Vilmar Berna

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A floresta além das árvores

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Vilmar Berna

Já dizia Mahatma Ghandi: “A Terra tem o suficiente para a necessidade de todos, mas não para a ganância de uns poucos"

É preciso, na verdade, é urgente, mudar nosso estilo de vida a fim de assegurar a preservação do meio ambiente e isso além de não ser uma tarefa pequena, não é nada fácil, por que estamos falando de mudança, e mudar não é fácil, ainda mais quando o tipo de mudança necessária requer não apenas nosso esforço pessoal, mas também o esforço de toda uma coletividade planetária. Se quando depende apenas de nós já pode ser bem difícil! Quem tenta largar um vício ou emagrecer sabe do que estou falando. Imagine então um tipo de mudança que exige o esforço coletivo! Ainda assim, não temos alternativas.

O que está em jogo não é sobrevivência de um ou outro indivíduo, ou mesmo de um coletivo nacional, mas da espécie humana inteira, sem exagero! O atual estilo de vida humano está pondo em risco o futuro tanto das presentes gerações quanto das que nem nasceram ainda, mas que já dependem de nossas decisões. Nossa espécie está consumindo em torno de 20% a mais do que o Planeta consegue repor, segundo estudo realizado por 1.300 cientistas de 95 países. E como as relações entre as pessoas, as organizações e as nações não são iguais, uns conseguem explorar mais que outros. Segundo o Relatório Planeta Vivo – WWF, os povos da África e Ásia, por exemplo, usam em torno de 1,4 hectares por pessoa, os brasileiros usam em média 2,3 hectares, enquanto os povos da Europa Ocidental usam cerca de 5 hectares por pessoa. Nos EUA, cada norte-americano consome o equivalente a 9,6 hectares de recursos do Planeta.

Com menos de 5% da população mundial, os Estados Unidos consomem 26% do petróleo, 25% do carvão mineral e 27% do gás natural mundial. Os automóveis, que rodam nos Estados Unidos, representam um quarto da frota mundial e emitem mais carbono do que todas as fontes – indústria, transporte, agricultura, energia – do Japão, o quarto país na lista mundial de emissões de poluentes. As conseqüências destas emissões, porém, recaem sobre os países pobres, mais vulneráveis às mudanças climáticas. Dos 700 desastres naturais registrados em 2002, 593 foram relacionados a eventos climáticos.

Os limites de nosso crescimento e a mudança na maneira de produzir e consumir os recursos do Planeta precisa ser negociado com a sociedade, por isso é tão importante e estratégico mantê-la bem informada. Se as informações forem falsas, incompletas, mentirosas ou baseadas em fantasias e mitos, nossas escolhas serão influenciadas por elas. A conscientização do brasileiro em relação ao Meio Ambiente aumentou 30% nos últimos 15 anos. (MMA/Iser 2005), o que nos dá motivos para ter esperanças, pois isso tem motivado mudanças concretas como a maior organização da sociedade na luta por seus direitos ambientais com as chamadas ONGs, organizações não-governamentais, dedicadas às lutas ambientais. Surgiu ainda uma legislação ambiental, que se torna mais rigorosa a cada dia.

O próprio surgimento da mídia ambiental e o aumento do espaço para a pauta ambiental nos veículos da chamada Grande Mídia. A cada dia são criados novos cursos na área ambiental e realizados feiras, seminários, palestras sobre meio ambiente. Outro indicador importante é o número de novos livros dedicados ao tema ambiental. Os políticos e administradores públicos estão cada vez mais envolvidos com a causa ambiental e preocupados em dar retorno ao seu eleitorado. As empresas, mesmo as mais poluidoras, estão adotando sistemas de gestão ambiental, estão buscando a ecoeficiência, valorizando selos e prêmios ambientais, combatendo a poluição. Definitivamente, este é um caminho sem voltas pois a tendência é de aumentar a cada dia a consciência ambiental na sociedade. Resta saber se o Planeta conseguirá sustentar a vida humana pelo tempo necessário até que todas as mudanças que estão em curso consigam produzir seus efeitos. Torço para que tenhamos tempo. Na verdade, trabalho por isso, pois tenho netos, e quero o melhor para eles e os filhos deles.

Tem sido estratégico neste processo de tomada de consciência da Sociedade a existência do jornalismo ambiental e de uma mídia ambiental alternativa, independente, capaz de olhar a floresta além das árvores. Ao informar o público e alertar as pessoas sobre os perigos ambientais que a cercam, a imprensa permite às pessoas recorrerem à ação para protegerem o meio ambiente. E diante do agravamento do superaquecimento do planeta e suas conseqüências o interesse do público pelo meio ambiente irá crescer a cada dia significando maior demanda por informação ambiental de qualidade.

