Vilmar Berna

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Jornalismo em defesa do verde, por Marco Antonio Nascimento Rosa, publicada na revista Jornalismo em Ação, veículo de extensão universitária da UMESP Universidade Metodista de São Paulo

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Tsunami, Protocolo de Quioto, superaquecimento do planeta, racionamento de energia e de água, rodzio de veículos. Poucas vezes na história do Brasil vimos tanto a presença do meio ambiente em nossas mídias. Atualmente, sérios problemas ambientais ameaçam a sobrevivência no planeta. E isso tem gerado um mercado promissor para jornalistas, pois a cada dia o meio ambiente torna-se objeto de interesse de cada leitor, ouvinte, telespectador ou internauta. Entender o que ocorre na natureza e saber os meios de contribuir para uma melhor qualidade de vida num futuro próximo tornou-se o mais novo desafio de um público interessado em saber o que acontece no mundo.

Quem não ficou surpreso ao ver imagens do Tsunami ‘engolindo’ cidades inteiras da Ásia em dezembro de 2004 e não se interessou em saber como aquilo poderia ocorrer? E qual é o leitor que não se assusta ao ver as previsões de especialistas sobre um futuro com as cidades litorâneas alagadas, sem água potável e com um calor desumano?

O interesse do público pelo meio ambiente cresce a cada dia. Fato semelhante só ocorreu em 1992, quando o Rio de Janeiro foi sede da Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92. Vivendo o auge da 'febre ecológica', redações de todos os grandes jornais do Brasil mantinham repórteres de plantão em frente ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) para saciar a ânsia por notícias ambientais.

Porém, aquilo que tinha grande espaço na mídia, passou a ter suas editorias cada vez mais enfraquecidas, transformando-se posteriormente em sub-editorias, dividindo o espaço com temas como tecnologia, ciência e cidadania, até desaparecer de vez dos grandes noticiários. Para não dizer que o tema sumiu totalmente de pauta, vez ou outra, víamos noticiado um acidente em grandes proporções, como o derramamento de petróleo ou as freqüentes queimadas, os chamados ‘desastres ambientais’. “Na chamada 'grande mídia' a questão ambiental permanece com destaque na pauta geralmente enquanto o problema ambiental for visível”, afirma o jornalista Vilmar Berna, editor e fundador da Revista do Meio Ambiente. Ou seja, nada que pretenda mudar a atual atitude de desinformação ambiental e que invista numa nova educação ambiental, mostrando novas descobertas e denunciando transgressores do meio ambiente.

Tendência ao desastre

Essa volta do meio ambiente aos noticiários dos grandes veículos não pode ser vista somente com otimismo. Na dura realidade do jornalismo, o desastre sempre é mais noticiado que qualquer outro fato. Uma simples busca pela palavra ‘tsunami’ do material que foi publicado no site Folha Online indica 285 resultados. Enorme diferença quando falamos de ‘Quioto’, cidade japonesa sede da convenção mundial sobre mudança climática, que registra 36 páginas referentes ao assunto.

Afra Balazina, repórter da Folha de São Paulo que cobre o meio ambiente, confirma essa tendência dos grandes veículos darem mais ênfase aos desastres ao invés de alternativas ou descobertas do setor. “Fatos ruins são sempre mais noticiáveis que boas novidades do setor. Uma área contaminada, uma ocupação em área de proteção ambiental e o problema da possibilidade de faltar água são sempre notícia”, afirma.o lado da notícia

Apesar dessa tendência aos grandes acidentes ambientais, nem todos seguem a linha de notícia-espetáculo. Embora sem grande abrangência, o meio ambiente vem sendo noticiado há algum tempo. A partir da década de 90, a mídia especializada começa a tomar forma e passa a assumir a responsabilidade de noticiar o que ocorre longe de nossos olhos, mas exerce enorme influência sobre nossas vidas.

