos objetivos fundamentais da educação ambiental a garantia da democratização das informações ambientais. E isso é perfeitamente compreensível pois os jovens de hoje, por exemplo, serão adultos num mundo que exigirá deles uma capacidade não só de dizer não às agressões ambientais, mas de dizer sim a um modelo de desenvolvimento que garanta a qualidade de vida humana sem destruir o planeta. Neste sentido, a
escola assume um papel fundamental de estimular a cidadania ambiental do aluno, e uma das maneiras mais eficientes de se fazer isso é trazendo o contemporâneo para a sala de aula, aproximando o cotidiano vivido pelos alunos. Por isso, vejo o encontro do jornalismo ambiental com a educação ambiental como fundamental e desejável. O ideal é que a educação ambiental formal utilize jornais em sala de aula, ou mesmo vídeo com programas e shows com temas ambientais como motivadores para aulas interessantes e, sobretudo,
próximas da realidade vivida. Desta forma, a educação ambiental pode ajudar o aluno a pensar critica­mente sobre sua realidade e também influir sobre ela.

Jornalismo ambiental "stricto sensu", no Brasil, existe predominantemente na Internet. Você acha que essa área do jornalismo ficará restrita a esse tipo de mídia, por ser mais democrática?

 

Vilmar: A internet é uma ferramenta nova e superpoderosa para a democratização da informação de uma maneira geral, inclusive a ambiental. Ainda assusta, é mal empregada, é utilizada abaixo de sua potencialidade, as agências de publicidade e os grandes anunciantes ainda não perceberam o potencial comercial que representa, mas é inegável que veio para ficar e ocupar cada vez mais espaços e importância em nossas vidas. E, é sempre bom lembrar, informação é poder. Sem acesso à informação, as lutas dos cidadãos por seus
direitos e mesmo o exercício de seus deveres, ficam bem mais difíceis.No caso ambiental não é nem pelo fato de ser um veículo democrático, mas por que a internet deu ao conceito de aldeia global a sua real dimensão. No campo ambiental, cujas lutas são locais e globais, já que a poluição não respeita fronteiras, além de uma ferramenta poderosa de informação é uma ferramenta que proporciona a interatividade, a articulação e o exercício de cidadania, ampliando a capacidade de luta e dando voz aos cidadãos de todo o planeta na defesa de seus direitos a um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Num país de dimensões continentais, como o Brasil, e com problemas ambientais que ultrapassam muitas fronteiras, a Internet veio ocupar uma lacuna onde antes não existia nada, talvez só o telefone, ou o telex, com todas as suas limitações. É importante que as novas gerações, que já nascem na 'era Bil Gates' tenham acesso a esta tecnologia pois, assim como a leitura foi importante na 'era Guttemberg', o mesmo se dará agora com a internet, sem excluir, claro, a cultura do papel, mas convivendo em sinergia. E o ideal é que esse processo de inclusão digital se dê pelo método semelhante ao do Paulo Freire, que alfabetiza ao mesmo tempo em que conscientiza e estimula a formação da cidadania. Vejo a evolução da internet, grosso modo, em três ondas. A primeira, a do domínio dos equipamentos; a segunda, dos programas; e a terceira, a que estamos vivendo mais intensamente hoje, a dos conteúdos e interatividade. Cresce a cada dia a quantidade de sites com conteúdo informativo, especialmente no campo ambiental, o que contribui para popularizar a internet e torná-la cada vez mais atrativa, pois raramente alguém não encontra o que procura e, quase sempre, consegue se surpreender positivamente com o que encontra, abrindo a sua frente um leque de possibilidades. Por mais que a internet ainda seja um luxo para uma pequena parcela da população brasileira, em torno de 10%, ou 17 milhões de brasileiros, a tendência desses números é crescente. Ainda serão muitos os excluídos digitalmente e talvez mais da metade da população brasileira jamais venha a sequer chegar perto de um computador, mas o segmento da população brasileira incluída digitalmente ainda crescerá muito, e mesmo os números de incluídos digitalmente hoje, já são maiores que o número de habitantes de países europeus, revelando  o Brasil como um mercado consumidor que só demandará mais investimentos por parte dos fabricantes de equipamentos, desenvolvedores de programas e de conteúdos para a Internet, o que significará mais empregos em todas as frentes, inclusive na área de comunicação, em nosso caso, especializada em meio ambiente. Creio que a tendência é a internet crescer em importância em relação às demais ferramentas de comunicação devido à interatividade que proporciona, até por que entre os internautas de hoje, não sei precisar em que percentuais, estão também os leitores de jornais e revistas, telespectadores da televisão e ouvinte dos rádios. Não sei como a internet irá influir em seus hábitos. Tenho percebido uma sinergia cada vez maior entre os veículos tradicionais, que citam e remetem seus leitores, telespectadores e ouvintes para sites e fontes na internet, como forma de complementar o espaço curto e a ausência de canais de interatividade que o público. A Revista do Meio Ambiente impressa segue esta tendência. Não sei se isso estimulará uma migração para a internet, ou se acabará por fortalecer todas as ferramentas à medida que traz mais gente para 'consumir' informações.

Se ao telespectador da televisão, ao ouvinte do rádio, aos leitores de jornais e revistas só resta desligar ou usar o controle remoto para mudar de canal, ou não comprar um veículo com o qual não estiver afinado, com a internet ele é o próprio editor das informações, que estão ao alcance através de serviços de busca cada vez mais eficientes, como o Google, etc. Se antes, não tinha como dialogar com outros leitores, a não ser através das 'cartas dos leitores' ou de complicadas e caras ligações telefônicas, agora pode tranqüilamente participar de fóruns de debates sobre temas do seu interesse, com pessoas que também estão afinadas no mesmo interesse, criar seus próprios fóruns onde só entram convidados que aceitem as regras pré-estabelecidas.

Como financiar as mídias ambientais independentes?