Lideranças da sociedade civil organizada já revelam sua preocupação com a falta de informação ambiental a ponto de incluí-la, ao lado da educação ambiental, entre os três principais problemas ambientais brasileiros.

Pesquisa de opinião com 1.141 dos 1.337 delegados participantes da "II Conferência Nacional de Meio Ambiente", entre 10 a 13 de fevereiro de 2005. O principal problema codificado foi o desmatamento (28%), seguido de recursos hídricos/Água (13%) e falta de informação sobre Meio Ambiente e Educação Ambiental (11%). A pesquisa foi realizada pelo ISER a pedido da Secretaria de Políticas para o Desenvolvimento Sustentável (SDS).

Quando falo de informação ambiental de qualidade falo de uma informação que mostre os fatos geradores da crise ambiental, para que as pessoas tomem consciência e possam atuar sobre as causas e não apenas sobre os efeitos. Um tipo de informação que mostre as raízes de nossos problemas ambientais e não apenas que reforcem uma visão romântica do quanto a natureza é linda ou é vítima de nossa ganância.

Quando falamos em mudança, é preciso investigar as raízes verdadeiras da crise ambiental, para não nos iludirmos com mudanças cosméticas ou investir nossas energias e esforços apenas na minimização dos efeitos da crise ambiental sem tocar nas causas. Por exemplo, é ilusão é achar que a ciência e a tecnologia limpa serão capazes de dar conta da crise ambiental, ou que a simples existência de informação ambiental e educação ambiental serão capazes de nos conduzir para fora da crise. Não vão por que por detrás da crise não está ausência de ciência, de tecnologia, de informação ou educação ambiental, mas sim uma estrutura de apropriação de recursos e de acumulação de riquezas que irá perdurar independente se a tecnologia é suja ou limpa, se existe ou não democratização da informação ambiental ou educação ambiental. Entretanto, se a ciência e a tecnologia, a informação e a educação ambiental, por si só, não são capazes de solucionar os problemas provocados pela crise ambiental, sem elas é que a sociedade não terá a menor chance de sair dessa crise.

Por outro lado, também é uma ilusão achar que o mundo melhor que queremos, mais ecológico, justo, pacífico, democrático, começa no outro, depende dos governos, das empresas, do vizinho. Confúcio disse, há cerca de 5 mil anos, que se alguém quisesse mudar o mundo, teria de come çar por si próprio, pois mudando a si próprio, sua casa muda ria. Mudando sua casa, a rua mudaria. Mudando a rua, o bairro mudaria. Mudando o bairro, mudaria o município e assim por diante, até mudar o mundo. Na verdade, são lutas consecutivas. Ao mesmo tempo em que temos de nos preocupar em ser pessoas melhores, menos poluidoras, menos desperdiçadoras de recursos naturais, menos egoístas e materialistas, também precisamos ser melhores consumidores, capazes de dizer não aos produtos de empresas que não respeitam o meio ambiente e as pessoas, e também melhores cidadãos, evitando resumir nossa cidadania ao ato de votar a cada eleição, mas transformar o voto num instrumento de transformação da realidade, acompanhar o mandato dos que elegemos para cobrar deles posturas e ações que sejam do interesse do meio ambiente e da população. E esse exercício da cidadania não deve se resumir apenas ao aspecto eleitoral, mas incluir a atuação direta, por exemplo, através da sociedade civil organizada, pois quanto mais organizados estivermos, mais fortes e menos vulneráveis seremos.


As raízes da crise ambiental

Na raiz de nossos problemas ambientais existe um modelo econômico que tem sido perverso e predatório não apenas contra o meio ambiente, mas também com os próprios seres humanos. Ao mesmo tempo que este modelo se apropria dos recursos naturais e gera depredação ambiental, acumulando riquezas extraordinárias, por todo lado, produz miséria e mortes que poderiam ser evitadas. Com a globalização, este modelo econômico predatório passou a estar presente em todos os cantos do Planeta e é uma das principais causas da deterioração ambiental, pois usa o Planeta como se fosse um armazém de recursos infinitos, por um lado, e uma enorme lixeira, por outro.

