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Ecologia Para Ler, Pensar e Agir


Vilmar Berna
ECOLOGIA PARA LER, PENSAR E AGIR
Ética e educação ambiental para todas as idades


“Não é a terra que é frágil. Nós é que somos frágeis. A natureza tem resistido a catástrofes muito piores do que as que produzimos. Nada do que fazemos destruirá a natureza. Mas podemos facilmente nos destruir. “
James Lovelok


Primeira parte
ATEIA DA VIDA

“Tudo está relacionado entre si.
Tudo o que fere a terra,
fere também os filhos da terra.”
Cacique Seattle, 1855

Você faz parte da espécie Homo sapiens. Ela surgiu há apenas 90 mil anos. Como o planeta possui cerca de 4,6 bilhões de anos, você pode ver que somos muito novos ainda. Os tubarões e as baratas, por exemplo, já existem há mais de 300 mil anos.

Tem gente que ainda pensa que os seres humanos vieram dos macacos, mas isso é falso. Se fosse verdade, os macacos também já teriam se transformado em seres humanos. Acredita-se, no entanto, que seres humanos e macacos tenham tido um ancestral comum, um ser do qual ambas as espécies se originaram, cada uma seguindo depois um caminho diferente de evolução.

Outros pensam que foi Deus quem criou todas as coisas diretamente, mas a própria evolução das espécies na natureza mostra o contrário. Se tivesse criado tudo diretamente, o elefante, por exemplo, continuaria até hoje com 60 centímetros de altura, como seu primeiro ancestral, há 58 milhões de anos.

Isso não quer dizer que Deus não existe ou que não tenha sido o criador de tudo, apenas que Ele não precisa ficar criando tudo diretamente. Por exemplo, Deus não precisou criar coisas com capacidade de cair. Bastou criar a força da gravidade para as coisas caírem naturalmente. Ou seja Deus não precisa interferir na forma como a energia se transforma em partículas da matéria ou como os átomos e moléculas se arrumam e desarrumam, muito menos como os seres vivos se adaptam ao meio.

Para Deus, bastou criar as forças que permitiram a existência de tudo o que conhecemos, como a força da gravidade, por exemplo, que mantém em suas órbitas os satélites, planetas, estrelas, sistemas solares, galáxias; ou a força eletromagnética, que permitiu as polaridades entre as matérias, combinando positivo e negativo; a força da interação fraca, que mantém os elétrons em torno do núcleo dos átomos; a força da interação forte, que mantém o núcleo do átomo unido. Einstem acreditava que, no início da Criação, estas quatro forças formavam uma única força, cuja divisão veio resultar na existência de tudo o que conhecemos hoje.

Como podemos ver, Deus é muito mais poderoso do que imaginamos Ele não precisou ficar criando estrelas planetas sistemas solares e muito menos plantas água animais seres humanos. Bastou criar as forças básicas do universo e mantê-las ativas, e tudo o mais foi acrescentado, fruto da evo1ução natural das coisas na adaptação às condições de seu meio.

No universo, portanto, não existe uma espécie mais especial ou importante que outras, já que, por mais maravilhosa que seja, não conseguiria sobreviver sozinha.

Precisamos uns dos outros. Só existimos porque os outros existem. Não haveria galáxias sem Universo, nem Sol sem Via-Láctea. Muito menos nosso planeta existiria sem o Sol. Não haveria animais sem as plantas, nem plantas sem água, ou o solo sem as rochas. Muito menos existiriam seres humanos sem os outros seres da natureza, incluindo aí o ser vivo chamado Gaia, o outro nome do nosso planeta.

Esse dom maravilhoso chamado Vida constitui, na verdade, uma enorme teia entrelaçada, conforme disse o índio Seattle há mais de um século, a qual, ao contrário do que muitos possam imaginar, não foi nossa espécie quem teceu ou muito menos sustenta. Somos apenas um dos seus fios. A extinção de espécies da fauna e da flora, causada em sua maior parte por nós próprios, destrói um por um os fios da teia da \'ida. Vida que somos incapazes de recriar. Um ser extinto é um ser que desaparece para sempre e, quando isso acontece, a vida se empobrece um pouco mais e a teia enfraquece, comprometendo não só as atuais gerações que habitam este planeta, mas também as futuras.

