O que é ecologia e que relação tem com a espiritualidade humana?
VSDB: Apesar da atual divulgação sobre meio ambiente, RIO 92 e políticas de proteção ambiental, a população mantém ainda uma visão simplista, superficial e romântica sobre a questão. Para a maioria, proteger o meio ambiente é proteger o verde, cuidar das plantas e árvores, não destruir florestas, não incendiar matas. Muito poucos tem noção da necessidade de relações mais harmoniosas entre o ser humano e a natureza. Talvez o mais difícil seja compreender que nossa espécie não é a dona do planeta, não pode fazer com a natureza o que quiser. Por mais especial que nossa espécie possa parecer, ela não é mais importante que qualquer outra, já que, na natureza, tudo está interrelacionado, “o que fere a Terra, fere também os filhos da Terra”, como já afirmou o cacique Seatle, em 1855, antes de inventarem o termo ecologia. E isso pode ser um duro golpe em nossa noção de importância, ao ponto de nos considerarmos à imagem e semelhança de Deus. Assim como a menos de cinco séculos tivemos de aceitar o fato de que nosso planeta não era o centro do Universo, hoje precisamos compreender que muito menos o Universo existe para nos servir. Não podemos usar e abusar do planeta, sem sofrer as conseqüências.
Segundo o historiador americano Lyn White, a origem do mal-estar ecológico está na atitude diante da natureza promovida pela religião judeu-cristã. Quanto à afirmação, o cristianismo é responsável ou não?
VSDB: Caso a religião judeu-cristã fosse a responsável por nossas relações predatórias com o planeta, não haveria poluição ou degradação ambientais em povos com outras religiões, como os maometanos, por exemplo. Países ateus, então, seriam paraísos ecológicos, e não é o que acontece. Os homens pré-históricos já tocavam fogo nas ravinas e florestas como técnica de caça para empurrar mamutes e dentes-de-sabre para lodaçais, para matá-los mais facilmente. Eles nem conheciam qualquer das religiões que existem hoje. Por outro lado, a religião insere-se num contexto cultural. Ao desmatar, queimar, poluir, utilizar ou desperdiçar recursos naturais ou energéticos, cada ser humano está reproduzindo o que aprendeu ao longo da história e cultura de seu povo. Portanto, ação destruidora não é um ato isolado de um ou outro indivíduo, ou responsabilidade de alguma religião, mas reflete as relações culturais, sociais e tecnológicas de sua sociedade. Por exemplo, é impossível pretender que seres humanos explorados, injustiçados e desprovidos de seus direitos de cidadãos consigam compreender que não devam explorar outros seres vivos, como animais e plantas, considerados inferiores pelos humanos. A atual relação de nossa espécie com a natureza é apenas um reflexo do atual estágio de desenvolvimento das relações humanas entre nós próprios. Vivemos sendo explorados, achamos natural explorar os outros.
Ultimamente, os “mass media” se lançaram em defesa da ecologia, ademais criaram-se cátedras universitárias de ecologia, enfim, observa-se uma “paixão ecológica”. Não existem interesses políticos e econômicos das grandes empresas e países desenvolvidos?