O que sustenta este modelo é a busca permanente do lucro. Não há nada de mal em se pretender obter lucros numa atividade, mas não a qualquer custo, desrespeitando a natureza e as pessoas, tratando o que pertence a todos, como o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, como se fosse um bem "gratuito" e pudesse ser apropriado por uns poucos, como infelizmente, vem acontecendo. Por causa disso, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), nos países pobres do hemisfério sul, um bilhão de pessoas não dispõe de água potável, 1,3 milhão está exposto à fuligem e à fumaça. Quase um quarto da população mundial se alimenta a um custo de três dólares por dia e essa situação tem se agravado. Em 1982, havia trinta países pobres; no ano de 2000, esse número chegou a 47. Segundo o Instituto Worldwatch, as doenças infecciosas – muitas delas relacionadas à qualidade da água – atualmente matam duas vezes mais do que câncer. A falta de água limpa ou saneamento mata 1,7 milhões de pessoas por ano, 90% das quais são crianças. Boa parte das guerras ou conflitos armados dos últimos anos é ligada ao controle de minorias econômicas ou étnicas sobre recursos naturais valiosos, sejam eles minérios, pedras preciosas, petróleo, água ou madeira. Os gastos militares de 2001 foram estimados em 839 bilhões ou 2,3 bilhões por dia (segundo PNUD). Os Estados Unidos respondem por 36% deste total mundial.

Não basta apenas fazer a coleta seletiva de lixo, plantar árvores, tratar esgotos, reduzir consumo, etc. É preciso também combater este sistema econômico concentrador de renda, responsável, em última análise, pela poluição e a degradação ambiental e também pela fome, pelas mortes que poderiam estar sendo evitadas.

Que valor tem um mico-leão ou um ecossistema inteiro para uma jovem mãe que não tem o que fazer para alimentar os próprios filhos, ou para alguém que não consegue se libertar das drogas, ou vive na solidão, ou não consegue ser feliz? Pessoas infelizes, solitárias, exploradas, humilhadas tendem a não conseguir estender o olhar além de sua própria miséria pessoal. Como serão capazes então de sensibilizarem-se com a superexploração do Planeta, a poluição e destruição do meio ambiente, a extinção de espécies da fauna e da flora, se elas próprias se sentem ameaçadas de extinção? Segundo a OMS – Organização Mundial de Saúde, 19% de todas as mortes no Brasil poderiam ser evitadas. 84% da população reside nas cidades onde a poluição do ar urbano mata 12,9 mil pessoas/ ano. 22% das pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, a deficiência de água tratada e de redes de esgoto tira a vida de 15 mil brasileiros/ano. No mundo a situação é pior. Cerca de 13 milhões de mortes poderiam ser evitadas por medidas que tornassem o meio-ambiente mais saudável, disse a OMC. Quantas vezes ouvimos alguns dizerem que as lutas ambientais não são para países pobres ou em desenvolvimento, mas apenas para países ricos, que já resolveram a maior parte de seus problemas. Revelam uma visão romântica da natureza, como se a espécie humana não fizesse parte dela.

Por outro lado, só serão capazes de se dedicar às lutas socioambientais pessoas ricas, saudáveis, amadas e felizes? Em mais de duas décadas de militância convivi com parceiros e companheiros e companheiras de luta muitos já idosos, outros portadores de doenças graves, ou desempregados, ou pobres, mas que sempre encontraram - e ainda encontram – dentro de si a força e a capacidade de continuar lutando por causas coletivas, como as ambientais.

Que mistérios movem o espírito humano que faz as pessoas superarem condições existenciais injustas e mesmo a se superarem em capacidades e talento para se dedicar a lutas como as ambientais, sem expectativa de algum ganho financeiro ou vantagem de qualquer natureza? E em boa parte dos casos sequer contarão com o conforto da vitória, pois geralmente se luta contra interesses econômicos e políticos poderosos! Muito menos devem contar com o reconhecimento da sociedade cuja opinião pode ser manipulada por pessoas inescrupulosas e gananciosas que colocam os ambientalistas contra a população, como se estes fossem inimigos do progresso, do emprego.

O que faz pessoas comuns se transformarem em guerreiros incansáveis na luta pela defesa do meio ambiente, muitas vezes tirando energia da própria sobrevivência pessoal ou de sua família? O que faz essas pessoas mesmo ameaçadas de morte continuarem lutando pelo direito de todos, a ponto de perderem a própria vida, assassinados, como Chico Mendes, Dionísio, no Tinguá (RJ), Paulo Vinhas, no Espírito Santo, e tantos outros mártires da causa ambiental no Brasil? O que faz uma pessoa como o Francelmo atear fogo no próprio corpo, em praça pública, numa tentativa de proteger o Pantanal ameaçado por usineiros de álcool e outros projetos predatórios?