Vilmar: A mídia ambiental sofre de fato um certo bloqueio comercial. Não há, entretanto, um objetivo político como, por exemplo, estrangular as mídias ambientais para que não façam a crítica do modelo predatório e poluidor. Creio que o que existe é desconhecimento mesmo, falta de cultura ambiental, de formação e até mesmo, em alguns casos, incompetência. Tem agências que preferem investir suas verbas de publicidade em veículos da grande mídia em vez de também incluírem as mídias especializadas em seus planos de divulgação. Compram quantidade de público e não qualidade de público. Pouco importa se uma mensagem ambiental será lançada para um público numeroso que não está nem aí para as questões ambientais e que até às vezes acham o assunto chato. As empresas acabam gastando às vezes verdadeiras fortunas para adotar procedimentos ambientais adequados e controlar ou eliminar sua poluição, mas divulgam isso, quando divulgam, para um público assim, que não se importa com a informação ambiental. Mas também tem empresas e governos que agem como se o simples fato de terem mudado de atitude e de agora estarem cuidando direito do meio ambiente fosse suficiente para virar pauta de qualquer veículo ambiental. Limitam-se a contratar serviços de assessoria de comunicação ou mesmo usam suas próprias assessorias para enviarem releases, na esperança de divulgação, como se coubesse aos veículos financiarem a divulgação dos resultados. A mídia ambiental brasileira cumpre um papel de interesse público em nosso país e, apesar disso, não existe ainda qualquer programa público para o financiamento da informação ambiental, apesar do Governo Brasileiro ter aprovado entre os objetivos fundamentais da educação ambiental a garantia da democratização das informações ambientais (Lei nº 9.795 de 27 de abril de 1999, art. 5º, inciso II).

 

Jornalismo em defesa do verde, por Marco Antonio Nascimento Rosa, publicada na revista Jornalismo em Ação, veículo de extensão universitária da UMESP Universidade Metodista de São Paulo

 

Tsunami, Protocolo de Quioto, superaquecimento do planeta, racionamento de energia e de água, rodízio de veículos. Poucas vezes na história do Brasil vimos tanto a presença do meio ambiente em nossas mídias. Atualmente, sérios problemas ambientais ameaçam a sobrevivência no planeta. E isso tem gerado um mercado promissor para jornalistas, pois a cada dia o meio ambiente torna-se objeto de interesse de cada leitor, ouvinte, telespectador ou internauta. Entender o que ocorre na natureza e saber os meios de contribuir para uma melhor qualidade de vida num futuro próximo tornou-se o mais novo desafio de um público interessado em saber o que acontece no mundo.

 

Quem não ficou surpreso ao ver imagens do Tsunami ‘engolindo’ cidades inteiras da Ásia em dezembro de 2004 e não se interessou em saber como aquilo poderia ocorrer? E qual é o leitor que não se assusta ao ver as previsões de especialistas sobre um futuro com as cidades litorâneas alagadas, sem água potável e com um calor desumano?

 

O interesse do público pelo meio ambiente cresce a cada dia. Fato semelhante só ocorreu em 1992, quando o Rio de Janeiro foi sede da Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92. Vivendo o auge da 'febre ecológica', redações de todos os grandes jornais do Brasil mantinham repórteres de plantão em frente ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) para saciar a ânsia por notícias ambientais.

 

Porém, aquilo que tinha grande espaço na mídia, passou a ter suas editorias cada vez mais enfraquecidas, transformando-se posteriormente em sub-editorias, dividindo o espaço com temas como tecnologia, ciência e cidadania, até desaparecer de vez dos grandes noticiários. Para não dizer que o tema sumiu totalmente de pauta, vez ou outra, víamos noticiado um acidente em grandes proporções, como o derramamento de petróleo ou as freqüentes queimadas, os chamados ‘desastres ambientais’. “Na chamada 'grande mídia' a questão ambiental permanece com destaque na pauta geralmente enquanto o problema ambiental for visível”, afirma o jornalista Vilmar Berna, editor e fundador da Revista do Meio Ambiente. Ou seja, nada que pretenda mudar a atual atitude de desinformação ambiental e que invista numa nova educação ambiental, mostrando novas descobertas e denunciando transgressores do meio ambiente.

 

Tendência ao desastre

 

Essa volta do meio ambiente aos noticiários dos grandes veículos não pode ser vista somente com otimismo. Na dura realidade do jornalismo, o desastre sempre é mais noticiado que qualquer outro fato. Uma simples busca pela palavra ‘tsunami’ do material que foi publicado no site Folha Online indica 285 resultados. Enorme diferença quando falamos de ‘Quioto’, cidade japonesa sede da convenção mundial sobre mudança climática, que registra 36 páginas referentes ao assunto.

 

Afra Balazina, repórter da Folha de São Paulo que cobre o meio ambiente, confirma essa tendência dos grandes veículos darem mais ênfase aos desastres ao invés de alternativas ou descobertas do setor. “Fatos ruins são sempre mais noticiáveis que boas novidades do setor. Uma área contaminada, uma ocupação em área de proteção ambiental e o problema da possibilidade de faltar água são sempre notícia”, afirma.

 

O outro lado da notícia

 

Apesar dessa tendência aos grandes acidentes ambientais, nem todos seguem a linha de notícia-espetáculo. Embora sem grande abrangência, o meio ambiente vem sendo noticiado há algum tempo. A partir da década de 90, a mídia especializada começa a tomar forma e passa a assumir a responsabilidade de noticiar o que ocorre longe de nossos olhos, mas exerce enorme influência sobre nossas vidas.

 

O jornalista Silvestre Gorgulho, fundador e diretor geral da Folha do Meio Ambiente, acredita que o jornalismo ambiental vive diferentes perspectivas nos veículos de comunicação. “O importante seria incluir a questão ambiental nos programas jornalísticos de grande alcance de público, mas a ‘grande mídia’ divulga o assunto apenas quando tem imagens fortes, incêndios, queimadas, derramamentos de óleo, poluição agressiva etc. Nos programas especiais, o meio ambiente é tratado pela curiosidade e pela beleza dos lugares, dos animais e da selva. Hoje, apenas a mídia ambiental trata a questão como um processo educativo, de mudanças nos padrões de consumo e de produção”, explica.

 

Para Berna, que fundou a Revista do Meio Ambiente em 1996, os veículos especializados possuem um papel diferente na sociedade, devendo complementar aquilo que não dá para ser tratado nos veículos de massa. “A grande mídia e a mídia especializada não são concorrentes, mas complementares entre si. Muitas críticas são feitas aos grandes veículos no tratamento que dão à questão ambiental, mas na verdade esse é um papel que não é seu, já que precisam manter um olhar amplo sobre os diversos assuntos que mobilizam a sociedade e seus leitores e isso inclui muito mais temas que só o ambiental. É aí que entra a mídia especializada, pois ela também aborda diversos assuntos, mas todos interligados direta ou indiretamente à questão ambiental”, explica o jornalista, que também é autor de cerca de 20 leis ambientais e escreveu 14 livros referentes ao tema.

 

Outro profissional que adquiriu respeito no meio especializado ao longo de anos de trabalho na área ambiental é o jornalista Adalberto Wodianer Marcondes, fundador, diretor e editor da agência e revista eletrônica Envolverde. Desde 1995 no mercado, a Envolverde conquistou uma posição de destaque no cenário editorial especializado e tornou-se referência no meio do jornalismo ambiental, fornecendo conteúdo para grandes veículos de comunicação do país.