VSDB: Embora a população esteja usando cada vez mais roupas e objetos pessoais com marcas e mensagens de defesa da natureza, bem como lendo ou assistindo nos órgãos de comunicação notícias e programas sobre o assunto, isso não tem revertido em formação de consciência ambiental, mas apenas em maior volume de informação. No fundo, estas informações, apesar da boa intenção, só reforçam o preconceito de que ecologia é assunto de plantas e bichos. Uma questão muito simpática na visão da população, mas no mínimo secundária num país como o Brasil, com milhões de menores abandonados e gente passando fome. É importante combater a visão romântica da ecologia, afinal os seres humanos também fazem parte da natureza. Por outro lado, é natural que os ambientalistas fiquem satisfeitos ao ver dirigentes de países desenvolvidos, ditos de ‘primeiro’ mundo, levantarem a bandeira ambiental. É como se víssemos reconhecidas nossas lutas em defesa do planeta. Mas é preciso ver o que há por trás dessa súbita conversão à causa ambiental. Claro, que uma parte disso é devido à pressão da opinião pública, cada vez mais consciente dos problemas ambientais, mas não é só isso. É muito conveniente para as lideranças dos países do ‘primeiro’ mundo exigir dos países de ‘segundo’ e ‘ terceiro’ mundo que cuidem do meio ambiente. E é conveniente por diversos motivos. Passam a imagem de que estão avançados no cuidado ambiental e ainda aumentam seus lucros com a exportação de produtos para despoluição, controle e monitoramento ambiental, usam a questão ambiental como barreira comercial para sobretaxar produtos industrializados do ‘segundo’ e ‘terceiro’ mundo e, ainda lucram ao desviar a atenção da humanidade da base principal do problema: um modelo de desenvolvimento ‘vendido’ como o único possível, baseado na exploração ilimitada de recursos naturais e na super-exploração da mão de obra dos trabalhadores. O próprio conceito de países de primeiro, segundo e terceiro mundo já revela uma falsa ideologia, quando sugere uma corrida pelo desenvolvimento, onde os melhores chegaram primeiro e cabe aos demais seguir os mesmos passos. Essa visão é irreal pois pressupõe que o planeta e a ciência serão capazes de fornecer matérias primas, absorver resíduos e encontrar soluções para os problemas do crescimento indefinidamente. Esconde o fato de que, na hipótese de todos alcançarem um mesmo padrão de consumo que um Estados Unidos, por exemplo, serão precisos diversos planetas terras de recursos naturais. Lado a lado com a crise ambiental existe uma crise de justiça. Concentrar o discurso na crise ambiental é uma boa estratégia para países do primeiro mundo, grandes beneficiários e divulgadores do atual modelo predatório de desenvolvimento. É como se o discurso ambiental fosse uma espécie de cortina de fumaça para despistar a atenção da opinião pública para a crise de justiça, evitando serem desmascarados como vilões da humanidade.
A natureza pode ser parceira do homem. Tal afirmação perdeu sua evidência para o homem tecnológico e mais, ele nem ao menos vê seu sentido. O que o senhor pensa disso?
VSDB: Antes de se propor uma relação mais harmônica e menos predatória de nossa espécie com as outras, consideradas inferiores, é preciso engajar a ecologia nas lutas contra a exploraão de um indivíduo pelo outro em nossa própria espécie. Ou continuaremos contribuindo para romantizar as relações ser humano-planeta terra, e tornar as questões ecológicas cada vez mais supérfluas, elitistas e secundárias, reservadas apenas a um pequeno grupo de iniciados, que adoram discursar sobre os próprios umbigos. As árvores não são derrubadas, a fauna sacrificada ou o meio ambiente poluído por desconhecimento de nossa espécie dos impactos dessas ações sobre a natureza. Não é por falta de conhecimento ou de saber tecnológico que o meio ambiente é destruído, mas devido ao atual estágio de desenvolvimento existente nas relações sociais de nossa espécie. Certos caçadores e desmatadores, por exemplo, possuem muito mais conhecimentos sobre ecologia, natureza e a vida silvestre que muitos ecologistas, mas usam esses conhecimentos para destruir e matar.
Quais os maiores perigos que a humanidade pode experimentar, caso continue destruindo o meio ambiente?