Da mesma maneira, e por outro lado, o que existe no espírito dessa grande maioria de pessoas que, mesmo conscientes e sabedoras da gravidade dos problemas ambientais, ou da dor de semelhantes, escolhem ficar indiferentes, escolhem não lutar, escolhem usar a inteligência para encontrar desculpas para não fazer nada, em vez de arranjar um jeito de fazer alguma coisa?

O nome seria amor? Existem pessoas que amam demais, a ponto de entregarem seu talento, seu tempo e até mesmo sua vida pelo outro em sua acepção mais ampla, a ponto de incluir não só nosso semelhante, mas as plantas, os animais, o planeta inteiro? Existem pessoas incapazes de amar, de serem solidárias com o outro, que vêem apenas a si próprias e aos seus interesses? O Papa disse certa vez que o capitalismo falhou com a humanidade em não acabar com a pobreza, ao se transformar numa ferramenta eficaz de acumular riquezas, mas não de distribuir estas riquezas. Neste sentido, creio que cabe também dizer que as religiões falharam ao não conseguirem que as pessoas priorizassem em suas escolhas a solidariedade em vez da competividade, do individualismo, da ganância; o cultivo do ser, da espiritualidade, em vez do ter, do materialismo, raízes do estilo de vida humana sobre o Planeta e que está levando ao rápido esgotamento dos ecossistemas, à degradação e à poluição.

Normalmente, diante da grandeza e da enormidade dos problemas ambientais, as pessoas costumam imaginar que a saída está no progresso da ciência e da tecnologia, como se a ciência fosse neutra e não fosse a responsável, por exemplo, pelas bombas atômicas ou pela tecnologia suja que queima combustíveis fósseis. Alguns preferem acreditar no senso de sobrevivência da humanidade e na tomada de consciência da opinião pública, mas esquecem que a maioria também erra, como no caso da crucificação de Jesus Cristo, ou na eleição de Hitler. Outros preferem apostar no surgimento de novos políticos, mais conscientes e comprometidos com os interesses do povo e não dos seus próprios. O que há de comum em pessoas que pensam assim é que o mundo melhor que imaginam, começa no outro, depende do cientista, do instinto de sobrevivência ou dos políticos. Esquecem que o mundo melhor que queremos depende de todos, claro, mas começa em nós, principalmente.

De nada adianta uma nova ciência ambiental e novas tecnologias limpas se continuarmos usando o Planeta e o próximo como se fossem descartáveis. A reciclagem das latinhas de alumínio no Brasil, por exemplo, não serviu para diminuir a produção de alumínio e assim poupar o Planeta. Ao contrário, serviu para que a indústria do alumínio pudesse lucrar mais vendendo a produção excedente para outros países que preferem não destruir e poluir o solo com a exploração da bauxita, nem arcar com a construção de novas fontes geradoras de energia para produzir alumínio.


Mitos e verdades ambientais

Ao nos propormos a contribuir com a democratização da informação ambiental para que a sociedade desperte, precisamos tomar cuidado para não sermos agentes do seu adormecimento, daí a responsabilidade de todos, em especial dos profissionais dos setores da comunicação e da educação em não se deixarem manipular e se manterem críticos e alertas. Uma informação ambiental superficial pode gerar ainda mais dúvidas e confundir o público em vez de ajudar na direção de um modelo de desenvolvimento ambientalmente sustentável e socialmente mais justo. A divulgação de mentiras e meia-verdades, e de mitos como se fossem verdade é uma estratégia para manter o domínio sobre a opinião pública, uma espécie de novo colonialismo, pela informação.

Existe uma espécie de guerra oculta pelo domínio da opinião pública. Quem não lembra da Indústria do Tabaco que durante 40 anos manteve a opinião em dúvida sobre os males do fumo e não teve problemas nem preocupações para encontrar e contratar cientistas que ajudaram a indústria a enriquecer enquanto milhões contraíam câncer! Quando o furacão Katrina arrasou Nova Orleans, o jornalista Ross Gelbspan, do Boston Globe, ilustrou bem a questão ao escrever:

"Deram ao furacão o apelido Katrina, mas seu verdadeiro nome é aquecimento global. Infelizmente, pouquíssimas pessoas na América conhecem o verdadeiro nome do furacão, porque as indústrias de carvão e petróleo gastaram milhões de dólares para manter a opinião pública em dúvida sobre o assunto".