O planeta não pertence à nossa espécie. Muito menos são nossos os recursos naturais os ecossistemas, o meio ambiente a vida da fauna e da flora. Alguém já disse que não herdamos de nossos pais ou avós o direito de usufruir dos recursos do planeta, mas estamos tomando-os emprestados de nossos filhos e netos. A sobrevivência e qualidade de vida das futuras gerações dependerão do que estivermos fazendo aqui e agora.

Um órgão qualquer de nosso corpo, como um braço ou co-ração, não teria vida própria fora de nós, ainda que tivessem consciência de sua natureza e existência. Nós também não podemos existir fora da natureza. Assim como nosso braço ou coração só existem porque nosso corpo existe, também existimos porque a natureza existe. Não somos algo separado da natureza ou do planeta. Somos partes deles. A ilusão de individualidade é apenas resultado de nossa evolução social, mas não interfere em nada em nossa natureza biológica. Torna-nos conscientes de nossa existência, mas continuamos seres tão dependentes da natureza quanto qualquer outro. Portanto, eu, você, todo o mundo, somos partes de um corpo muito maior do que nós.

Esse corpo poderia ser o planeta Terra?

Será que a Terra é, afinal, o único ser vivo do qual nossa espécie, os animais, as plantas, os ventos, a água, são apenas como braços ou o coração? Provavelmente que não, pois também o nosso planeta não pode existir sozinho, fora do sistema solar. O Sol, por sua vez, também não existe sozinho, mas depende da Via-Láctea. As galáxias expandem-se como numa explosão, afastando-se umas das outras cada vez mais, e também dependem desse movimento para continuar existindo como são.

Os cientistas acreditam que as galáxias perderão a força inicial que as fez expardir-se e, a partir desse momento, convergirão novamente para o ponto de partida, fazendo o universo encolher-se. Nesse ponto, os cientistas confirmam o que os místicos hindus já sabiam há milênios. Segundo eles, o universo nada mais é que o corpo de Brahma (o deus hindu) em expansão e, quando chegar a noite de Brahma, ele voltará a encolher. Os hindus crêem que tudo o que existe — seres humanos, plantas, animais, planetas, Sol, galáxias — é apenas parte de um único corpo: o corpo de Deus.

O importante é que você possa se alegrar por não estar sozinho, por se sentir parte de uma coisa muito maior que suas pequenas angustias, injustiças e sofrimentos. Poder olhar o céu numa noite estrelada e se sentir um com toda aquela imensidão. Saber que a noção de eu, de individualidade humana, não passa de uma ilusão de nossa mente que pode ser muito útil para nos identificar socialmente, mas que não tem nenhuma importância para a natureza, pois não somos algo fora dela, separados da Criação ou de Deus. Somos partes integrantes de tudo isso.



Segunda parte
PENSAR GLOBALMENTE, AGIR LOCALMENTE


“Falar sobre o futuro só é útil se levar à ação agora. E o que podemos fazer agora, enquanto ainda estamos em condições de afirmar que ‘a vida nunca foi tão boa’? (...) Cem gramas de prática geralmente valem mais do que uma tonelada de teoria.”
E.F. Schumacher

Jogamos fora alguma coisa quando ela deixa de ser útil para nós. Primeiro, não nos ocorre que essa coisa possa continuar sendo útil, por exemplo, utilizando-se o outro lado da folha de papel. Ou ser útil de uma outra maneira, como um saquinho de leite, que pode virar porta-semente para uma muda de planta. Segundo, não nos ocorre que, o que não é mais útil para nós pode ser para outros. Sobras de alimento podem virar comida para animais ou adubo para plantas. Terceiro, muita coisa que usamos já é feita para virar lixo, como as embalagens e objetos descartáveis feitos para jogar fora. Quanto maior o lixo, mais material é desperdiçado. Podemos diminuir bastante o volume do lixo limitando nossa tendência consumista e evitando comprar supérfluos ou cosas desnecessárias. Quarto, jogamos as coisas fora, num canto distante, como se bastasse colocar nosso lixo longe de nós para ele deixar de nos importunar. Esquecemos que lixo é o lugar ideal para a proliferação de moscas, ratos, mosquitos, baratas, que voltam voando ou rastejando para dentro de nossas casas, trazendo doenças com eles, além descontaminar o meio ambiente. E depois, o fundo do quintal ou um terreno distante podem ser fora de nossa casa ou do município, mas é dentro do Estado ou do planeta. Não existe "lá fora" dentro do planeta Terra.