 

Além do projeto Envolverde, Marcondes se destaca por outros trabalhos desenvolvidos na área ambiental. Atualmente ele é editor do suplemento Terramérica, projeto realizado com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e para o Desenvolvimento e que circula em jornais regionais do México à Argentina. Atua também como único correspondente internacional em São Paulo da Inter Press Service, agência que trabalha com o meio ambiente, desenvolvimento humano, cidadania, educação e saúde. Além disso, é um dos fundadores da Associação Brasileira de Mídias Ambientais, rede de sites e publicações que atua na área de meio ambiente.

 

Apesar da diminuição das editorias de meio ambiente, Marcondes vê uma alternativa para a solução desse problema. Segundo ele, todas as decisões que tomamos refletem no meio ambiente e aí está a importância do jornalista. “Nada existe independente do meio ambiente. Quando compramos algo que vem numa garrafa pet, numa lata de alumínio, numa garrafa de vidro, numa sacola de plástico ou numa embalagem de papel reciclado, tomamos decisões que impactam no meio ambiente. No jornalismo é a mesma coisa. Assim, comecei a colocar o viés ambiental nas minhas matérias. Em todas as editorias conseguimos abordar o meio ambiente. É um assunto que podemos tratar de forma transversal”, explica.

 

E é desse modo que vemos a volta do interesse do público pelo jornalismo ambiental. Fatos como o ‘apagão’ e a falta de água nas nascentes, a cobrança da taxa do lixo tratando a questão do destino dos resíduos para os já saturados aterros sanitários, o aquecimento global que gera o efeito estufa e o derretimento das calotas polares trouxeram um novo impulso ao jornalismo ambiental que passou a receber um tratamento diferenciado em outras editorias, mas sempre vistos sob o olhar crítico do meio ambiente.

 

Falta de Publicidade

 

O grande problema é que as mídias ambientais não conseguem exercer adequadamente o seu papel. Não que isso ocorra por culpa das baixas tiragens (somadas atingem cerca de 1,5 milhão de exemplares mensais) ou da incompetência de seus editores, mas porque sofrem um verdadeiro bloqueio comercial por parte de empresas e agências de publicidade”, afirma Berna.

 

A ‘popularidade’ conquistada pela área ambiental nos últimos meses vai na contra-mão do número de anunciantes e patrocinadores que investem na causa ambiental. Vera Diegoli, é editora-chefe de um dos programas de maior história na área ambiental dos grandes veículos de comunicação, o Repórter ECO, da TV Cultura de São Paulo, no ar há mais de 13 anos. Mas nem isso o torna imune às crises do mercado. “Temos dificuldades diárias para conseguirmos verbas de viagens para os diversos cantos do país”.

 

Uma alternativa para os veículos especializados na busca por maiores recursos financeiros pode ser uma modalidade pouco conhecida e divulgada: o marketing ecológico. Trata-se de uma atividade de traz enorme retorno à imagem das empresas que financiam e investem na educação ambiental. Mas isso ocorre em baixo número. Segundo Gorgulho, em muitos casos, ocorre uma falta de visão de alguns publicitários que cuidam do setor. “É uma pena que o mercado publicitário, tanto por parte das agências, como por parte das pessoas que fazem o marketing das empresas, não tenha a consciência do retorno que se tem em investir em projetos sérios de meio ambiente, sobretudo nos projetos que promovem a educação ambiental”, explica.

 

Para Berna, “o curioso disso tudo, é que as mesmas empresas e governos que enchem as redações das mídias especializadas com releases, são as mesmas que excluem esses veículos de seus planos de mídia”.

 

Um outro fato que contribui muito para esse bloqueio comercial aos veículos especializados na área ambiental é a pequena quantidade de exemplares que apresentam a cada edição em comparação às grandes publicações, ou seja, a capacidade de público que se ‘compra’. É o que Marcondes credita como maior dificuldade no crescimento da mídia ambiental. . “Em um grande veículo, você é visto por milhares e milhares de leitores. Já as mídias especializadas vendem, no máximo, dez mil exemplares. Por isso, somos dependentes da boa vontade de algumas poucas empresas, ignoradas pelas agências de publicidade que repartem o bolo do financiamento editorial no Brasil, baseadas em uma estrutura voluntariosa de trabalho. Nós estamos diariamente com o ‘chapéu na mão’, buscando recursos para trabalhar. Todas as mídias ambientais que funcionam no Brasil são assim”.

 

Especialização na área ambiental

 

O profissional de comunicação que pretende se aventurar na cobertura do assunto deverá se adaptar a alguns vocábulos que muitas vezes fogem de sua realidade. São os termos técnicos e jargões típicos de toda área. E a necessidade de um curso de especialização na área é um tema polêmico e que há muito tempo rende boas discussões.

 

Apesar de possuir pós-graduação em ciências ambientais, Marcondes acredita não ser necessária a especialização, da mesma forma que não ocorre com qualquer outro gênero jornalístico. “Jornalismo é jornalismo, seja qual for a área. O que é necessário é ler sobre o assunto, participar de seminários, palestras e pesquisar em livros relativos ao tema, da mesma forma que ocorre em qualquer área. As dificuldades que terá com jargões da área e como deverá traduzir as informações para um público diversificado são as mesmas, seja qual for o gênero”. Para ele, o importante é o interesse do jornalista pelo tema. “Além de trabalhar com alguns conceitos técnicos, a pauta ambiental é mais elaborada. E o jornalista que não conhece esses conceitos, ou ele publica bobagem, ou ele vai fugir do tema. E é muito comum isso acontecer quando o jornalista dá de cara com uma pauta ambiental e não está capacitado tecnicamente para isso. Ele tenta contornar e muda o enfoque principal da matéria”, completa Marcondes.

 

Algumas vezes, a especialização pode até surtir efeito contrário. Quando mau usada, torna-se um fator negativo. É o que considera José Manoel, jornalista que cobre a área ambiental na Rádio Jovem Pan – AM. “Acho importante, mas não imprescindível que o profissional tenha conhecimentos técnicos. Às vezes, isso pode até mesmo atrapalhá-lo no relacionamento com um público leigo”, afirma José, que além de jornalista, é engenheiro e advogado, possuindo ainda mestrado na área da engenharia e duas especializações na área ambiental.

 

Apesar de exercer grande influência no modo de pensar do jornalista e mudanças na sua forma de trabalho, Berna acredita que a especialização deve ser uma decisão pessoal de cada profissional, já que esta opção não restringi-se somente ao campo do trabalho. “O engajamento com a causa ambiental, neste caso, não é do profissional de comunicação, mas do cidadão, e isso deve estar claro para não transformar o resultado do trabalho em panfletos ideológicos, onde só importa a opinião de um lado em detrimento de outras opiniões”.