O termo desenvolvimento sustentável virou palavra de ordem e senso comum entre empresários, ambientalistas, governantes, mas é preciso estar alerta sobre possíveis desvios de interpretação. Na sua origem, o termo propunha designar um tipo de modelo de desenvolvimento que assegurasse o atendimento das necessidades e a qualidade de vida das presentes gerações sem comprometer esta mesma qualidade de vida para as gerações futuras.

Entretanto, temos visto o termo desenvolvimento sustentável sido empregado muito mais como sustentabilidade econômica, e não ambiental ou social. O argumento é que, para haver desenvolvimento sustentável, preservação ambiental, investimentos em projetos de responsabilidade sócio-ambiental é preciso primeiro, e sobretudo, haver lucros. Na verdade, são novas palavras para a velha idéia de que é preciso deixar o bolo crescer antes de pensar em dividi-lo. Esta receita de bolo tem sido extremamente útil para gerar acúmulo de riquezas, mas não para distribuir riquezas.

Não é à toa que o Brasil encabeça a lista das nações do mundo com pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e com uma das maiores concentrações de renda do Planeta. Uma breve comparação entre o que as empresas lucram tirando recursos do Planeta e o que devolvem em projetos sócio-ambientais mostram que enquanto o bolo cresce enormemente por um lado, enquanto o meio ambiente e a sociedade têm de se contentarem com as migalhas desse crescimento. A velha tática continua de capitalizar lucros e socializar prejuízos, repassando à sociedade os custos de conviver com ambientes poluídos e degradados.

A idéia de que a preservação ambiental é um entrave ao crescimento é outro desses mitos que merece atenção, pois deforma a capacidade de percepção das pessoas. Se o mito for verdadeiro, onde a natureza foi destruída então existe - ou resultou em - crescimento! E a realidade mostra que isso é falso. Segundo o relatório "Situação das Florestas no Mundo", publicado pela FAO - Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, o Brasil é o maior desmatador da América do Sul e responde por 73% das perdas florestais na região. Nem por isso o Brasil está entre os países mais ricos do mundo, muito pelo contrário!

Segundo o Relatório de Desenvolvimento da ONU, de 2005, o Brasil está entre os três piores índices de desenvolvimento humano do mundo todo, só perdendo para a Namíbia e Serra Leoa. Uma rápida olhada no mapa da fome (IBGE) do Brasil mostra claramente que, onde a natureza é mais agredida - em nome de um pretenso crescimento - é onde há mais fome, desemprego, pobreza! O economista Carlos Eduardo Frickmann Young, do Instituto de Economia da UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro realizou um estudo revelador que desmascara este mito. Entre 1985 e 1996, nos estados do Sul e do Sudeste, houve aumento de mais de 1 milhão de hectares de áreas desmatadas. No mesmo período e região houve a redução de 2,4 milhões de postos de trabalho na agropecuária.

É mito a idéia de que o crescimento econômico deve ser permanente e todos os países devem se envolver na corrida por este desenvolvimento. O mundo chega a ser dividido em ´países de primeiro mundo´, os vencedores, os que chegaram ao topo do desenvolvimento, e ´países de segundo e terceiro mundo´, perdedores, que tem de correr atrás do prejuízo para se tornarem, quem sabe, um dia, se se esforçarem muito, em ´países de primeiro mundo´. Essa idéia só seria verdadeira se, ao chegarem todos ao mesmo nível de consumo que os ´países de primeiro mundo´, haveria recursos no planeta para todos. E não existe. A queima de combustíveis fósseis praticamente quintuplicou desde 1950 mas o quinto mais rico da população mundial consome cerca de 53% do total. Então, mais um país com o mesmo nível de consumo de energia que os EUA, por exemplo, e já teríamos de ter outro Planeta Terra de recursos!

As empresas adoram dizer que respeitar o meio ambiente custa caro para elas, mas isso é outro mito, na verdade uma mentira. Segundo Bob Willard, que pesquisou o assunto, empresas que adotam valores ambientais conseguem um aumento potencial de lucro de até 38% e a produtividade em até 8% (Fonte: "The sustainable Advantage - Seven business Case Benefits of a Tripple botton Line" - www.sustainabilityadvantage.com ).