VSDB: São vários os problemas, desde o risco hipotético mas não improvável de uma guerra nuclear, até o aquecimento global devido aos gases efeito- estufa, a perda maciça da biodiversidade, etc. Alguns especialistas têm destacado o crescimento populacional como sendo o mais grave, o que pode não ser verdadeiro, apesar da gravidade do problema. Em 90, 51,5% da população mundial tinha menos de 25 anos, segundo a ONU. Ou seja, somos um planeta com 2,7 bilhões de jovens, todos querendo emprego, melhor qualidade de vida e, naturalmente, filhos. Até quando o planeta conseguirá suportar a demanda? Mas quem sabe quanto de população o planeta é capaz de suportar? O problema não está só na quantidade de indivíduos, mas na forma como esse indivíduo vem tratando o planeta. Por exemplo, uma única pessoa vivendo em 20 mil hectares no meio da floresta amazônica, ou no Pantanal, pode causar mais danos com uso do fogo e moto-serra, que 2.000 pessoas com consciência ambiental num edifício de São Paulo. Ainda segundo a ONU, existem no planeta cerca de 1,1 bilhão de pessoas vivendo em absoluta pobreza, 1 bilhão de analfabetos e cerca de 13,5 milhões de crianças com menos de cinco anos que morrem de fome a cada ano. Dados como esses levaram a Conferência Mundial Sobre População e Desenvolvimento, realizada em setembro de 1994, no Cairo, Egito, a definir um programa para o controle da população mundial nos próximos 20 anos, como se o maior perigo para o planeta fosse a explosão demográfica nos países pobres. Mas e os países ricos? Quando serão obrigados a rever seu modelo predatório e socialmente injusto de desenvolvimento, baseado em lucros crescentes, que coloca um fardo ecológico excessivo sobre países pobres e em desenvolvimento, reduzidos à condição de meros exportadores de matérias primas e em lixeira do ‘primeiro mundo’ desenvolvido?
Em dezembro de 1997, a organização ambientalista Conservation International afirmou que o Brasil é o campeão mundial de biodiversidade. O que fazer para tornar útil sem destruir esta riqueza?
VSDB: Não há respostas prontas. Percebemos que os limites devem ser colocados caso a caso, em função das características de cada lugar. Isso pressupõe embate de idéias, possível apenas num ambiente democrático, principalmente com uma imprensa livre. Nossa geração tem um papel muito importante na história da humanidade. É a geração da transição entre duas visões distintas de mundo. Não temos todas as respostas, muito menos a solução de todos os problemas, mas já somos capazes de dizer não ao progresso sem limites e dizer sim ao progresso com responsabilidade ambiental, ainda que, às vezes, não saibamos direito que caminhos são os melhores para nos levar a esse novo desafio. Conforme já foi anunciado, o Brasil ocupa uma posição estratégica em termos mundiais devido à sua incomparável e rica biodiversidade. Se por um lado temos uma natureza exuberante, por outro carecemos de investimentos em pesquisa e na formação de mão-de-obra e estruturas que permitam o adequado aproveitamento e até mesmo a compreensão desta riqueza, o que nos tem conduzido a um tipo de garimpo muito mais predatório que o do ouro ou qualquer outro metal. O garimpo genético. Sem uma base legal adequada, o Brasil tem permitido que o saber dos índios e populações tradicionais sobre a biodiversidade seja apropriado por terceiros, sem que estes povos ou o próprio país receba uma contrapartida pelo uso dessa biodiversidade. O correto é que o conhecimento destes povos fosse respeitado e remunerado adequadamente e que as comunidades participassem conjuntamente dos projetos de pesquisa. Existe, hoje, no mundo, uma verdadeira guerra silenciosa dos países ricos, que detém a tecnologia contra os países pobres ou em desenvolvimento, que detém a biodiversidade. Durante a RIO 92 esse conflito ficou bem claro e os EUA simplesmente recusaram-se a assinar o tratado da Biodiversidade, enquanto não se reconhecesse sua propriedade sobre o conhecimento genético que possui de plantas e animais de outros países que, desnecessário dizer, foram retirados desses países sem seu consentimento, sem qualquer remuneração sobre as espécies ou sobre o saber dos povos tradicionais. A biodiversidade ficou assim reduzida à condição de armazém de fragmentos genéticos, transformados pelos laboratórios em mercadorias comercializáveis. Mais que a simples apropriação de uma espécie de planta ou bicho, é a apropriação privada da vida, que assume um valor monetário.
No livro Ecologia Para Ler, Pensar e Agir (Paulus, 94), o senhor fala que o mundo mais pacífico, justo, fraterno e ecológico não começa no outro, mas em nós mesmos. Por quê?
