Vilmar Berna

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Entrevista concedida para a tese de mestrado sobre Ambientalismo de Frederico Loureiro

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O que é o movimento ambientalista? O que é ser ecologicamente correto? É possível sê-lo no mundo contemporâneo?

VSDB - Movimento ambientalista é a organização de um segmento da sociedade civil para a defesa de seus direitos a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, como manda a Constituição. É um movimento de cidadania. Ser ecologicamente correto é adotar princípios e práticas que não comprometam a ética ambiental que desejamos e cobramos dos outros. Principalmente no mundo contemporâneo, quando novas tecnologias, mais limpas, estão cada vez mais disponíveis; quando mecanismos de informação, como a internet, tornam a informação quase instantânea e o mundo é cada vez mais uma aldeia global, onde as fronteiras estão perdendo o sentido. Já perderam, para as multinacionais, e vão perder ainda mais com o avanço da globalização. Isso não é nenhuma novidade para o ambientalista, que vê o planeta como um só.

As ONGs ambientalistas ainda separam o social do natural na busca de concretização de seus ideais?


VSDB - cada vez mais os ambientalistas percebem que meio ambiente e social são lados diferentes da mesma moeda, já que de nada adianta lutar pela planta e o bicho, se milhões de seres humanos morrem de fome e estão na miséria. Entretanto, também não se deve com isso priorizar as questões sociais para só depois tratar das naturais, pois são lutas paralelas, já que de nada adianta a riqueza ou a abundância num planeta incapaz de sustentar a vida. Vida, que não nasce do asfalto ou do concreto, mas da biodiversidade. Assim, existem ONGs de diversos matizes em função de onde colocam suas prioridades. Todas se complementam, embora ainda não tenha surgido nem um movimento, nem mesmo um esforço filosófico-intelectual que mostre o quando os movimentos sociais e ambientais são complementares entre si.

O que conduziu a humanidade ao atual quadro de relação destrutiva com a natureza?

VSDB - Inicialmente o sentimento de medo e impotência diante das forças da natureza que o ser humano não dominava nem compreendia. Foi a era dos muitos deuses, associados a forças da natureza. Com o desenvolvimento do conhecimento, as descobertas, as invenções, os seres humanos passaram de vítimas assustadas diante de uma natureza que não compreendiam, para algozes de uma natureza dominada. Agora, a espécie humana vive a realidade de ter de rever suas relações com a natureza, sob pena de decretar a sua própria extinção. Mas precisa garantir a sobrevivência da natureza e a sua ao mesmo tempo, o que pressupõe garantir desenvolvimento, crescimento, atendimento às necessidades humanas. E este é o desafio que a humanidade tenta responder agora com a idéia de um desenvolvimento sustentável. A atual geração foi a geração de transição entre uma geração orgulhosa de suas invenções e da capacidade de subjulgar a natureza, para uma geração que precisa encontrar novas formas de lidar com o planeta. Se a nossa geração conseguiu ser um divisor de águas de duas visões - ou paradigmas, a próxima geração cabe o desafio de encontrar as respostas, as técnicas, as soluções para os desafios de hoje.

É viável uma sociedade justa no marco da democracia capitalista? Se não, qual é a alternativa?


VSDB - Justiça e meio ambiente preservados são atributos apenas de regimes não capitalistas? Claro que não. Há injustiça e degradação ambiental em sistemas capitalistas, socialistas, comunistas, anarquistas, indígenas, em comunidades rurais autônomas, etc. Claro que em maior ou menor grau, mas há. Não se trata de opinião, trata-se de fatos. Parece que há uma inerência na natureza humana, seja em que forma escolha para se organizar, para a justiça e a injustiça, a preservação e a depredação. Somos deus e o diabo, e nossas organizações refletem isso. O que, na minha opinião, permite a convivência é a democracia, mas não a democracia da ditadura da maioria, mas a democracia que consegue criar um ambiente de intermediação de conflitos, de respeito às diferenças. Por isso é tão difícil ser democrático, pois trata-se de um aprendizado. Ninguém nasce democrático. Na verdade, nascemos ditadores oportunistas (queremos uma mãe só para nós, que nos atenda e nos dê atenção o tempo todo...), mas vamos sendo lapidados pela vida, aos poucos. Uns aprendem mais rápido, outros mais devagar e alguns não aprendem nunca, por isso sofrem e causam sofrimento. A alternativa é a educação, educação, educação para a cidadania participativa, para sermos pessoas melhores, com valores mais espirituais, culturais, intelectuais, e menos materiais, onde o ser seja mais importante que o ter. Utopia por utopia, prefiro achar que o mundo melhor que sonhamos depende de mim, de nós, por que se achar que depende dos poderosos, posso acabar imobilizado e desanimado, pois quem está no poder dificilmente irá quer sair ou distribuir esse poder.