O jornalista Silvestre Gorgulho, fundador e diretor geral da Folha do Meio Ambiente, acredita que o jornalismo ambiental vive diferentes perspectivas nos veículos de comunicação. “O importante seria incluir a questão ambiental nos programas jornalísticos de grande alcance de público, mas a ‘grande mídia’ divulga o assunto apenas quando tem imagens fortes, incêndios, queimadas, derramamentos de óleo, poluição agressiva etc. Nos programas especiais, o meio ambiente é tratado pela curiosidade e pela beleza dos lugares, dos animais e da selva. Hoje, apenas a mídia ambiental trata a questão como um processo educativo, de mudanças nos padrões de consumo e de produção”, explica.

Para Berna, que fundou a Revista do Meio Ambiente em 1996, os veículos especializados possuem um papel diferente na sociedade, devendo complementar aquilo que não dá para ser tratado nos veículos de massa. “A grande mídia e a mídia especializada não são concorrentes, mas complementares entre si. Muitas críticas são feitas aos grandes veículos no tratamento que dão à questão ambiental, mas na verdade esse é um papel que não é seu, já que precisam manter um olhar amplo sobre os diversos assuntos que mobilizam a sociedade e seus leitores e isso inclui muito mais temas que só o ambiental. É aí que entra a mídia especializada, pois ela também aborda diversos assuntos, mas todos interligados direta ou indiretamente à questão ambiental”, explica o jornalista, que também é autor de cerca de 20 leis ambientais e escreveu 14 livros referentes ao tema.

Outro profissional que adquiriu respeito no meio especializado ao longo de anos de trabalho na área ambiental é o jornalista Adalberto Wodianer Marcondes, fundador, diretor e editor da agência e revista eletrônica Envolverde. Desde 1995 no mercado, a Envolverde conquistou uma posição de destaque no cenário editorial especializado e tornou-se referência no meio do jornalismo ambiental, fornecendo conteúdo para grandes veículos de comunicação do país.

Além do projeto Envolverde, Marcondes se destaca por outros trabalhos desenvolvidos na área ambiental. Atualmente ele é editor do suplemento Terramérica, projeto realizado com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e para o Desenvolvimento e que circula em jornais regionais do México à Argentina. Atua também como único correspondente internacional em São Paulo da Inter Press Service, agência que trabalha com o meio ambiente, desenvolvimento humano, cidadania, educação e saúde. Além disso, é um dos fundadores da Associação Brasileira de Mídias Ambientais, rede de sites e publicações que atua na área de meio ambiente.

Apesar da diminuição das editorias de meio ambiente, Marcondes vê uma alternativa para a solução desse problema. Segundo ele, todas as decisões que tomamos refletem no meio ambiente e aí está a importância do jornalista. “Nada existe independente do meio ambiente. Quando compramos algo que vem numa garrafa pet, numa lata de alumínio, numa garrafa de vidro, numa sacola de plástico ou numa embalagem de papel reciclado, tomamos decisões que impactam no meio ambiente. No jornalismo é a mesma coisa. Assim, comecei a colocar o viés ambiental nas minhas matérias. Em todas as editorias conseguimos abordar o meio ambiente. É um assunto que podemos tratar de forma transversal”, explica.

E é desse modo que vemos a volta do interesse do público pelo jornalismo ambiental. Fatos como o ‘apagão’ e a falta de água nas nascentes, a cobrança da taxa do lixo tratando a questão do destino dos resíduos para os já saturados aterros sanitários, o aquecimento global que gera o efeito estufa e o derretimento das calotas polares trouxeram um novo impulso ao jornalismo ambiental que passou a receber um tratamento diferenciado em outras editorias, mas sempre vistos sob o olhar crítico do meio ambiente.

Falta de Publicidade

“O grande problema é que as mídias ambientais não conseguem exercer adequadamente o seu papel. Não que isso ocorra por culpa das baixas tiragens (somadas atingem cerca de 1,5 milhão de exemplares mensais) ou da incompetência de seus editores, mas porque sofrem um verdadeiro bloqueio comercial por parte de empresas e agências de publicidade”, afirma Berna.