Não adianta você só ler ou estudar muito sobre ecologia ou questão social, e não fazer nada para mudar. A transformação da realidade começa primeiro em nós próprios, depois à nossa volta, no bairro, no país. Muitas vezes não participamos de um mutirão de limpeza ou plantio de árvores em nossa comunidade porque ninguém nos convida. Esperamos sempre que alguém venha fazer alguma coisa por nós: que a prefeitura venha melhorar o lugar onde vivemos, cuidar de nosso lixo. preservar nosso meio ambiente; que os vizinhos façam algum movimento em defesa e melhoria da rua ou do bairro; que os cidadãos elejam um governador ou presidente da república melhor. Na verdade, nada muda se você não mudar primeiro.

A preservação do planeta, uma sociedade mais justa e igualitária, uma relação mais fraterna e menos egoísta entre as pessoas, tudo isso depende de grandes e pequenas tarefas. Se você fizer sua parte, estará contribuindo para tornar isso possível. A humanidade não é nada mais que a soma de indivíduos corno você. As instituições, os governos, são seres abstratos, mas dirigidos por pessoas reais, de carne e osso, cheias não só de defeitos, mas também de virtudes, como nós. Comece primeiro no nível pessoal. reveja seus valores, objetivos de vida, sua perspectiva de Futuro. Remova tudo o que é autoritário e provoca ódio ou ressentimento em você mesmo e nos outros. Exija menos do mundo e dos outros, e mais de você. Mude hábitos, atitudes e comportamentos agressivos, desperdiçadores ou poluidores do meio ambiente.

A despoluição do planeta depende também da despoluição do nosso próprio ser. Uma pessoa que defenda a ecologia, por exemplo, e se relacione de maneira egoísta e agressiva com seus semelhantes, não conseguirá convencer ninguém de seus propósitos. Nós costumamos acumular muito lixo e poluição mental e espiritual, como ressentimentos, intolerância, preconceito, insegurança, descortesia, etc., que impedem que possamos ver o que há de bonito no mundo e nas outras pessoas em volta de nós. Faz com que percamos a perspectiva de que a realidade nada mais é que a soma dos bons e maus momentos. Faz com que cometamos o erro maniqueísta de dividir o mundo e as pessoas com quem nos relacionamos em boas e más, como se houvesse a bondade e a maldade absolutas.

Não espere, no entanto, tornar-se perfeito. Ninguém consegue. O processo de busca do eu e de melhoria como ser humano é uma conquista permanente, que não acaba nunca. O importante é que você não se sinta culpado por estar investindo em seu próprio aperfeiçoamento interior, enquanto o mundo se afoga cm injustiças e violências, pois você tem o direito e o dever de ser feliz, e não seria justo com ninguém abrir mão disso por uma felicidade social futura e hipotética, que exige muito mais que o esforço de uma única geração, ou de um indivíduo.

E, além disso só quem é feliz pode transmitir felicidade. Só quem se ama pode amar outras pessoas. Só quem é justo, consigo mesmo pode construir um mundo melhor com outras pessoas Isso não significa de maneira nenhuma que devemos nos fechar para o mundo, numa atitude egoísta diante da dor e sofrimento alheios. E importante que você se engaje nas lutas pela transformação da realidade, pois de nada adianta ser ecológico sem lutar pela ecologia, democrata sem lutar pela democracia, justo sem lutar pela justiça. Nossas ações acabariam no descrédito além de não servirem de exemplo para os outros.