 

Esse engajamento de editores é o que tem sustentado os veículos especializados ao longo dessa última década. Trabalhando com equipes reduzidas e superando dificuldades como a falta de patrocinadores, a mídia ambiental vem ganhando reconhecimento e despertando cada vez mais o interesse do público. Mas, que ainda caminha a passos curtos quando comparamos aos demais gêneros jornalísticos.



Entrevista concedida à Revista “Cooperador Paulino”

O que é ecologia e que relação tem com a espiritualidade humana?
VSDB: Apesar da atual divulgação sobre meio ambiente, RIO 92 e políticas de proteção ambiental, a população mantém ainda uma visão simplista, superficial e romântica sobre a questão. Para a maioria, proteger o meio ambiente é proteger o verde, cuidar das plantas e árvores, não destruir florestas, não incendiar matas. Muito poucos tem noção da necessidade de relações mais harmoniosas entre o ser humano e a natureza. Talvez o mais difícil seja compreender que nossa espécie não é a dona do planeta, não pode fazer com a natureza o que quiser. Por mais especial que nossa espécie possa parecer, ela não é mais importante que qualquer outra, já que, na natureza, tudo está interrelacionado, “o que fere a Terra, fere também os filhos da Terra”, como já afirmou o cacique Seatle, em 1855, antes de inventarem o termo ecologia. E isso pode ser um duro golpe em nossa noção de importância, ao ponto de nos considerarmos à imagem e semelhança de Deus. Assim como a menos de cinco séculos tivemos de aceitar o fato de que nosso planeta não era o centro do Universo, hoje precisamos compreender que muito menos o Universo existe para nos servir. Não podemos usar e abusar do planeta, sem sofrer as conseqüências.

Segundo o historiador americano Lyn White, a origem do mal-estar ecológico está na atitude diante da natureza promovida pela religião judeu-cristã. Quanto à afirmação, o cristianismo é responsável ou não?
VSDB: Caso a religião judeu-cristã fosse a responsável por nossas relações predatórias com o planeta, não haveria poluição ou degradação ambientais em povos com outras religiões, como os maometanos, por exemplo. Países ateus, então, seriam paraísos ecológicos, e não é o que acontece. Os homens pré-históricos já tocavam fogo nas ravinas e florestas como técnica de caça para empurrar mamutes e dentes-de-sabre para lodaçais, para matá-los mais facilmente. Eles nem conheciam qualquer das religiões que existem hoje. Por outro lado, a religião insere-se num contexto cultural. Ao desmatar, queimar, poluir, utilizar ou desperdiçar recursos naturais ou energéticos, cada ser humano está reproduzindo o que aprendeu ao longo da história e cultura de seu povo. Portanto, ação destruidora não é um ato isolado de um ou outro indivíduo, ou responsabilidade de alguma religião, mas reflete as relações culturais, sociais e tecnológicas de sua sociedade. Por exemplo, é impossível pretender que seres humanos explorados, injustiçados e desprovidos de seus direitos de cidadãos consigam compreender que não devam explorar outros seres vivos, como animais e plantas, considerados inferiores pelos humanos. A atual relação de nossa espécie com a natureza é apenas um reflexo do atual estágio de desenvolvimento das relações humanas entre nós próprios. Vivemos sendo explorados, achamos natural explorar os outros.

Ultimamente, os “mass media” se lançaram em defesa da ecologia, ademais criaram-se cátedras universitárias de ecologia, enfim, observa-se uma “paixão ecológica”. Não existem interesses políticos e econômicos das grandes empresas e países desenvolvidos?
VSDB: Embora a população esteja usando cada vez mais roupas e objetos pessoais com marcas e mensagens de defesa da natureza, bem como lendo ou assistindo nos órgãos de comunicação notícias e programas sobre o assunto, isso não tem revertido em formação de consciência ambiental, mas apenas em maior volume de informação. No fundo, estas informações, apesar da boa intenção, só reforçam o preconceito de que ecologia é assunto de plantas e bichos. Uma questão muito simpática na visão da população, mas no mínimo secundária num país como o Brasil, com milhões de menores abandonados e gente passando fome. É importante combater a visão romântica da ecologia, afinal os seres humanos também fazem parte da natureza. Por outro lado, é natural que os ambientalistas fiquem satisfeitos ao ver dirigentes de países desenvolvidos, ditos de ‘primeiro’ mundo, levantarem a bandeira ambiental. É como se víssemos reconhecidas nossas lutas em defesa do planeta. Mas é preciso ver o que há por trás dessa súbita conversão à causa ambiental. Claro, que uma parte disso é devido à pressão da opinião pública, cada vez mais consciente dos problemas ambientais, mas não é só isso. É muito conveniente para as lideranças dos países do ‘primeiro’ mundo exigir dos países de ‘segundo’ e ‘ terceiro’ mundo que cuidem do meio ambiente. E é conveniente por diversos motivos. Passam a imagem de que estão avançados no cuidado ambiental e ainda aumentam seus lucros com a exportação de produtos para despoluição, controle e monitoramento ambiental, usam a questão ambiental como barreira comercial para sobretaxar produtos industrializados do ‘segundo’ e ‘terceiro’ mundo e, ainda lucram ao desviar a atenção da humanidade da base principal do problema: um modelo de desenvolvimento ‘vendido’ como o único possível, baseado na exploração ilimitada de recursos naturais e na super-exploração da mão de obra dos trabalhadores. O próprio conceito de países de primeiro, segundo e terceiro mundo já revela uma falsa ideologia, quando sugere uma corrida pelo desenvolvimento, onde os melhores chegaram primeiro e cabe aos demais seguir os mesmos passos. Essa visão é irreal pois pressupõe que o planeta e a ciência serão capazes de fornecer matérias primas, absorver resíduos e encontrar soluções para os problemas do crescimento indefinidamente. Esconde o fato de que, na hipótese de todos alcançarem um mesmo padrão de consumo que um Estados Unidos, por exemplo, serão precisos diversos planetas terras de recursos naturais. Lado a lado com a crise ambiental existe uma crise de justiça. Concentrar o discurso na crise ambiental é uma boa estratégia para países do primeiro mundo, grandes beneficiários e divulgadores do atual modelo predatório de desenvolvimento. É como se o discurso ambiental fosse uma espécie de cortina de fumaça para despistar a atenção da opinião pública para a crise de justiça, evitando serem desmascarados como vilões da humanidade.