VSDB: Por trás de nossos problemas ambientais, não está apenas a ação de poluidores, o desmantelamento dos órgãos públicos de controle ambiental, ou a falta de consciência ambiental, mas também um tipo de atitude e valores, que julga natural explorar ao meio ambiente e aos nossos semelhantes para atingir um modelo de desenvolvimento que, por si só, gera agressões ambientais e problemas sociais. Logo, não basta exigir mudança de comportamento de empresas e governos. Precisamos ser capazes de enfrentar a nós prprios, pois não haverá planeta suficiente capaz de suprir as necessidades de quem acha que a felicidade e o sucesso estão na posse de cada vez mais bens materiais. Também não basta se tornar mais consciente dos problemas ambientais sem se tornar também mais ativo, crítico participativo. Em outras palavras, o comportamento dos cidadãos em relação ao seu meio ambiente, é indissociável do exercício da cidadania. Só que tem gente que acha mais fácil ficar reclamando que ninguém ajuda, mas não se pergunta se está fazendo a sua parte. Acha mais prático ficar esperando que o governo ou algum político salvador da pátria faça alguma coisa - afinal, costuma argumentar, já se paga tanto de impostos -, em vez de arregaçar as mangas por sua comunidade ou escola. Na base da falta de participação não está a ausência da consciência ambiental, mas de cidadania. Então, como convencer os outros a modificarem seus hábitos, se não modificamos os nossos primeiro? Como exigir que os poluidores deixem de envenenar o ar da comunidade, se os fumantes jogam sua fumaça no ar de quem está do lado, mesmo sabendo que incomoda e prejudica a saúde do vizinho? Se queremos uma natureza preservada, devemos começar mudando nossos hábitos, comportamentos e atitudes com o planeta, os animais, as plantas, o meio ambiente e, principalmente, com o nosso próximo, pois não há coerência em quem ama os animais e as plantas mas explora, humilha, discrimina, odeia seus semelhantes. Sem coerência, a comunicação é vazia, seja atuando em nível familiar, seja no bairro, seja através do próprio trabalho na escola, na Prefeitura, na comunidade, na empresa, sindicato etc
VSDB: Apesar da atual divulgação sobre meio ambiente, RIO 92 e políticas de proteção ambiental, a população mantém ainda uma visão simplista, superficial e romântica sobre a questão. Para a maioria, proteger o meio ambiente é proteger o verde, cuidar das plantas e árvores, não destruir florestas, não incendiar matas. Muito poucos tem noção da necessidade de relações mais harmoniosas entre o ser humano e a natureza. Talvez o mais difícil seja compreender que nossa espécie não é a dona do planeta, não pode fazer com a natureza o que quiser. Por mais especial que nossa espécie possa parecer, ela não é mais importante que qualquer outra, já que, na natureza, tudo está interrelacionado, “o que fere a Terra, fere também os filhos da Terra”, como já afirmou o cacique Seatle, em 1855, antes de inventarem o termo ecologia. E isso pode ser um duro golpe em nossa noção de importância, ao ponto de nos considerarmos à imagem e semelhança de Deus. Assim como a menos de cinco séculos tivemos de aceitar o fato de que nosso planeta não era o centro do Universo, hoje precisamos compreender que muito menos o Universo existe para nos servir. Não podemos usar e abusar do planeta, sem sofrer as conseqüências.
Segundo o historiador americano Lyn White, a origem do mal-estar ecológico está na atitude diante da natureza promovida pela religião judeu-cristã. Quanto à afirmação, o cristianismo é responsável ou não?