Também não espere que alguém, ou algum livro, ou um líder carismático venha lhe indicar o caminho sobre como viver a sua vida. Não há caminho, nem jeito de caminhar, pois o que pode ter servido para alguém num determinado tempo e lugar, pode não não servir novamente. A realidade é dinâmica, a história é recriada permanentemente, não há indivíduo igual ao outro, portanto, fique de olhos abertos para o mundo. Descubra o que há de belo nas pessoas em volta de você. Não cometa a tolice de se proteger do mundo ou dos outros para não sofrer, muito menos desista diante das dificuldades ou obstáculos. Crescemos quando enfrentamos a realidade.

Nosso cérebro nos engana. Procure perceber a realidade, e as outras pessoas, também com os sentimentos e a instituição, sem abandonar o conhecimento racional, naturalmente, mas buscando a integração mente-sentimento-intuição-experiência. E tome cuidado com os falsos conceitos que, apesar de mentirosos, podem ser lógicos e fazer sentido, como nossa noção de progresso e desenvolvimento, por exemplo, que não costuma levar em conta o planeta, seus ecossistemas, os animais e as plantas, nem mesmo as populações nativas e indígenas, que possuem outro modo de viver a vida. Nossa visão utilitarista considera o planeta como armazém de recursos para nosso “desenvolvimento”, e os povos nativos e indígenas como “atrasados”. O progresso, para nós, “civilizados”, é basicamente produzir para consumir e criar para produzir, numa lógica de produção-consumo, onde o ideal é a aceleração deste ciclo, até que todos tenham acesso ao mercado de consumo. Pouco se percebe que isso é apenas um modo de vida, e que podem existir outros, como o dos índios. Ou seja, o que é “progresso” em nossa sociedade, pode não ser em outra. Se, para nós, abrir uma estrada em plena selva pode ser chamado de progresso, para os povos da floresta e para a fauna e a flora, é atraso. Não é só a espécie humana ou só a sociedade de consumo que tem direito ao planeta.


Terceira parte
FERA DE NÓS MESMOS


“O holismo significa uma visão não fragmentada do real, em que a senção, os sentimentos, a razão e a intuição se equilibram, se reforçam e se controlam reciprocamente, permitindo ao ser humano uma consciência plena, a cada momento, de todos os fatores envolvidos em cada situação ou evento de sua existência, produzindo, assim, decisão certa no momento exato, com sabedoria e amor espontâneos, a partir de valores éticos de respeito à vida, sob todas as formas.”
Pierre Weil

Somos o resultado de duas heranças. A herança biológica — produto do Homo sapiens, originada de milênios de evolução natural, e que nos coloca na natureza como um dos constituintes da cadeia alimentar. Nessa condição estamos submetidos a leis naturais - que não dominamos -, e que regem a evolução dos seres vivos em geral. Nossa outra herança é a social - produto humano-, que adquirimos enquanto crescemos, originada do tipo de organização e cultura em que vivemos, da forma como nos adaptamos ao meio ambiente. É resultado de um processo de autocriação em que, ao mesmo tempo que interagimos com a natureza, criamos nossa própria existência social, submetidos a forças econômicas, sociais e políticas, que não mudam nossa natureza biológica, mas determinam a forma como suprimos nossas necessidades biológicas, desenvolvemos potencialidades ampliamos o ambiente humano. A herança social é um produto histórico e como tal muda no decurso do tempo e de um lugar para outro.

É essa combinação do que herdamos da natureza com o que herdamos da sociedade em que vivemos que nos torna diferentes dos outros seres da criação e nos da a capacidade de discernir entre o que é melhor e o que não é, possibilitando atuar sobre a realidade no sentido de transformá-la produzindo assim a evolução social. Infelizmente, temos usado este poder para piorar o mundo, destruir o meio ambiente dominar e explorar os outros seres da Criação e nossos próprios semelhantes. Precisamos agora fazer o contrário.

Devido às diferenças de lugar, determinadas tanto pela evolução natural quanto pela social, associadas à criatividade humana e sua capacidade de adaptação, cada povo desenvolveu formas, maneiras, culturas, ideais que variam em função da história de cada um. Isso vai determinar jeitos diferentes de interpretar a realidade, adaptar-se ao meio ambiente, viver a vida. Portanto, o que é bom, certo ou verdadeiro num determinado tempo e lugar, pode não o ser em outro. Somos influenciados por essas diferenças e nos tornamos diferentes uns dos outros, embora iguais em direitos e dignidade..