A natureza pode ser parceira do homem. Tal afirmação perdeu sua evidência para o homem tecnológico e mais, ele nem ao menos vê seu sentido. O que o senhor pensa disso?
VSDB: Antes de se propor uma relação mais harmônica e menos predatória de nossa espécie com as outras, consideradas inferiores, é preciso engajar a ecologia nas lutas contra a exploração de um indivíduo pelo outro em nossa própria espécie. Ou continuaremos contribuindo para romantizar as relações ser humano-planeta terra, e tornar as questões ecológicas cada vez mais supérfluas, elitistas e secundárias, reservadas apenas a um pequeno grupo de iniciados, que adoram discursar sobre os próprios umbigos. As árvores não são derrubadas, a fauna sacrificada ou o meio ambiente poluído por desconhecimento de nossa espécie dos impactos dessas ações sobre a natureza. Não é por falta de conhecimento ou de saber tecnológico que o meio ambiente é destruído, mas devido ao atual estágio de desenvolvimento existente nas relações sociais de nossa espécie. Certos caçadores e desmatadores, por exemplo, possuem muito mais conhecimentos sobre ecologia, natureza e a vida silvestre que muitos ecologistas, mas usam esses conhecimentos para destruir e matar.

Quais os maiores perigos que a humanidade pode experimentar, caso continue destruindo o meio ambiente?
VSDB: São vários os problemas, desde o risco hipotético mas não improvável de uma guerra nuclear, até o aquecimento global devido aos gases efeito- estufa, a perda maciça da biodiversidade, etc. Alguns especialistas têm destacado o crescimento populacional como sendo o mais grave, o que pode não ser verdadeiro, apesar da gravidade do problema. Em 90, 51,5% da população mundial tinha menos de 25 anos, segundo a ONU. Ou seja, somos um planeta com 2,7 bilhões de jovens, todos querendo emprego, melhor qualidade de vida e, naturalmente, filhos. Até quando o planeta conseguirá suportar a demanda? Mas quem sabe quanto de população o planeta é capaz de suportar? O problema não está só na quantidade de indivíduos, mas na forma como esse indivíduo vem tratando o planeta. Por exemplo, uma única pessoa vivendo em 20 mil hectares no meio da floresta amazônica, ou no Pantanal, pode causar mais danos com uso do fogo e moto-serra, que 2.000 pessoas com consciência ambiental num edifício de São Paulo. Ainda segundo a ONU, existem no planeta cerca de 1,1 bilhão de pessoas vivendo em absoluta pobreza, 1 bilhão de analfabetos e cerca de 13,5 milhões de crianças com menos de cinco anos que morrem de fome a cada ano. Dados como esses levaram a Conferência Mundial Sobre População e Desenvolvimento, realizada em setembro de 1994, no Cairo, Egito, a definir um programa para o controle da população mundial nos próximos 20 anos, como se o maior perigo para o planeta fosse a explosão demográfica nos países pobres. Mas e os países ricos? Quando serão obrigados a rever seu modelo predatório e socialmente injusto de desenvolvimento, baseado em lucros crescentes, que coloca um fardo ecológico excessivo sobre países pobres e em desenvolvimento, reduzidos à condição de meros exportadores de matérias primas e em lixeira do ‘primeiro mundo’ desenvolvido?

Em dezembro de 1997, a organização ambientalista Conservation International afirmou que o Brasil é o campeão mundial de biodiversidade. O que fazer para tornar útil sem destruir esta riqueza?
VSDB: Não há respostas prontas. Percebemos que os limites devem ser colocados caso a caso, em função das características de cada lugar. Isso pressupõe embate de idéias, possível apenas num ambiente democrático, principalmente com uma imprensa livre. Nossa geração tem um papel muito importante na história da humanidade. É a geração da transição entre duas visões distintas de mundo. Não temos todas as respostas, muito menos a solução de todos os problemas, mas já somos capazes de dizer não ao progresso sem limites e dizer sim ao progresso com responsabilidade ambiental, ainda que, às vezes, não saibamos direito que caminhos são os melhores para nos levar a esse novo desafio. Conforme já foi anunciado, o Brasil ocupa uma posição estratégica em termos mundiais devido à sua incomparável e rica biodiversidade. Se por um lado temos uma natureza exuberante, por outro carecemos de investimentos em pesquisa e na formação de mão-de-obra e estruturas que permitam o adequado aproveitamento e até mesmo a compreensão desta riqueza, o que nos tem conduzido a um tipo de garimpo muito mais predatório que o do ouro ou qualquer outro metal. O garimpo genético. Sem uma base legal adequada, o Brasil tem permitido que o saber dos índios e populações tradicionais sobre a biodiversidade seja apropriado por terceiros, sem que estes povos ou o próprio país receba uma contrapartida pelo uso dessa biodiversidade. O correto é que o conhecimento destes povos fosse respeitado e remunerado adequadamente e que as comunidades participassem conjuntamente dos projetos de pesquisa. Existe, hoje, no mundo, uma verdadeira guerra silenciosa dos países ricos, que detém a tecnologia contra os países pobres ou em desenvolvimento, que detém a biodiversidade. Durante a RIO 92 esse conflito ficou bem claro e os EUA simplesmente recusaram-se a assinar o tratado da Biodiversidade, enquanto não se reconhecesse sua propriedade sobre o conhecimento genético que possui de plantas e animais de outros países que, desnecessário dizer, foram retirados desses países sem seu consentimento, sem qualquer remuneração sobre as espécies ou sobre o saber dos povos tradicionais. A biodiversidade ficou assim reduzida à condição de armazém de fragmentos genéticos, transformados pelos laboratórios em mercadorias comercializáveis. Mais que a simples apropriação de uma espécie de planta ou bicho, é a apropriação privada da vida, que assume um valor monetário.

No livro Ecologia Para Ler, Pensar e Agir (Paulus, 94), o senhor fala que o mundo mais pacífico, justo, fraterno e ecológico não começa no outro, mas em nós mesmos. Por quê?
VSDB: Por trás de nossos problemas ambientais, não está apenas a ação de poluidores, o desmantelamento dos órgãos públicos de controle ambiental, ou a falta de consciência ambiental, mas também um tipo de atitude e valores, que julga natural explorar ao meio ambiente e aos nossos semelhantes para atingir um modelo de desenvolvimento que, por si só, gera agressões ambientais e problemas sociais. Logo, não basta exigir mudança de comportamento de empresas e governos. Precisamos ser capazes de enfrentar a nós próprios, pois não haverá planeta suficiente capaz de suprir as necessidades de quem acha que a felicidade e o sucesso estão na posse de cada vez mais bens materiais. Também não basta se tornar mais consciente dos problemas ambientais sem se tornar também mais ativo, crítico participativo. Em outras palavras, o comportamento dos cidadãos em relação ao seu meio ambiente, é indissociável do exercício da cidadania. Só que tem gente que acha mais fácil ficar reclamando que ninguém ajuda, mas não se pergunta se está fazendo a sua parte. Acha mais prático ficar esperando que o governo ou algum político salvador da pátria faça alguma coisa - afinal, costuma argumentar, já se paga tanto de impostos -, em vez de arregaçar as mangas por sua comunidade ou escola. Na base da falta de participação não está a ausência da consciência ambiental, mas de cidadania. Então, como convencer os outros a modificarem seus hábitos, se não modificamos os nossos primeiro? Como exigir que os poluidores deixem de envenenar o ar da comunidade, se os fumantes jogam sua fumaça no ar de quem está do lado, mesmo sabendo que incomoda e prejudica a saúde do vizinho? Se queremos uma natureza preservada, devemos começar mudando nossos hábitos, comportamentos e atitudes com o planeta, os animais, as plantas, o meio ambiente e, principalmente, com o nosso próximo, pois não há coerência em quem ama os animais e as plantas mas explora, humilha, discrimina, odeia seus semelhantes. Sem coerência, a comunicação é vazia, seja atuando em nível familiar, seja no bairro, seja através do próprio trabalho na escola, na Prefeitura, na comunidade, na empresa, sindicato etc.