A globalização, como a temos hoje, é um marco favorável à construção da sociedade sustentável?

VSDB - sempre existiu globalização, desde que os primeiro hominídeos sairam da África e se espalharam pelos continentes. A primeira chegada da globalização, no Brasil, se deu a uns 40 ou 50 mil anos, com or primeiro hominídeos que aqui chegaram, a Segunda se deu com a esquadra de Cabral. O que acontece hoje não é novidade, apenas os sistemas de comunicação, especialmente a a internet, transformaram o mundo num lugar realmente pequeno, e as grandes multinacionais descobriram como transformar as fronteiras tão ciosamente guardadas pelos militares num obstáculo inexistente para os seus negócios. Esta é a a globalização dos poderosos, que usam o planeta apenas para seus negócios. Chegará o tempo da globalização também para o meio ambiente e a justiça social. Mas ainda estamos no caminho. Vamos depender de uma sociedade mais humanizada, que recuse, simplesmente, comprar marcas de tênis fabricados com mão-de-obra escrava, por exemplo. Mas chegaremos lá.

O que mais dificulta a construção de uma sociedade sustentável nos moldes idealizados pelo movimento ambientalista?

VSDB
- A falta de consciência da sociedade, que por mais que reclame, confia cegamente em seus representantes, e acha mais cômodo esperar que o mundo mude primeiro nos outros. Existe uma cultura de depredação e domínio da natureza cultivado a milhares de gerações, e não será uma ou duas gerações, mesmo com os recursos tecnológicos de hoje, que mudará isso da noite para o dia. O atual modelo insustentável possui raízes fortes na cultura do povo, que ainda acha justo poluir e depredar desde que isso signifique empregos, moradias, alimentos. Não foi dado ainda informações suficientes para que as pessoas compreendam que podem ter essas mesmas coisas sem que haja a depredação que há hoje. Mas isso é um novo paradigma, uma nova cultura. Vai depender de muita, muita educação, informação e democracia participativa. Mas chegamos lá. Não é para mim, certamente, talvez para meus filhos, mas certamente para meus netos, e eles dependerão do que eu estiver fazendo aqui e agora e do que eu tiver ensinado aos meus filhos.

É possível separar justiça social de sustentabilidade ecológica?

VSDB - São lados diferentes da mesma moeda, impossíveis de serem separados. Entretando, é possível ser ambientalmente correto sem ser socialmente justo, e isso deve ser combatido. Existem tecnologias limpas, hoje, que produzem sem poluir, mas também desempregam. Essas mesmas tecnologias conseguem substituir o trabalho estafante pelo não trabalho. Quando deveria significar liberdade para que os trabalhadores pudessem dedicar mais tempo às suas próprias vidas, estão significando fome e exclusão social. Nem todos os ambientalistas estão atentos para esta realidade e encantam-se com uma nova fábrica que não têm chaminé ou que produz com mínimo impacto ambiental, mas que ai substituir a fábrica anterior, poluidora, dispensou também a mão de obra dos trabalhadores, pois a tendência moderna é para a mecanização e a robotização. Com o amadurecimento do movimento ambientalista a tendência é que sejam capazes de saírem dos guetos ambientalistas e busquem parcerias com sindicatos, associações de moradores, etc., pois cada vez mais suas lutas estão entrelaçadas. Mas este deve ser um crescimento de parte a parte, pois sindicatos e associações de moradores ainda vêem os ambientalistas com reservas e poucos compreendem as bandeiras do movimento.

A consciência individual é mais ou menos ou tão importante quanto a articulação coletiva para a mudança?

VSDB
- sem dúvida nenhuma. Acho que até mais importante, já que as instituições e as estruturas sociais nada mais são do que pessoas organizadas em torno de um ideal, de uma proposta. Assim como milhares de mentiras somadas não viram verdade, milhares de pessoas sem consciência individual não formam uma articulação coletiva capaz de mudar coisa alguma.

Como o movimento ambientalista deve se posicionar diante de governos e empresas? Como articular ações de parceria e de pressão?