O fato de sermos diferentes não nos dá o direito de explorar ou humilhar outro semelhante ou nos julgar superiores a ele como tem acontecido ao longo da história humana, em que uns povos sempre se julgaram no direito de escravizar e assassinar outros povos, como ainda acontece hoje com os chamados povos da floresta perseguidos pelos “homens brancos”. E, de uma certa forma, também entre nós, quando usamos as diferenças para discriminar pobres, mulheres, negros, menores, idosos, deficientes físicos e mentais, povos nativos etc.

Nossas diferenças, ao contrário de serem motivos de fragilidade da espécie humana, são fatores de fortalecimento. Se fôssemos todos iguais, não seríamos capazes de nos adaptar aos diferentes meios ambientes do planeta.

A riqueza, acumulada com a superexploração dos recursos naturais e da mão-de-obra humana, não é distribuída igualmente entre todos, mas concentra-se nas mãos de uma pequena parcela de nossa espécie, que consegue viver com opulência, enquanto a grande maioria sofre coma miséria e a má qualidade de vida e de seu meio ambiente. É bom meditar sobre a fala do sábio indígena Hamawt’a: “O dia em que vocês envenenarem o último animal...quando não existirem nem flores, nem pássaros, se darão conta de que dinheiro não se come.”

A defesa da ecologia não está dissociada, portanto, da luta pela justiça social e melhor distribuição de renda. Não há nenhum mérito numa luta em defesa da natureza que exclua ou deixe em segundo plano as lutas sociais e democráticas, pois é absurda a situação em que menos de 1/5 da população do planeta vive com luxo e desperdício, consumindo 80% das reservas naturais disponíveis, enquanto a imensa maioria de seres humanos vive mal. Mais de 1/3 desses padece de fome ou de desnutrição, e 3/4 não têm acesso adequado à água e moradia condignas A minoria privilegiada do planeta, em sua quase totalidade habitantes de países do chamado mundo desenvolvido, produzem um impacto nas reservas de recursos naturais 25 vezes superior ao dos habitantes dos países em desenvolvimento.

Portanto, não é verdadeiro dizer que a nossa espécie destrói o planeta. A responsabilidade pela destruição não pode ser igual para todos, pois não é igualo poder de destruir, muito menos o acesso aos frutos desse assalto contra os recursos do planeta. Este poder está concentrado nas mãos de uma pequena parcela de indivíduos de nossa espécie- Urna minoria, em sua maior parte egoísta e ambiciosa, que se acha no direito de continuar superexplorando os recursos naturais do planeta e a mão-de-obra dos trabalhadores para acumular lucros crescentes e no menor tempo possível ao mesmo tempo em que investe todo o esforço de trabalho e os recursos do planeta, não para a superação de misérias e injustiças, mas para outros fins menos nobres como, por exemplo, a fabricação de mais e mais armas e arsenais nucleares. Só o que já existe de armas nucleares dá para destruir o planeta 40 vezes.

A espécie humana, infelizmente, está dividida em explorados — a grande maioria —, e exploradores. Antes os exploradores utilizavam armas, correntes e chicotes para dominar outros povos. Hoje usam a dívida externa, a dependência tecnológica, as economias transnacionalizadas, a cumplicidade com as elites, a corrupção, a divulgação dos valores dos exploradores através do monopólio dos meios de comunicação, como se fossem valores positivos e universais, para que os explorados não queiram libertar-se, mas, ao contrário, anseiem alcançar o mesmo padrão devida de seus dominadores. E, quando isso não acontece, não culpam seus dominadores, mas a si próprios, por acharem que não tiveram sorte ou por não terem estudado o suficiente.