VSDB: Caso a religião judeu-cristã fosse a responsável por nossas relações predatórias com o planeta, não haveria poluição ou degradação ambientais em povos com outras religiões, como os maometanos, por exemplo. Países ateus, então, seriam paraísos ecológicos, e não é o que acontece. Os homens pré-históricos já tocavam fogo nas ravinas e florestas como técnica de caça para empurrar mamutes e dentes-de-sabre para lodaçais, para matá-los mais facilmente. Eles nem conheciam qualquer das religiões que existem hoje. Por outro lado, a religião insere-se num contexto cultural. Ao desmatar, queimar, poluir, utilizar ou desperdiçar recursos naturais ou energéticos, cada ser humano está reproduzindo o que aprendeu ao longo da história e cultura de seu povo. Portanto, ação destruidora não é um ato isolado de um ou outro indivíduo, ou responsabilidade de alguma religião, mas reflete as relações culturais, sociais e tecnológicas de sua sociedade. Por exemplo, é impossível pretender que seres humanos explorados, injustiçados e desprovidos de seus direitos de cidadãos consigam compreender que não devam explorar outros seres vivos, como animais e plantas, considerados inferiores pelos humanos. A atual relação de nossa espécie com a natureza é apenas um reflexo do atual estágio de desenvolvimento das relações humanas entre nós próprios. Vivemos sendo explorados, achamos natural explorar os outros.
Ultimamente, os “mass media” se lançaram em defesa da ecologia, ademais criaram-se cátedras universitárias de ecologia, enfim, observa-se uma “paixão ecológica”. Não existem interesses políticos e econômicos das grandes empresas e países desenvolvidos?
VSDB: Embora a população esteja usando cada vez mais roupas e objetos pessoais com marcas e mensagens de defesa da natureza, bem como lendo ou assistindo nos órgãos de comunicação notícias e programas sobre o assunto, isso não tem revertido em formação de consciência ambiental, mas apenas em maior volume de informação. No fundo, estas informações, apesar da boa intenção, só reforçam o preconceito de que ecologia é assunto de plantas e bichos. Uma questão muito simpática na visão da população, mas no mínimo secundária num país como o Brasil, com milhões de menores abandonados e gente passando fome. É importante combater a visão romântica da ecologia, afinal os seres humanos também fazem parte da natureza. Por outro lado, é natural que os ambientalistas fiquem satisfeitos ao ver dirigentes de países desenvolvidos, ditos de ‘primeiro’ mundo, levantarem a bandeira ambiental. É como se víssemos reconhecidas nossas lutas em defesa do planeta. Mas é preciso ver o que há por trás dessa súbita conversão à causa ambiental. Claro, que uma parte disso é devido à pressão da opinião pública, cada vez mais consciente dos problemas ambientais, mas não é só isso. É muito conveniente para as lideranças dos países do ‘primeiro’ mundo exigir dos países de ‘segundo’ e ‘ terceiro’ mundo que cuidem do meio ambiente. E é conveniente por diversos motivos. Passam a imagem de que estão avançados no cuidado ambiental e ainda aumentam seus lucros com a exportação de produtos para despoluição, controle e monitoramento ambiental, usam a questão ambiental como barreira comercial para sobretaxar produtos industrializados do ‘segundo’ e ‘terceiro’ mundo e, ainda lucram ao desviar a atenção da humanidade da base principal do problema: um modelo de desenvolvimento ‘vendido’ como o único possível, baseado na exploração ilimitada de recursos naturais e na super-exploração da mão de obra dos trabalhadores. O próprio conceito de países de primeiro, segundo e terceiro mundo já revela uma falsa ideologia, quando sugere uma corrida pelo desenvolvimento, onde os melhores chegaram primeiro e cabe aos demais seguir os mesmos passos. Essa visão é irreal pois pressupõe que o planeta e a ciência serão capazes de fornecer matérias primas, absorver resíduos e encontrar soluções para os problemas do crescimento indefinidamente. Esconde o fato de que, na hipótese de todos alcançarem um mesmo padrão de consumo que um Estados Unidos, por exemplo, serão precisos diversos planetas terras de recursos naturais. Lado a lado com a crise ambiental existe uma crise de justiça. Concentrar o discurso na crise ambiental é uma boa estratégia para países do primeiro mundo, grandes beneficiários e divulgadores do atual modelo predatório de desenvolvimento. É como se o discurso ambiental fosse uma espécie de cortina de fumaça para despistar a atenção da opinião pública para a crise de justiça, evitando serem desmascarados como vilões da humanidade.
A natureza pode ser parceira do homem. Tal afirmação perdeu sua evidência para o homem tecnológico e mais, ele nem ao menos vê seu sentido. O que o senhor pensa disso?