VSDB
- De forma crítica e ao mesmo tempo propositiva. Crítica por que estão em jogo direitos coletivos a um meio ambiente preservado, e não se defende direitos abrindo mão de direitos, mas se organizando para lutar por eles. Propositivo, por que não basta dizer o que está errado, é preciso também dizer como fazer certo, e até mesmo, num grau mais profissional, capacitar-se e capacitar para fazer o certo, e não apenas dizer como fazer. Parceria se faz entre diferentes. Por isso, a articulação para a parceria exige a capacidade de lidar como as diferenças, saber encontrar no outro com o qual se deseja ter como parceiro, que interesse os une, em vez de se concentrar apenas no que os separam. Isso exige capacidade de ser democrático, saber olhar além dos próprios interesses, ou olhar para os próprios interesses pelo olhar do outro. Por isso é tão difícil estabelecer parcerias, pois os sistemas educativos de hoje parecem pressupor que todos nascemos democráticos, cidadãos, capazes de atuar em coletivos naturalmente. A capacidade de pressão é apenas uma das estratégias de ação na conquista de direitos. Existem outras. Podem ser usadas isoladamente ou num plano estratégico para se ganhar uma luta. Uma coisa é certa, não se muda um estado de coisas sem pressão. Quem está no poder quer manter-se no poder, de preferência do jeito que ele é. Para mudar ele precisa ser convencido, e a pressão é uma forma de convencimento.

O PV ou outro partido e os Fóruns de coletivos de entidades são agentes de apoio ao movimento ambientalista e de mudança social?

VSDB
- A ecologia não tem partido - ou não deve ter - já que deve estar presente em todos os partidos. Um partido que se proponha a ser ecológico, sem querer, ou querendo, acaba inibindo outros partidos a adotarem bandeiras ambientalistas, para não 'botarem azeitona na impada dos verdes'. A lógica da política com ‘p’ minúsculo é uma lógica de ganhar densidade política para chegar ao poder e se manter nele, ampliando seus espaços de poder como um meio para atingir os fins programáticos, geralmente um conjunto de nobres ideais e pomposos compromissos, muitos inexequíveis e impossíveis de serem atingidos, seja por que dependeria do partido estar muito tempo no poder, ou ter muito dinheiro, ou uma enorme capacidade de decidir sozinho o que é melhor para a sociedade. Como num regime pluralista e democrático isso é impossível, chega-se ao poder para se descobrir que não é possível fazer muita coisa por lá, ainda mais quando se defende bandeiras que contrariam o statos quo. E como a competição por ganhar densidade política e chegar ao poder é grande, gasta-se tanta energia para se atingir os meios, que os fins acabam sendo só um detalhe. Mas não há saída num regime democrático fora dos partidos e da lógica da política. Por isso, mais uma vez, é preciso investir em educação e cidadania participativa, para que novas lideranças surjam, capazes de enfrentarem o desafio de fazer Política, com ‘P’ maiúsculo, onde a única e a principal coisa que deve importar é o bem comum.

A globalização e a transnacionalização dos movimentos sociais facilitam a ação ambientalista?


VSDB
- Existe uma divisão de tarefas não explícita entre os movimentos nacionais e transnacionais em função de questões ambientais que exigem um grau de articulação global, como, por exemplo, a defesa de espécie migratórias, o tráfico de animais silvestres, o comércio de resíduos tóxicos perigosos, o combate ao efeito estufa, etc. ONGs locais não tem capacidade de atuar em causas que exige a articulação entre diversos países. Por outro lado, é difícil para ONGs com atuação mundial deterem-se em temas locais. O problema é que existe um baixíssimo grau de integração e mesmo de comunicação entre estas diferentes ONGs, o que tem significado duplicação de esforços em alguns casos, o que resulta em perdas de energia e recursos, e, por outro, um razoável grau de conflito de competências quando as ONGs globais, com mais recursos e articuladas, desenvolvem ações locais sem buscar a integração com as ONGs locais, muitas das vezes por que estas ONGs não possuem um suficiente grau de profissionalização ou capacitação, mas também por que, assim como na política, as ONGs também necessitam de ganhar densidade política e reconhecimento junto à sociedade ou aos patrocinadores. Á medida em que houver um amadurecimento do movimento e maior integração e comunicação entre as ONGs, estas dificuldades tenderão a diminuir. Novamente, a internet poderá prestar um importante papel, mas antes é preciso vencer a barreira da língua.

A ênfase na gestão ambiental e na tecnologia limpa é um caminho viável para a prática ambientalista? O pragmatismo gestionário, como forte tendência atual, é a saída para o movimento ambientalista?

VSDB - De forma alguma, pois o pragmatismo ambiental pode levar a uma falsa sustentabilidade ambiental, pois pode estar descomprometida dos valores sociais e de justiça. Não basta ser ambientalmente correto, é preciso ser também socialmente justo e, naturalmente, viável economicamente a fim de garantir o auto-sustento.
 

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Educação Ambiental
Entrevista com Vilmar Berna
(Págs. 32 a 39) –
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