Além disso os países ricos e industrializados do Primeiro Mundo enviam para os países pobres sua tecnologia suja e seu lixo perigoso a pretexto de gerar empregos e desenvolvimento ao mesmo tempo que divulgam princípios e preocupações ecológicas e acusam os paises pobres de destruírem as florestas e o meio ambiente numa atitude no mínimo hipócrita. Melhor fariam se mudassem seu estilo predatório opulento e egoísta de vida, transferissem tecnologia limpa e despoluidora para os países pobres investissem mais na superação da miséria e do analfabetismo e menos em arsenais bélicos e nucleares Apenas 10% do que se gasta com armamentos daria para eliminar a fome e a miséria em todo o mundo. O sistema de ensino que devia formar cidadãos críticos e conscientes dessa dominação, faz o contrario, auxiliando na domesticação do aluno a pretexto de prepará-lo profissionalmente para uma vaga inexistente, já que o mercado de trabalho esta sujeito às regras econômicas e não as educacionais.

Na base dessa exploração estão valores culturais e espirituais que deram origem a sistemas econômicos em que o egoísmo, a ambição, a inveja, a intolerância, a prepotência, a competitividade desmedida. Foram elevados à categoria de virtude. Mede-se o sucesso de alguém não pelo que ele representa como ser humano, mas pelo quanto de dinheiro tem no banco, quantos cômodos tem sua casa, o tamanho da sua piscina, as viagens que faz ao exterior, quantidade de jóias, quantos carros tem na garagem. Cultua-se, assim, a competitividade em detrimento da solidariedade, o desperdício em lugar da economia, ainda que, para atingir tais objetivos, seja preciso poluir o planeta, destruir ou desperdiçar recursos naturais e ecossistemas, subjugar outros povos, explorar trabalhadores, subverter os próprios sentimentos.

Não é por falta de consciência ambiental que o planeta é destruído, mas por uma ética distorcida, baseada em premissas falsas, como a de julgar nossa espécie superior as demais, superior até à própria natureza, com direito, portanto, de subjugar, explorar, prender, matar, poluir, como se estivéssemos acima de tudo isso, como se não pudéssemos ser atingidos pelas pedras que nós próprios jogamos para o alto. Nos julgamos semelhantes a Deus, mas sequer fornos capazes de viver em harmonia com os outros seres da Criação, que achamos inferiores a nós. Mantivemos durante todo esse tempo uma visão antropocêntrica da Criação, como se Deus a tivesse criado por um capricho apenas para satisfazer os desejos de nossa espécie. Os resultados não poderiam ser outros, no processo de dominar a natureza; a pretexto de possibilitar nosso desenvolvimento, fomos nós que nos embrutecemos, tornamo-nos feras de nós. mesmos.


Quarta parte
ARMADILHA DO DESEJO

“A não-ação não significa nada fazer ou permanecer silencioso. Deixe que tudo ocorra como deve naturalmente ocorrer, de tal forma que sua natureza seja satisfeita.”
Chuang Tzu

Dos nossos equívocos, o maior de todos, verdadeira armadilha, foi a transformação que fizemos de Deus, felicidade, amor, paz, bem, virtude, em bens a serem atingidos, como se já não estivessem dentro de nós. Chuang Tzu afirmou que, ao agirmos assim, colocamos, de um lado, o nosso presente, onde fica o que julgamos não possuir. Do outro, o futuro distante, onde está o que desejamos alcançar. O resultado só pode ser desilusão e alienação.

Quando procuramos o que não está perdido quem fica perdido somos nos. Nos dedicamos, então a estudar cada vez mais o objeto de nosso desejo — seja Deus, felicidade, bem, virtude, amor, paz — a fim de entendê-lo descobrir onde esta, como pode ser alcançado. Quanto mais estudamos e nos envolvemos com teorias, confusão de opções divergentes, técnicas especiais, ritos, oráculos, menos real o objeto de nosso desejo se torna. E à medida que vai se tornando menos real nossa compreensão sobre o que desejamos fica cada vez mais abstrata e inacessível. Essa busca pode resultar em maior esforço de estudo obrigando a nos concentrar mais e mais no meio a ser empregado para alcançar o que desejamos. E à medida que o fim que queremos — Deus, felicidade paz amor justiça — vai se tornando distante e difícil o simples estudo do meio para alcança-lo torna-se mais completo e exigente ate que todos os esforços devem se concentrar nesse meio e, então, nos esquecemos do fim A conseqüência tem sido o vazio espiritual preenchido por valores materiais em que o TER tornou-se mais importante que o SER, e a inteligência passou a ser usada para racionalizar nossas brutalidades e éticas distorcidas.