A ‘popularidade’ conquistada pela área ambiental nos últimos meses vai na contra-mão do número de anunciantes e patrocinadores que investem na causa ambiental. Vera Diegoli, é editora-chefe de um dos programas de maior história na área ambiental dos grandes veículos de comunicação, o Repórter ECO, da TV Cultura de São Paulo, no ar há mais de 13 anos. Mas nem isso o torna imune às crises do mercado. “Temos dificuldades diárias para conseguirmos verbas de viagens para os diversos cantos do país”.

Uma alternativa para os veículos especializados na busca por maiores recursos financeiros pode ser uma modalidade pouco conhecida e divulgada: o marketing ecológico. Trata-se de uma atividade de traz enorme retorno à imagem das empresas que financiam e investem na educação ambiental. Mas isso ocorre em baixo número. Segundo Gorgulho, em muitos casos, ocorre uma falta de visão de alguns publicitários que cuidam do setor. “É uma pena que o mercado publicitário, tanto por parte das agências, como por parte das pessoas que fazem o marketing das empresas, não tenha a consciência do retorno que se tem em investir em projetos sérios de meio ambiente, sobretudo nos projetos que promovem a educação ambiental”, explica.

Para Berna, “o curioso disso tudo, é que as mesmas empresas e governos que enchem as redações das mídias especializadas com releases, são as mesmas que excluem esses veículos de seus planos de mídia”.

Um outro fato que contribui muito para esse bloqueio comercial aos veículos especializados na área ambiental é a pequena quantidade de exemplares que apresentam a cada edição em comparação às grandes publicações, ou seja, a capacidade de público que se ‘compra’. É o que Marcondes credita como maior dificuldade no crescimento da mídia ambiental. . “Em um grande veículo, você é visto por milhares e milhares de leitores. Já as mídias especializadas vendem, no máximo, dez mil exemplares. Por isso, somos dependentes da boa vontade de algumas poucas empresas, ignoradas pelas agências de publicidade que repartem o bolo do financiamento editorial no Brasil, baseadas em uma estrutura voluntariosa de trabalho. Nós estamos diariamente com o ‘chapéu na mão’, buscando recursos para trabalhar. Todas as mídias ambientais que funcionam no Brasil são assim”.

Algumas vezes, a especialização pode até surtir efeito contrário. Quando mau usada, torna-se um fator negativo. É o que considera José Manoel, jornalista que cobre a área ambiental na Rádio Jovem Pan – AM. “Acho importante, mas não imprescindível que o profissional tenha conhecimentos técnicos. Às vezes, isso pode até mesmo atrapalhá-lo no relacionamento com um público leigo”, afirma José, que além de jornalista, é engenheiro e advogado, possuindo ainda mestrado na área da engenharia e duas especializações na área ambiental.

Apesar de exercer grande influência no modo de pensar do jornalista e mudanças na sua forma de trabalho, Berna acredita que a especialização deve ser uma decisão pessoal de cada profissional, já que esta opção não restringi-se somente ao campo do trabalho. “O engajamento com a causa ambiental, neste caso, não é do profissional de comunicação, mas do cidadão, e isso deve estar claro para não transformar o resultado do trabalho em panfletos ideológicos, onde só importa a opinião de um lado em detrimento de outras opiniões”.

Esse engajamento de editores é o que tem sustentado os veículos especializados ao longo dessa última década. Trabalhando com equipes reduzidas e superando dificuldades como a falta de patrocinadores, a mídia ambiental vem ganhando reconhecimento e despertando cada vez mais o interesse do público. Mas, que ainda caminha a passos curtos quando comparamos aos demais gêneros jornalísticos.
 

Business do Bem



Educação Ambiental
Entrevista com Vilmar Berna
(Págs. 32 a 39) –
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