VSDB: Antes de se propor uma relação mais harmônica e menos predatória de nossa espécie com as outras, consideradas inferiores, é preciso engajar a ecologia nas lutas contra a exploraão de um indivíduo pelo outro em nossa própria espécie. Ou continuaremos contribuindo para romantizar as relações ser humano-planeta terra, e tornar as questões ecológicas cada vez mais supérfluas, elitistas e secundárias, reservadas apenas a um pequeno grupo de iniciados, que adoram discursar sobre os próprios umbigos. As árvores não são derrubadas, a fauna sacrificada ou o meio ambiente poluído por desconhecimento de nossa espécie dos impactos dessas ações sobre a natureza. Não é por falta de conhecimento ou de saber tecnológico que o meio ambiente é destruído, mas devido ao atual estágio de desenvolvimento existente nas relações sociais de nossa espécie. Certos caçadores e desmatadores, por exemplo, possuem muito mais conhecimentos sobre ecologia, natureza e a vida silvestre que muitos ecologistas, mas usam esses conhecimentos para destruir e matar.
Quais os maiores perigos que a humanidade pode experimentar, caso continue destruindo o meio ambiente?
VSDB: São vários os problemas, desde o risco hipotético mas não improvável de uma guerra nuclear, até o aquecimento global devido aos gases efeito- estufa, a perda maciça da biodiversidade, etc. Alguns especialistas têm destacado o crescimento populacional como sendo o mais grave, o que pode não ser verdadeiro, apesar da gravidade do problema. Em 90, 51,5% da população mundial tinha menos de 25 anos, segundo a ONU. Ou seja, somos um planeta com 2,7 bilhões de jovens, todos querendo emprego, melhor qualidade de vida e, naturalmente, filhos. Até quando o planeta conseguirá suportar a demanda? Mas quem sabe quanto de população o planeta é capaz de suportar? O problema não está só na quantidade de indivíduos, mas na forma como esse indivíduo vem tratando o planeta. Por exemplo, uma única pessoa vivendo em 20 mil hectares no meio da floresta amazônica, ou no Pantanal, pode causar mais danos com uso do fogo e moto-serra, que 2.000 pessoas com consciência ambiental num edifício de São Paulo. Ainda segundo a ONU, existem no planeta cerca de 1,1 bilhão de pessoas vivendo em absoluta pobreza, 1 bilhão de analfabetos e cerca de 13,5 milhões de crianças com menos de cinco anos que morrem de fome a cada ano. Dados como esses levaram a Conferência Mundial Sobre População e Desenvolvimento, realizada em setembro de 1994, no Cairo, Egito, a definir um programa para o controle da população mundial nos próximos 20 anos, como se o maior perigo para o planeta fosse a explosão demográfica nos países pobres. Mas e os países ricos? Quando serão obrigados a rever seu modelo predatório e socialmente injusto de desenvolvimento, baseado em lucros crescentes, que coloca um fardo ecológico excessivo sobre países pobres e em desenvolvimento, reduzidos à condição de meros exportadores de matérias primas e em lixeira do ‘primeiro mundo’ desenvolvido?
Em dezembro de 1997, a organização ambientalista Conservation International afirmou que o Brasil é o campeão mundial de biodiversidade. O que fazer para tornar útil sem destruir esta riqueza?