Outro grande equívoco de nossa espécie foi eleger a mente racional como forma privilegiada de conhecimento — senão a única. Caímos em nova armadilha, pois, na pretensão de separarmos as coisas para melhor examiná-las, perdemos de vista o fim último do que estudamos. Se para os diversos aspectos de nossa realidade — como saúde, religião, educação etc. — isso foi um desastre, para o meio ambiente foi arrasador, já que a questão ecológica deve ser tratada obrigatoriamente sob o ponto de vista holístico.

Não somos seres separadamente biológicos, espirituais, sexuais, políticos, artísticos, culturais, etc. Somos isso tudo ao mesmo tempo. Entretanto, ao analisarmos cada um desses aspectos de nossa natureza isoladamente perdemos a visão do que é ser humano em sua essência. O pior e que acabamos elegendo um ou outro aspecto como sendo importante ou desejável e discriminamos outros, que fazem parte de nós do mesmo jeito. Por exemplo, onde se trabalha não se diverte, e vice-versa. Ao longo da história humana isso sempre foi muito conveniente, pois não só possibilitou a melhor exploração do planeta e a opressão aos outros seres da natureza — sob o argumento de que não eram humanos, ou sequer tinham alma,como a opressão de nossos próprios semelhantes. Sempre buscamos, na verdade racionalizar nossas brutalidades contra os outros seres a fim de nos livrar da culpa por sermos nos seus destruidores.

Os donos do poder econômico souberam aproveitar muito bem estes nossos equívocos. Elegeram um dos muitos aspectos da realidade — o dinheiro, ou melhor, o lucro —, como o principal, senão o único objetivo de suas vidas e empresas, como se o dinheiro fosse a única e principal necessidade humana. Claro que, em nossa sociedade, o dinheiro é importante, assim como todas as outras coisas. Mas não deve ser o principal — muito menos o único — objetivo de nossa vida.

Os índios e os negros por exemplo escravizados pelos colonizadores europeus, eram considerados desprovidos de alma como se fossem meio humanos semelhantes a animais domésticos. Na verdade, os colonizadores buscavam apenas uma justificativa moral para tanta opressão e brutalidade. Mais ou menos o que fazemos hoje com os outros seres da Criação, os animais e as plantas. Costumamos dizer que os animais e as plantas não pensam; em alguns casos, que não sentem dor; e quase unanimemente, que não têm alma. Com esta desespiritualização, sequer nos sentimos culpados diante do utilitarismo com que tratamos as outras espécies. Os animais ainda têm defensores, que lutam contra nossa insensibilidade e crueldade. Alguns chegam a recusar-se a comer carne. Já as plantas não têm recebido tanto apoio. E olha que lá foi comprovado cientificamente e divulgado, no “Livro secreto das plantas”, que elas têm memória, sentem dor e são muito mais inteligentes do que a gente pensa.

Esta visão utilitarista, antropocêntrica e fragmentada da realidade gerou muitos novos equívocos de nossa parte, afastando-nos da natureza e de nós próprios, fazendo surgir sociedades compartimentalizadas como as atuais. A pretexto de suprir as necessidades humanas de alimentação, abrigo, segurança, procriação. etc.,criamos cidades cada vez mais complexas, com divisões de trabalho bem marcadas, onde quem pensa não faz, quem faz não pensa. Quem tem dinheiro manda, quem não tem obedece. Os indivíduos passam de seres humanos a objetos de produção e consumo, como peças de uma enorme engrenagem, onde não há lugar para os diferentes. Quem não se ajusta, como os deficientes mentais ou físicos e os mendigos, quem não produz ainda, como os menores, ou quem já não produz mais, como os idosos, são discriminados. Não há lugar em nossa sociedade para aqueles que não se subordinam à lógica da produção-consumo. Esse modelo predatório não tem resultado em maior nível de atendimento às necessidades humanas, mas em infelicidade, frustração, miséria e destruição do planeta.