Entrevista concedida para a tese de mestrado sobre Ambientalismo de Frederico Loureiro

O que é o movimento ambientalista? O que é ser ecologicamente correto? É possível sê-lo no mundo contemporâneo?
VSDB - Movimento ambientalista é a organização de um segmento da sociedade civil para a defesa de seus direitos a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, como manda a Constituição. É um movimento de cidadania. Ser ecologicamente correto é adotar princípios e práticas que não comprometam a ética ambiental que desejamos e cobramos dos outros. Principalmente no mundo contemporâneo, quando novas tecnologias, mais limpas, estão cada vez mais disponíveis; quando mecanismos de informação, como a internet, tornam a informação quase instantânea e o mundo é cada vez mais uma aldeia global, onde as fronteiras estão perdendo o sentido. Já perderam, para as multinacionais, e vão perder ainda mais com o avanço da globalização. Isso não é nenhuma novidade para o ambientalista, que vê o planeta como um só.

As ONGs ambientalistas ainda separam o social do natural na busca de concretização de seus ideais?
VSDB - cada vez mais os ambientalistas percebem que meio ambiente e social são lados diferentes da mesma moeda, já que de nada adianta lutar pela planta e o bicho, se milhões de seres humanos morrem de fome e estão na miséria. Entretanto, também não se deve com isso priorizar as questões sociais para só depois tratar das naturais, pois são lutas paralelas, já que de nada adianta a riqueza ou a abundância num planeta incapaz de sustentar a vida. Vida, que não nasce do asfalto ou do concreto, mas da biodiversidade. Assim, existem ONGs de diversos matizes em função de onde colocam suas prioridades. Todas se complementam, embora ainda não tenha surgido nem um movimento, nem mesmo um esforço filosófico-intelectual que mostre o quando os movimentos sociais e ambientais são complementares entre si.

O que conduziu a humanidade ao atual quadro de relação destrutiva com a natureza?
VSDB - Inicialmente o sentimento de medo e impotência diante das forças da natureza que o ser humano não dominava nem compreendia. Foi a era dos muitos deuses, associados a forças da natureza. Com o desenvolvimento do conhecimento, as descobertas, as invenções, os seres humanos passaram de vítimas assustadas diante de uma natureza que não compreendiam, para algozes de uma natureza dominada. Agora, a espécie humana vive a realidade de ter de rever suas relações com a natureza, sob pena de decretar a sua própria extinção. Mas precisa garantir a sobrevivência da natureza e a sua ao mesmo tempo, o que pressupõe garantir desenvolvimento, crescimento, atendimento às necessidades humanas. E este é o desafio que a humanidade tenta responder agora com a idéia de um desenvolvimento sustentável. A atual geração foi a geração de transição entre uma geração orgulhosa de suas invenções e da capacidade de subjulgar a natureza, para uma geração que precisa encontrar novas formas de lidar com o planeta. Se a nossa geração conseguiu ser um divisor de águas de duas visões - ou paradigmas, a próxima geração cabe o desafio de encontrar as respostas, as técnicas, as soluções para os desafios de hoje.

É viável uma sociedade justa no marco da democracia capitalista? Se não, qual é a alternativa?
VSDB - Justiça e meio ambiente preservados são atributos apenas de regimes não capitalistas? Claro que não. Há injustiça e degradação ambiental em sistemas capitalistas, socialistas, comunistas, anarquistas, indígenas, em comunidades rurais autônomas, etc. Claro que em maior ou menor grau, mas há. Não se trata de opinião, trata-se de fatos. Parece que há uma inerência na natureza humana, seja em que forma escolha para se organizar, para a justiça e a injustiça, a preservação e a depredação. Somos deus e o diabo, e nossas organizações refletem isso. O que, na minha opinião, permite a convivência é a democracia, mas não a democracia da ditadura da maioria, mas a democracia que consegue criar um ambiente de intermediação de conflitos, de respeito às diferenças. Por isso é tão difícil ser democrático, pois trata-se de um aprendizado. Ninguém nasce democrático. Na verdade, nascemos ditadores oportunistas (queremos uma mãe só para nós, que nos atenda e nos dê atenção o tempo todo...), mas vamos sendo lapidados pela vida, aos poucos. Uns aprendem mais rápido, outros mais devagar e alguns não aprendem nunca, por isso sofrem e causam sofrimento. A alternativa é a educação, educação, educação para a cidadania participativa, para sermos pessoas melhores, com valores mais espirituais, culturais, intelectuais, e menos materiais, onde o ser seja mais importante que o ter. Utopia por utopia, prefiro achar que o mundo melhor que sonhamos depende de mim, de nós, por que se achar que depende dos poderosos, posso acabar imobilizado e desanimado, pois quem está no poder dificilmente irá quer sair ou distribuir esse poder.

A globalização, como a temos hoje, é um marco favorável à construção da sociedade sustentável?
VSDB - sempre existiu globalização, desde que os primeiro hominídeos sairam da África e se espalharam pelos continentes. A primeira chegada da globalização, no Brasil, se deu a uns 40 ou 50 mil anos, com or primeiro hominídeos que aqui chegaram, a Segunda se deu com a esquadra de Cabral. O que acontece hoje não é novidade, apenas os sistemas de comunicação, especialmente a a internet, transformaram o mundo num lugar realmente pequeno, e as grandes multinacionais descobriram como transformar as fronteiras tão ciosamente guardadas pelos militares num obstáculo inexistente para os seus negócios. Esta é a a globalização dos poderosos, que usam o planeta apenas para seus negócios. Chegará o tempo da globalização também para o meio ambiente e a justiça social. Mas ainda estamos no caminho. Vamos depender de uma sociedade mais humanizada, que recuse, simplesmente, comprar marcas de tênis fabricados com mão-de-obra escrava, por exemplo. Mas chegaremos lá.

