Vilmar Berna

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Entrevista a Rafaela Lobato sobre "Jornalistas engajados no movimento ecológico"

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Rafaela: É possível fazer jornalismo e ao mesmo tempo lutar por uma causa?

Vilmar: não só é possível como é fundamental quando esta causa é, por exemplo, a ambiental. Como jornalistas ambientais tomamos conhecimento todo dia sobre a situação para o bem e para o mal do ambiente em que vivemos e procuramos refletir isso em nossas matérias. Enquanto seres vivos extremamente dependentes deste meio ambiente agredido não podemos ficar insensíveis a estas agressões, daí o natural engajamento em causas e idéias que levem a um outro modelo de estar neste meio ambiente, mais responsável e consciente. O problema é não deixar que a defesa de uma causa atrapalhe o exercício profissional, por exemplo, deixando de ouvir a versão dos que estão na trincheira oposta à que defendemos.

Rafaela: É possível lidar com esse segmento sem tornar-se um ativista?

VB: é, como é possível a um correspondente de guerra constatar atrocidades contra civis inocentes e fazer de conta que não é com ele, que não pode fazer nada para ajudar, que deve permanecer 'neutro' diante das agressões. Alguns poderão dizer que se trata de um bom profissional, mas não será um ser humano tão assim. Tudo se resume a escolhas e valores.

Rafaela: É possível fazer jornalismo de qualidade sem estar ligado ao movimento?

VB: claro, estar engajado na causa ambiental não significa necessariamente fazer parte do movimento enquanto instância organizada da sociedade. Pode ser uma ação individual somente. Não acredito em jornalismo isento, por que não existe ser humano isento. Mesmo quando você escolhe não escolher, faz uma escolha, e às vezes esta pode ser a pior delas.

Rafaela: O engajamento colabora ou dificulta o trabalho jornalístico?


VB: é relativo. Por exemplo, um jornalista que trabalhe para uma ONG, como o Greenpeace, pode ter o seu trabalho facilitado se for também engajado nas causas que a ONG defende, ou dificultado, se defender uma causa contrária à da ONG. Este mesmo profissional, trabalhando no setor de comunicação de uma empresa ligada aos setores questionados pelos ambientalistas, como o nuclear e os transgênicos, viveria a mesma situação, dificuldades se fosse engajado em causas ambientalistas e facilidades se acreditasse nas causas do nuclear e dos transgênicos. O importante ao assumir que não existe neutralidade em jornalismo é o profissional passar a desconfiar de si próprio. Assim, se estiver dirigindo-se ao público geral deve ter a clareza que esse público pode não estar esperando dele o que ele pensa ou deixa de pensar sobre um determinado assunto, mas o que está acontecendo de verdade com as questões ambientais, quais são as diferentes idéias e forças envolvidas, para que o leitor possa formar o seu conceito de valor e atuar nessa realidade. O engajamento do profissional com um lado ou outro da causa não deve prejudicar o seu entendimento da realidade.

Rafaela: O que falta para que o jornalismo ambiental seja de qualidade?

VB: mais investimento na capacitação e treinamento dos profissionais que atuam na área e instrumentos inovadores que assegurem o financiamento da informação ambiental de tal forma a que não fiquem subordinadas às forças de um mercado que não tem o menor interesse na existência de uma mídia crítica e independente, daí não incluem estas mídias em seus planos de mídia.

Rafaela: Quais os desafios para os futuros jornalistas no jornalismo ambiental?


VB: São muitos, certamente a democratização da informação ambiental é um deles. As pessoas se mobilizam para exercer a sua cidadania, ou procuram estudar e se qualificar melhor, ou procuram mudar de comportamento a partir da informação. Se esta chega deturpada, em número insuficiente, ou desqualificada, a percepção do público também estará prejudicada. E, sem informação, como pode haver diálogo entre diferentes, como se estabelecerão parcerias em direção a um novo modelo de desenvolvimento mais sustentável, como será possível implementar uma Agenda 21? Outro aspecto que desafia os jornalistas ambientais é: como informar adequadamente sobre o meio ambiente, se as aspirações em nossa sociedade são baseadas mais em valores de consumo materiais que em valores espirituais, culturais ou artísticos, por exemplo? Frei Beto, em seu artigo Viagens Interiores (O Globo, 13/07/98) nos chama a atenção para o que andamos vendo nas propagandas, novelas, filmes, etc. Bastam alguns minutos à frente da televisão para percebermos que defeitos como inveja, orgulho, cobiça, avareza, luxúria, gula, preguiça - bases do consumismo desenfreado que gera esgotamento dos recursos naturais e poluição do planeta, por um lado, e injustiça social e concentração de renda, por outro - foram transformados em valores a serem perseguidos, como se o planeta tivesse recursos naturais em abundância para atender ao sonho de consumo de todos. O preço que pagamos pode ser visto por todo o lado. Não só no esgotamento e na poluição do planeta, mas também na miséria. A primeira grande barreira a ser vencida é o verdadeiro bloqueio econômico de agências de publicidade, Secretarias de comunicação de governos e departamento de comunicação de grandes empresas, que simplesmente fingem desconhecer o segmento das mídias ambientais, apesar de sua importância como agentes de disseminação de informação ambiental. Apesar do reconhecimento público da importância das mídias ambientais, não é só a ampliação da tiragem, do número de páginas e da periodicidade que está ameaçada, mas a própria continuidade dos atuais veículos. O que parece uma simples questão econômica, na verdade tem sido uma forma de impedir o crescimento e até a manutenço de veículos de meio ambiente, que são estratégicos para a democratização da informação ambiental no Brasil. Sem veículos fortes economicamente, também não há muita esperança de emprego para jornalistas ambientais, e tanto os proprietários dos veículos ambientais, quanto os jornalistas especializados em meio ambiente, acabam dedicando-se à democratização da informação ambiental em nosso País muito mais por amor, por ideologia, que por interesse comercial. Claro que isso precisa mudar. E os instrumentos estão aí. Os países membros da ONU aprovaram durante a RIO 92 a Agenda 21, como um roteiro a ser seguido em direção ao desenvolvimento sustentável. Em seu capítulo 40, sobre Informação Para a Tomada de Decisões, os signatários recomendam que "sempre que existam impedimentos econômicos ou de outro tipo que dificultem a oferta de informação e o acesso a ela, particularmente nos países em desenvolvimento, deve-se considerar a criação de esquemas inovadores para subsidiar o acesso a essa informação ou para eliminar os impedimentos não econômicos." Os representantes dos países signatários justificam essa medida ao reconhecer que "em muitos países, a informação não é gerenciada adequadamente devido à falta de recursos financeiros e pessoal treinado, desconhecimento de seu valor e de sua disponibilidade e a outros problemas imediatos ou prementes, especialmente nos países em desenvolvimento. Mesmo em lugares em que a informação está disponível, ela pode não ser de fácil acesso devido à falta de tecnologia para um acesso eficaz ou aos custos associados, sobretudo no caso da informação que se encontra fora do país e que está disponível comercialmente.
 

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Educação Ambiental
Entrevista com Vilmar Berna
(Págs. 32 a 39) –
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