Corno pretender que seres humanos vivendo em sociedades assim, humilhados, oprimidos, em péssima qualidade de vida, possam compreender que não devem matar ou maltratar os outros seres da natureza que consideram "inferiores"? Konrad Lorenz questionou, certa vez, "como estimular em nossos adolescentes o amor à vida e à natureza, se tudo o que eles vêem à sua volta é obra humana, feia e triste?" Não há respostas. Pelo menos, não neste tipo de sociedade em que vivemos, onde só nossa espécie é importante, onde o lucro crescente e no menor tempo possível é mais importante que uma vida humana ou a preservação da natureza. Temos à. nossa frente um desafio sobretudo ético.


Quinta parte

UM MUNDO MELHOR NÃO COMEÇA NO OUTRO, COMEÇA EM NÓS


“No Oriente, uma pessoa virtuosa não é aquela que busca concretizar a tarefa impossível de lutar pelo bem e eliminar o mal, mas, sim, aquela que se mostra capaz de manter um equilíbrio dinâmico entre o bem e o mal.”
Fritjof Capra, “O Tão da Física”

Até aqui a questão era de nossa espécie contra a natureza. Acreditou-se que, para preservar a natureza, bastava separar porções de territórios naturais, mantendo-os longe da voracidade humana. Criou-se, então, os parques e reservas florestais e leis cada vez mais severas para impedir que o ser humano poluísse e destruísse a natureza. E claro que não adiantou muito; afinal, não existe um guarda para cada cidadão.

O desafio agora é encontrar urna nova ética para nossa relação com a natureza, da qual não somos mais os usufrutuários, mas partes integrantes. Temos a nosso favor o fato de ainda ser uma espécie nova no planeta, com possibilidades de aprender e adaptar-se. E mais: contamos com a incrível capacidade de regeneração natural do planeta, para quem basta conter a destruição e dar uma 'tmãozinha", que ele logo se recupera. O planeta tem grande capacidade para absorver tudo o que fazemos contra ele. Quem não tem somos nós. Ou seja, as agressões que fazemos contra a natureza voltam-se contra nós próprios, como bumerangues ecológicos.

É preciso que se diga também que não foram as últimas gerações humanas que destruíram o planeta. Essa responsabilidade precisa ser dividida com as outras gerações de nossa espécie desde há 90 mil anos, quando surgimos. Durante os primeiros 80 mil anos fomos caçadores-coletores e provavelmente responsáveis pela extinção de muitas espécies, como o tigre-dente-de-sabre, por exemplo. Depois passamos mais de 10 mil anos como agricultores, abrindo espaço a fogo na natureza para plantar. gerando excedentes de alimentos que permitiram não só o aumento da população humana, com o surgimento de cidades e, com elas, da cultura da vida em sociedade, da civilização, mas também os engarrafamentos, favelas, superconcentração urbana etc.

E claro que nos últimos 200 anos exageramos na dose, pois a destruição ambiental passou da escala artesanal para a escala industrial. Os seres humanos precisam, agora, alimentar as máquinas com energia e matérias primas gerando imensa quantidade de lixo, poluição, destruição maciça de espécies vegetais e animais, e sequer essa superexploração tem contribuído para o desenvolvimento e o bem-estar de nossa espécie como um todo, mas para o enriquecimento de uns poucos povos e indivíduos privilegiados.

Temos contra nós a capacidade de produzir catástrofes ambientais em grande escala,
como o incêndio dos poços ele petróleo na Guerra do Golfo, a explosão da usina nuclear de Chernobyl, as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasáqui, as queimadas na Amazônia etc., numa escala muito maior do que aquela que nossa espécie pode suportar, o que nos coloca na imposição de não errar novamente.

O planeta seguramente será capaz de sobreviver sem nós. Entretanto, nós com toda certeza, não sobreviveremos se o planeta tiver seus ecossistemas vitais comprometidos.

O mundo mais pacífico, justo, fraterno e ecológico que imaginamos não começa no outro, muito menos depende unicamente dos líderes políticos e religiosos, mas começa em nós próprios. Para ser mais preciso, em você mesmo, neste exato momento.

F I M

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