Vilmar Berna

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Entrevista a Filipe Marcel

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Felipe: Os projetos como a Revista do Meio Ambiente podem ser confundidos com os trabalhos divulgados por ONG´s que ministram a luta pela manutenção do meio ambiente como o Greenpeace?

Vilmar: Confundido, pode, por que a visão e a consciência ambiental em nossa sociedade ainda são bastante insipientes. Entretanto, a chamada mídia institucional, esta a que você se refere, editada pelas ONGs, Governos, Empresas, etc., não podem se confundir com a mídia especializada em meio ambiente. A mídia institucional pauta os temas de acordo com o pensamento, as ações, os projetos, os interesses da organização que edita, focando no público-leitor associado. A mídia ambiental, como o JMA, não tem esse enfoque institucional e abre espaço para todos os seguimentos e interesses da sociedade. Na verdade, tratam-se de mídias complementares, mas cada qual com sua identidade própria.

Felipe: Quantos jornais isentos e imparciais buscam hoje informar o leitor sobre os abusos do ser humano diante da questão ambiental?

Vilmar: Não conheço nem jornais nem jornalistas "isentos e imparciais". O ser humano é por natureza parcial e movido a paixões e ideologias. Por isso a nossa preocupação em construir um veículo democrático, que abra espaço igualmente para todas as 'verdades' e versões da verdade' ambiental, ainda que isso desagrade alguns leitores que gostariam de ver apenas as 'verdades' de que gosta publicadas no jornal.

Felipe: Como separar uma mera informação jornalística do engajamento que muitas vezes direciona aqueles que informam ou apresentam uma denúncia?


Vilmar: Não tem como. O profissional da comunicação é quem deve se preocupar em assegurar espaço equivalente tanto para os que denunciam quanto para os que são denunciados, tanto para os que falam e escrevem apaixonadamente contra ou a favor de algum aspecto ambiental. Cabe ao leitor, e não ao editor ou ao jornalista, escolher que informação o leitor lerá. E é isso o que diferencia bem um veículo aberto de um veículo institucional, onde geralmente o que conta é a opinião, a ideologia, o pensamento, o engajamento da institução que financia o veículo.

Felipe: Qual a quantidade de processos impetrados por empresas que sentiram-se lesadas pela veiculação de notícias que desagradaram os acionistas?

Vilmar: Não faço a menor idéia. Mas, vivi a seguinte experiência:

Justiça brasileira condena injustamente jornal ambiental
O Jornal A Notícia (20/04/2001), de Schroeder - SC, publicou matéria assinada por Peterson Izidoro informando que o Ibama havia multado e interditado a produção da Natureza Central de Tratamento e Resíduos Ltda, comprovando a denúncia feita dois anos antes (junho 1999) pelo Jornal do Meio Ambiente, através do artigo assinado do colaborador Gert Fischer, Prêmio Global 500 da ONU, denunciando a empresa por enterrar resíduos sem tratamento no seu pátio, numa área de preservação de mata nativa em Schroeder, Norte do Estado de Santa Catarina, enquanto prometia inertizar esses resíduos na forma de lajotas e tijolos de cerâmica. A poucos metros do muro que isola a empresa, há um afluente do rio Itapocuzinho, que abastece parte da população de Guaramirim, e deságua no rio Itapocu, o maior da região.
Na época, o veículo foi processado pelo empresário sob o argumento de danos à imagem da empresa, e nem mesmo o fato de não ter citado o nome da empresa e do artigo ser assinado foi suficiente para livrar o veículo da condenação injusta. O Jornal está impedido de movimentar a pessoa Jurídica, Berna Educação Ambiental Ltda., enquanto não pagar a dívida de R$ 18.000,00 à empresa poluidora e veicular por três vezes o desmentido da notícia. O Veículo não pagou até hoje, pois não tem como pagar, e está tentando negociar com o empresário o perdão da dívida, e também não tem como publicar o desmentido conforme ordenado pela Justiça, já que a denúncia foi comprovada como verdadeira.

Felipe: O governo, seja estadual, municipal ou federal, são presentes na questão ambiental?

Vilmar: Cada vez mais presentes. Nas últimas duas décadas, não só aumento e muito a participação dos governos, mas também de empresas e políticos, uma conseqüência direta do aumento da consciência ambiental da sociedade.

Felipe: Qual o maior problema enfrentado hoje por estes profissionais do jornalismo?


Vilmar:
são vários: falta de veículos com sustentabilidade econômica, falta de cursos de capacitação em comunicação ambiental, etc.

Felipe: Por quê matérias como Lei da Biossegurança, Transgênicos, devastação da Amazônia, poluição do ar, contaminação da água ainda são tratados por aqueles que tem verdadeiro amor - logo um certo comprometimento em noticiar tais assuntos – e rechaçado pelas grandes empresas e leitores que desconhecem os possíveis impactos.

Vilmar:
Porque existem dois modelos de desenvolvimento, um tradicional, que nos trouxe até aqui, onde o meio ambiente é apenas um obstáculo no caminho do 'progresso humano' e outro, novo, novíssimo, chamado de sustentável. Os jornalistas ambientais mostram as mazelas do primeiro modelo e apontam para o segundo. Aqueles que se acostumaram a ganhar com o primeiro modelo não estão interessados em mudanças, muito menos em financiar veículos que ponham em risco suas formas tradicionais de exploração, ainda assim, precisamos continuar lutando.

Felipe: Teria alguma informação adicional para passar para os leitores do Novo Momento, futuros profissionais da comunicação que certamente enfrentarão o dilema de denunciar o abuso de uma grande indústria ou ficar com o silêncio na espera do poder público.

Vilmar: Assinem a Revista do Meio Ambiente e ajudem a sustentar a mídia ambiental independente.


 

Business do Bem



Educação Ambiental
Entrevista com Vilmar Berna
(Págs. 32 a 39) –
Versão PDF

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