O que mais dificulta a construção de uma sociedade sustentável nos moldes idealizados pelo movimento ambientalista?
VSDB - A falta de consciência da sociedade, que por mais que reclame, confia cegamente em seus representantes, e acha mais cômodo esperar que o mundo mude primeiro nos outros. Existe uma cultura de depredação e domínio da natureza cultivado a milhares de gerações, e não será uma ou duas gerações, mesmo com os recursos tecnológicos de hoje, que mudará isso da noite para o dia. O atual modelo insustentável possui raízes fortes na cultura do povo, que ainda acha justo poluir e depredar desde que isso signifique empregos, moradias, alimentos. Não foi dado ainda informações suficientes para que as pessoas compreendam que podem ter essas mesmas coisas sem que haja a depredação que há hoje. Mas isso é um novo paradigma, uma nova cultura. Vai depender de muita, muita educação, informação e democracia participativa. Mas chegamos lá. Não é para mim, certamente, talvez para meus filhos, mas certamente para meus netos, e eles dependerão do que eu estiver fazendo aqui e agora e do que eu tiver ensinado aos meus filhos.

É possível separar justiça social de sustentabilidade ecológica?
VSDB - São lados diferentes da mesma moeda, impossíveis de serem separados. Entretando, é possível ser ambientalmente correto sem ser socialmente justo, e isso deve ser combatido. Existem tecnologias limpas, hoje, que produzem sem poluir, mas também desempregam. Essas mesmas tecnologias conseguem substituir o trabalho estafante pelo não trabalho. Quando deveria significar liberdade para que os trabalhadores pudessem dedicar mais tempo às suas próprias vidas, estão significando fome e exclusão social. Nem todos os ambientalistas estão atentos para esta realidade e encantam-se com uma nova fábrica que não têm chaminé ou que produz com mínimo impacto ambiental, mas que ai substituir a fábrica anterior, poluidora, dispensou também a mão de obra dos trabalhadores, pois a tendência moderna é para a mecanização e a robotização. Com o amadurecimento do movimento ambientalista a tendência é que sejam capazes de saírem dos guetos ambientalistas e busquem parcerias com sindicatos, associações de moradores, etc., pois cada vez mais suas lutas estão entrelaçadas. Mas este deve ser um crescimento de parte a parte, pois sindicatos e associações de moradores ainda vêem os ambientalistas com reservas e poucos compreendem as bandeiras do movimento.

A consciência individual é mais ou menos ou tão importante quanto a articulação coletiva para a mudança?
VSDB - sem dúvida nenhuma. Acho que até mais importante, já que as instituições e as estruturas sociais nada mais são do que pessoas organizadas em torno de um ideal, de uma proposta. Assim como milhares de mentiras somadas não viram verdade, milhares de pessoas sem consciência individual não formam uma articulação coletiva capaz de mudar coisa alguma.

Como o movimento ambientalista deve se posicionar diante de governos e empresas? Como articular ações de parceria e de pressão?
VSDB - De forma crítica e ao mesmo tempo propositiva. Crítica por que estão em jogo direitos coletivos a um meio ambiente preservado, e não se defende direitos abrindo mão de direitos, mas se organizando para lutar por eles. Propositivo, por que não basta dizer o que está errado, é preciso também dizer como fazer certo, e até mesmo, num grau mais profissional, capacitar-se e capacitar para fazer o certo, e não apenas dizer como fazer. Parceria se faz entre diferentes. Por isso, a articulação para a parceria exige a capacidade de lidar como as diferenças, saber encontrar no outro com o qual se deseja ter como parceiro, que interesse os une, em vez de se concentrar apenas no que os separam. Isso exige capacidade de ser democrático, saber olhar além dos próprios interesses, ou olhar para os próprios interesses pelo olhar do outro. Por isso é tão difícil estabelecer parcerias, pois os sistemas educativos de hoje parecem pressupor que todos nascemos democráticos, cidadãos, capazes de atuar em coletivos naturalmente. A capacidade de pressão é apenas uma das estratégias de ação na conquista de direitos. Existem outras. Podem ser usadas isoladamente ou num plano estratégico para se ganhar uma luta. Uma coisa é certa, não se muda um estado de coisas sem pressão. Quem está no poder quer manter-se no poder, de preferência do jeito que ele é. Para mudar ele precisa ser convencido, e a pressão é uma forma de convencimento.

O PV ou outro partido e os Fóruns de coletivos de entidades são agentes de apoio ao movimento ambientalista e de mudança social?
VSDB - A ecologia não tem partido - ou não deve ter - já que deve estar presente em todos os partidos. Um partido que se proponha a ser ecológico, sem querer, ou querendo, acaba inibindo outros partidos a adotarem bandeiras ambientalistas, para não 'botarem azeitona na impada dos verdes'. A lógica da política com ‘p’ minúsculo é uma lógica de ganhar densidade política para chegar ao poder e se manter nele, ampliando seus espaços de poder como um meio para atingir os fins programáticos, geralmente um conjunto de nobres ideais e pomposos compromissos, muitos inexequíveis e impossíveis de serem atingidos, seja por que dependeria do partido estar muito tempo no poder, ou ter muito dinheiro, ou uma enorme capacidade de decidir sozinho o que é melhor para a sociedade. Como num regime pluralista e democrático isso é impossível, chega-se ao poder para se descobrir que não é possível fazer muita coisa por lá, ainda mais quando se defende bandeiras que contrariam o statos quo. E como a competição por ganhar densidade política e chegar ao poder é grande, gasta-se tanta energia para se atingir os meios, que os fins acabam sendo só um detalhe. Mas não há saída num regime democrático fora dos partidos e da lógica da política. Por isso, mais uma vez, é preciso investir em educação e cidadania participativa, para que novas lideranças surjam, capazes de enfrentarem o desafio de fazer Política, com ‘P’ maiúsculo, onde a única e a principal coisa que deve importar é o bem comum.