O financiamento da informação ambiental

Ao divulgar os problemas ambientais, a mídia naturalmente ameaça privilégios e interesses poderosos e por isso corre riscos e sofre com a falta de financiamento, o que obriga os veículos da mídia ambiental a manterem baixas tiragens e dificuldades de sobrevivência. Se somarmos todas as tiragens dos veículos impressos especializados em meio ambiente, e acrescentarmos os acessos aos sites e portais de meio ambiente, ainda estaremos longe de alcançar uns 5% da população brasileira. Então, sem perder nossa independência crítica, o desafio é conseguir recursos para o financiamento da informação ambiental e assim assegurar a continuidade dos atuais veículos e a ampliação das tiragens, a fim de atender a segmentos cada vez maiores da opinião pública brasileira.

O grande desafio é pretender – e conseguir - que os poderosos que se sentem incomodados e ameaçados pela mídia ambiental independente também financiem esta mesma mídia com seus anúncios. Não é de se estranhar a ausência dos veículos especializados em meio ambiente nos planos de mídia das grandes empresas poluidoras, com raras exceções. Estas exceções ficam por conta de dois fatores. Empresas líderes que aprenderam a conviver com a Democracia e aceitam as críticas como parte da regra do jogo e mesmo como um fator positivo que as leva ao aperfeiçoamento do sistema de gestão ambiental. E empresas que reconhecem o crescente grau de consciência ambiental da sociedade e sabem que precisam agregar valor ambiental às suas imagens corporativas e aos seus produtos, sob pena de perderem mercado ou terem cada vez mais dificuldade para aprovar novos licenciamentos ambientais ou renovar os existentes.

A democratização da informação ambiental é como uma moeda com dois lados. Num está a informação ambiental de qualidade, no outro, o financiamento desta informação. Recebemos diariamente em nossas redações dezenas, centenas de releases de agências de imprensa, de empresas, de governos, do terceiro setor com sugestões de pauta, de fontes, na tentativa de serem incluídos na pauta. A maior parte deste material vai simplesmente para o lixo, por que não temos veículos suficientes para todas as potenciais notícias que mereceriam chegar à Sociedade. Trata-se de um paradoxo. As mesmas empresas e organizações que, por um lado, enchem as redações da mídia especializada com releases, por outro, excluem esses veículos de seus planos de mídia, talvez por que não queiram financiar, no fundo, uma mídia que as incomoda e ameaça na mesma proporção em que resiste e permanece independente e crítica.

Uma alternativa possível para o financiamento da mídia ambiental seriam verbas públicas, no mínimo para bancar os custos de produção editorial e gráfica e de postagem. Não se trata de uma idéia absurda por que a democratização da informação ambiental é – ou deveria ser – do interesse público já que a Lei Federal da Educação Ambiental, em seu artigo 5º, inclui a garantia da democratização das informações ambientais entre os objetivos fundamentais da educação ambiental a (Lei nº 9.795 de 27 de abril de 1999, art. 5º, inciso II). Além disso, trata-se de uma medida de justiça com a mídia ambiental já que o Governo Federal – e por sucessão, Governos Estaduais e Municipais – já financia a informação não-ambiental através das verbas de publicidade destinadas aos veículos da chamada Grande Mídia. Bastaria designar um pequeno percentual entre 5% e 10% dessas verbas já existentes para as mídias ambientais.

Durante a ECO 92, os países que participaram, claro, entre eles o nosso, assinaram o compromisso de criar "esquemas inovadores para subsidiar o acesso a essa informação ou para eliminar os impedimentos não econômicos" "sempre que existam impedimentos econômicos ou de outro tipo que dificultem a oferta de informação e o acesso a ela, particularmente nos países em desenvolvimento" (Agenda 21, capítulo 40). Entretanto, todos os nossos apelos para que o Governo Federal assuma sua responsabilidade para assegurar a democratização da informação ambiental em nosso país não resultaram ainda em nenhuma medida prática, a não ser a criação de um GT (Grupo de Trabalho), no âmbito do Ministério do Meio Ambiente, que não conseguiu sair do papel, até agora.


Vilmar Sidnei Demamam Berna é gaúcho de Porto Alegre e vive em Jurujuba, Niterói, em frente à Baía de Guanabara, numa comunidade de pescadores artesanais. Por sua luta constante pela formação da cidadania ambiental planetária foi reconhecido pela ONU com o “Prêmio Global 500 para o Meio Ambiente”. Em 2002, recebeu o título de Cidadão Niteroiense e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas, entre outros




Fonte: Dom Total .
 

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Educação Ambiental
Entrevista com Vilmar Berna
(Págs. 32 a 39) –
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