VSDB: Não há respostas prontas. Percebemos que os limites devem ser colocados caso a caso, em função das características de cada lugar. Isso pressupõe embate de idéias, possível apenas num ambiente democrático, principalmente com uma imprensa livre. Nossa geração tem um papel muito importante na história da humanidade. É a geração da transição entre duas visões distintas de mundo. Não temos todas as respostas, muito menos a solução de todos os problemas, mas já somos capazes de dizer não ao progresso sem limites e dizer sim ao progresso com responsabilidade ambiental, ainda que, às vezes, não saibamos direito que caminhos são os melhores para nos levar a esse novo desafio. Conforme já foi anunciado, o Brasil ocupa uma posição estratégica em termos mundiais devido à sua incomparável e rica biodiversidade. Se por um lado temos uma natureza exuberante, por outro carecemos de investimentos em pesquisa e na formação de mão-de-obra e estruturas que permitam o adequado aproveitamento e até mesmo a compreensão desta riqueza, o que nos tem conduzido a um tipo de garimpo muito mais predatório que o do ouro ou qualquer outro metal. O garimpo genético. Sem uma base legal adequada, o Brasil tem permitido que o saber dos índios e populações tradicionais sobre a biodiversidade seja apropriado por terceiros, sem que estes povos ou o próprio país receba uma contrapartida pelo uso dessa biodiversidade. O correto é que o conhecimento destes povos fosse respeitado e remunerado adequadamente e que as comunidades participassem conjuntamente dos projetos de pesquisa. Existe, hoje, no mundo, uma verdadeira guerra silenciosa dos países ricos, que detém a tecnologia contra os países pobres ou em desenvolvimento, que detém a biodiversidade. Durante a RIO 92 esse conflito ficou bem claro e os EUA simplesmente recusaram-se a assinar o tratado da Biodiversidade, enquanto não se reconhecesse sua propriedade sobre o conhecimento genético que possui de plantas e animais de outros países que, desnecessário dizer, foram retirados desses países sem seu consentimento, sem qualquer remuneração sobre as espécies ou sobre o saber dos povos tradicionais. A biodiversidade ficou assim reduzida à condição de armazém de fragmentos genéticos, transformados pelos laboratórios em mercadorias comercializáveis. Mais que a simples apropriação de uma espécie de planta ou bicho, é a apropriação privada da vida, que assume um valor monetário.
No livro Ecologia Para Ler, Pensar e Agir (Paulus, 94), o senhor fala que o mundo mais pacífico, justo, fraterno e ecológico não começa no outro, mas em nós mesmos. Por quê?
VSDB: Por trás de nossos problemas ambientais, não está apenas a ação de poluidores, o desmantelamento dos órgãos públicos de controle ambiental, ou a falta de consciência ambiental, mas também um tipo de atitude e valores, que julga natural explorar ao meio ambiente e aos nossos semelhantes para atingir um modelo de desenvolvimento que, por si só, gera agressões ambientais e problemas sociais. Logo, não basta exigir mudança de comportamento de empresas e governos. Precisamos ser capazes de enfrentar a nós prprios, pois não haverá planeta suficiente capaz de suprir as necessidades de quem acha que a felicidade e o sucesso estão na posse de cada vez mais bens materiais. Também não basta se tornar mais consciente dos problemas ambientais sem se tornar também mais ativo, crítico participativo. Em outras palavras, o comportamento dos cidadãos em relação ao seu meio ambiente, é indissociável do exercício da cidadania. Só que tem gente que acha mais fácil ficar reclamando que ninguém ajuda, mas não se pergunta se está fazendo a sua parte. Acha mais prático ficar esperando que o governo ou algum político salvador da pátria faça alguma coisa - afinal, costuma argumentar, já se paga tanto de impostos -, em vez de arregaçar as mangas por sua comunidade ou escola. Na base da falta de participação não está a ausência da consciência ambiental, mas de cidadania. Então, como convencer os outros a modificarem seus hábitos, se não modificamos os nossos primeiro? Como exigir que os poluidores deixem de envenenar o ar da comunidade, se os fumantes jogam sua fumaça no ar de quem está do lado, mesmo sabendo que incomoda e prejudica a saúde do vizinho? Se queremos uma natureza preservada, devemos começar mudando nossos hábitos, comportamentos e atitudes com o planeta, os animais, as plantas, o meio ambiente e, principalmente, com o nosso próximo, pois não há coerência em quem ama os animais e as plantas mas explora, humilha, discrimina, odeia seus semelhantes. Sem coerência, a comunicação é vazia, seja atuando em nível familiar, seja no bairro, seja através do próprio trabalho na escola, na Prefeitura, na comunidade, na empresa, sindicato etc