A globalização e a transnacionalização dos movimentos sociais facilitam a ação ambientalista?
VSDB - Existe uma divisão de tarefas não explícita entre os movimentos nacionais e transnacionais em função de questões ambientais que exigem um grau de articulação global, como, por exemplo, a defesa de espécie migratórias, o tráfico de animais silvestres, o comércio de resíduos tóxicos perigosos, o combate ao efeito estufa, etc. ONGs locais não tem capacidade de atuar em causas que exige a articulação entre diversos países. Por outro lado, é difícil para ONGs com atuação mundial deterem-se em temas locais. O problema é que existe um baixíssimo grau de integração e mesmo de comunicação entre estas diferentes ONGs, o que tem significado duplicação de esforços em alguns casos, o que resulta em perdas de energia e recursos, e, por outro, um razoável grau de conflito de competências quando as ONGs globais, com mais recursos e articuladas, desenvolvem ações locais sem buscar a integração com as ONGs locais, muitas das vezes por que estas ONGs não possuem um suficiente grau de profissionalização ou capacitação, mas também por que, assim como na política, as ONGs também necessitam de ganhar densidade política e reconhecimento junto à sociedade ou aos patrocinadores. Á medida em que houver um amadurecimento do movimento e maior integração e comunicação entre as ONGs, estas dificuldades tenderão a diminuir. Novamente, a internet poderá prestar um importante papel, mas antes é preciso vencer a barreira da língua.

A ênfase na gestão ambiental e na tecnologia limpa é um caminho viável para a prática ambientalista? O pragmatismo gestionário, como forte tendência atual, é a saída para o movimento ambientalista?
VSDB - De forma alguma, pois o pragmatismo ambiental pode levar a uma falsa sustentabilidade ambiental, pois pode estar descomprometida dos valores sociais e de justiça. Não basta ser ambientalmente correto, é preciso ser também socialmente justo e, naturalmente, viável economicamente a fim de garantir o auto-sustento.



Entrevista a Rubens Ribeiro - Revista Futuro

Mão na massa - Ong do Rio de Janeiro reúne mais de 10 mil pessoas em ações voluntárias de conservação ambiental

Terceiro brasileiro a ser homenageado pela ONU com o Prêmio Global 500 para o Meio Ambiente, em 1999 – os outros dois são Chico Mendes e Betinho – o jornalista, escritor e ambientalista Vilmar Sidnei Demamam Berna é dessas pessoas que vivem 100 por cento de seu tempo escrevendo, conversando, negociando, discutindo e procurando novas idéias sobre um tema: o meio ambiente.

Dos escritos, conversas e discussões nasceram, em janeiro de 1996, a Revista e o Portal do Meio Ambiente, que vem mantendo a média mensal de 200 mil visitas. Das idéias, surgiram ações inovadoras, como o Projeto Voluntários Ambientais, da ONG REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental.

Nessa entrevista, Vilmar conta a origem dessa entidade e fala do papel que ela desempenha, tanto ao contribuir, com a mão na massa, para a reparação de danos ao ecossistema quanto para o desenvolvimento coletivo de uma consciência conservacionista.

1. Como surgiu a idéia de se criar o PROJETO VOLUNTÁRIOS AMBIENTAIS?

Durante o grave acidente com óleo na Baía de Guanabara, em janeiro de 2000, atuamos intensamente indo além da notícia. Mobilizamos mais de 200 voluntários entre os leitores dos veículos que edito e parceiros, principalmente, para ajudar no resgate e recuperação da fauna atingida pelo óleo derramado. Passado o incidente, essas pessoas continuaram procurando novas possibilidades de trabalho voluntário dando origem à Rede Nacional de Voluntários Ambientais. Qualquer um pode participar bastando associar-se a redenacionaldevoluntariosambientais-subscribe@yahoogrupos.com.br

2. Como são mobilizados esses voluntários? São convocados em situações de acidentes ecológicos?

Não. Com tantas pessoas engajadas, e tanto trabalho a ser feito, independentemente da ocorrência de emergências ambientais, não seria adequado manter simplesmente um estado de prontidão. Era necessário que a mobilização e a motivação para o trabalho voluntário se tornassem permanentes, contínuas. Assim, começamos a organizar eventos para “tempos de paz”, ou seja, independentemente da ocorrência de emergências ambientais. Isso vem se fazendo por meio da realização de mutirões ecológicos, geralmente em parceria com outras entidades, para a limpeza e recuperação de ecossistemas.

3. Que resultados o PROJETO VOLUNTÁRIOS AMBIENTAIS já pode contabilizar?

Em julho de 2002, em parceria com os jovens do Projeto Vida Nova, do Rio de Janeiro, os voluntários retiraram cerca de 10 toneladas de lixo flutuante que chega pelas águas da poluída Baía de Guanabara, na praia da Ilha do Fundão. Em dezembro do mesmo ano, foi a vez da Floresta da Tijuca, quando os voluntários ambientais, em parceria com diversas outras ONGs, como o GRUDE, Hyppocampus, PRIMA e com cooperação da administração do Parque Nacional ali localizado, retiraram cerca de 6 toneladas da areia que entupia o lago da Cascatinha. A areia retirada foi destinada à recuperação de trilhas e encostas dentro do próprio Parque. Em de abril de 2003, em parceria com a ONG Onda Verde e com a participação voluntária de calouros e estudantes de Geografia da Universidade Federal Fluminense, que trocaram o trote habitual pelo mutirão ecológico, retiramos inúmeros sacos de lixo que se acumulava no rio e nas piscinas adjacentes à Reserva Biológica do Tinguá, no Rio de Janeiro.

Além disso, contribuímos para a implantação de Ecoclubes na Rede Municipal de Ensino de Barra Mansa, município de 170 mil habitantes na região leste do Rio de Janeiro, onde já existem 40 desses clubes, que não só discutem temas ligados à preservação ambiental como também realizam ações concretas, como o plantio de mudas para recomposição da mata ciliar na margem esquerda do Rio Barra Mansa.

4. É, portanto, uma iniciativa ligada à Educação Ambiental...

Exatamente. A diferença entre o Projeto dos Voluntários Ambientais e o Clube de Amigos do Planeta – nome desses Ecoclubes – é que o primeiro se propõe a estabelecer um canal permanente para atender à demanda já existente na sociedade para o trabalho voluntário, enquanto o segundo se propõe a motivar e ajudar a organizar os jovens em idade escolar para serem voluntários ambientais. A idéia é fazer de cada escola um clube, e de cada clube uma ação concreta em benefício do meio ambiente adjacente, num trabalho que procura envolver toda a comunidade e contribuir para formar cidadãos críticos e participativos.

5. E quanto à sustentação financeira?

Temos buscado parcerias e patrocínios com empresas cujas políticas de responsabilidade socioambiental prevejam disposição sincera de se envolverem na melhoria concreta do meio ambiente e na conscientização ambiental da sociedade brasileira. Esta participação pode ser localizada – ou seja, desenvolvida nas áreas em que exercem influência, e, além da natural agregação de valor ambiental às suas imagens corporativas, essas empresas dispõem de mecanismos fiscais para deduzir do imposto de renda os investimentos realizados nesses projetos.

 

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